Relato de Giovanna Ewbank sobre esgotamento emocional chama atenção para os efeitos da condição que vão além dos sintomas físicos 0.5x 1x 1.25x 1.5x 2x 00:00 00:00 Endometriose além da dor: como a doença pode afetar a saúde emocional — Foto: Magnific Relatos de celebridades têm ajudado a ampliar a conversa sobre endometriose, uma doença que pode acompanhar as mulheres por anos e interferir em diferentes aspectos da vida. Giovanna Ewbank foi uma das famosas a falar publicamente sobre a própria experiência e chamou atenção para um aspecto que nem sempre aparece quando o assunto é a condição: o desgaste emocional provocado pela convivência prolongada com sintomas e limitações. O relato traz para o centro da discussão uma questão que vai além das manifestações físicas e envolve também rotina, relacionamentos, trabalho e planos para o futuro. A endometriose ocorre quando há presença de tecido semelhante ao endométrio fora da cavidade uterina. A doença pode provocar cólicas intensas, dor pélvica, desconforto durante as relações sexuais e dor ao evacuar ou urinar, especialmente quando os sintomas acompanham o ciclo menstrual. A intensidade e a combinação das manifestações variam de uma mulher para outra, o que pode tornar o diagnóstico um processo demorado. Para o ginecologista Diler Pereira da Silva, um dos obstáculos ainda enfrentados pelas pacientes é a naturalização da dor menstrual. "Quando uma mulher passa meses ou anos convivendo com cólicas intensas, dor nas relações, alterações intestinais ou urinárias e precisa adaptar compromissos e atividades àquilo que está sentindo, existe um impacto que ultrapassa o sintoma físico. A dor recorrente interfere no sono, na disposição, na sexualidade, no trabalho e na vida social. Por isso, não devemos esperar que ela se torne incapacitante para investigar. Dor menstrual intensa e persistente não deve ser tratada como algo que a mulher simplesmente precisa suportar", explica. Quando os sintomas provocam esgotamento emocional Conviver por longos períodos com dor, consultas, exames e incertezas sobre a própria saúde pode representar uma sobrecarga. O impacto emocional, nesse contexto, não deve ser entendido simplesmente como uma reação exagerada ao diagnóstico, mas como parte de uma experiência que pode exigir adaptações constantes. O psiquiatra Ciro Jorge chama atenção para sinais que podem surgir quando esse processo se prolonga. "Uma condição crônica pode exigir um estado permanente de adaptação. A pessoa precisa lidar com a expectativa da dor, mudanças na rotina, limitações e, muitas vezes, com a sensação de não ser compreendida por quem está ao redor. Quando isso se prolonga, pode haver aumento da ansiedade, irritabilidade, alterações no sono, cansaço emocional e perda de interesse por atividades que antes davam prazer. Esses sinais precisam ser observados porque saúde física e saúde mental não funcionam de maneira separada", afirma. O desgaste pode ser ainda maior quando a mulher demora a encontrar uma explicação para os sintomas. Como as manifestações da endometriose podem ser confundidas com outras condições ou consideradas parte normal do ciclo menstrual, algumas pacientes passam anos até chegar ao diagnóstico. "Existe um desgaste importante quando alguém sente que alguma coisa está errada, mas continua ouvindo que aquela dor é normal. Ser acolhida e ter os sintomas investigados também faz parte do cuidado. Quando existe sofrimento emocional significativo, o acompanhamento psicológico ou psiquiátrico pode caminhar junto ao tratamento ginecológico", acrescenta Ciro. Endometriose pode interferir nos planos para o futuro Outra preocupação que pode surgir nesse contexto está relacionada à fertilidade. Ter endometriose não significa necessariamente enfrentar dificuldades para engravidar, mas a doença pode estar associada a alterações reprodutivas em algumas pacientes. Por isso, a possibilidade de uma gestação deve ser avaliada de acordo com o histórico e os planos de cada mulher. Segundo a ginecologista e especialista em reprodução humana Rosaly Bustelo Saab, a presença da doença, por si só, não permite prever a capacidade reprodutiva de uma paciente. "Ter endometriose não significa que a mulher necessariamente terá dificuldade para engravidar. Quando existe desejo de maternidade, porém, é importante avaliar idade, reserva ovariana, localização e extensão da doença e os planos daquela paciente. Informação é fundamental justamente para que decisões sobre fertilidade não sejam tomadas pelo medo, mas a partir de uma avaliação individualizada", esclarece.