Há críticas econômicas que ajudam a qualificar o debate público. Outras revelam o quanto o debate brasileiro ainda está preso a velhos dogmas. Ao associar a heterodoxia ao terraplanismo sanitário, como fez o editorial "É urgente recolocar as contas públicas nos trilhos" (15/8), esta Folha recorre a uma caricatura que não contribui para compreender os problemas econômicos do país.
A heterodoxia não representa a negação da ciência econômica, mas uma tradição intelectual que inclui Keynes, Kalecki, Schumpeter, estruturalistas latino-americanos e pós-keynesianos. Suas ideias integram pesquisas sobre crescimento, estabilidade financeira, desigualdade e transformação produtiva. Aquilo que o editorial apresenta como "velharias" está longe de ter sido abandonado por governos ao redor do planeta.Tome-se a gestão dos fluxos de capitais. Durante décadas, a liberalização financeira foi apresentada como caminho natural para economias emergentes. A experiência mostrou, porém, que esses fluxos podem ser voláteis e provocar fortes movimentos, com consequências sobre inflação, endividamento e atividade econômica.
O próprio FMI reconhece, em seu "Integrated Policy Framework", a possibilidade de utilizar medidas de gestão dos fluxos de capitais em certas circunstâncias. Isso não significa defender controles indiscriminados, mas reconhecer que a abertura financeira não é um fim em si mesma e que países sujeitos a choques externos precisam administrar riscos.






