A reforma da tributação sobre o consumo, instituída pela Emenda Constitucional n.º 132/2023 e regulamentada pelas Leis Complementares n.º 214/2025 e n.º 227/2026, é uma das mais importantes mudanças estruturais realizadas no Brasil nas últimas décadas, devendo aumentar a produtividade e o crescimento econômico potencial.PUBLICIDADEUma das características da reforma tributária promulgada pelo Parlamento com a presença do Executivo é aumentar a transparência, e esta tem alimentado interpretações equivocadas sobre o tamanho da carga tributária Foto: Lula Marques/Agência BrasilParadoxalmente, porém, a maior transparência do novo sistema tem alimentado interpretações equivocadas sobre o tamanho da carga tributária, especialmente quando a alíquota estimada do IVA, calculada “por fora”, é comparada diretamente com as atuais alíquotas calculadas “por dentro”.Um exemplo simplificado esclarece a questão. Suponha uma mercadoria vendida ao consumidor por R$ 100, sujeita a ICMS de 18% e a PIS/Cofins de 9,25%, ambos calculados “por dentro”, mas com exclusão do ICMS da base do PIS/Cofins. No preço final estão incluídos R$ 18 de ICMS e R$ 7,59 de PIS/Cofins. Descontados os dois tributos, o preço líquido é de R$ 74,41. Expressa “por fora”, a carga do sistema atual corresponde a R$ 25,59 divididos por R$ 74,41, isto é, 34,4%.PublicidadeÉ essa alíquota de 34,4% que deve ser comparada com a alíquota estimada de 28% para a CBS e o IBS. Nesse exemplo, representativo de uma parcela ampla das mercadorias, a propalada “maior alíquota do mundo” será inferior à carga atual. Mantido o preço líquido de R$ 74,41, a aplicação de um IVA de 28% resultaria em um preço final de R$ 95,25, e não de R$ 128. O risco inflacionário surge justamente da incompreensão dessa diferença: empresas mal-informadas, ou simplesmente oportunistas, podem tentar incorporar a seus preços uma suposta elevação da carga tributária. É certo que ela aumentará para alguns serviços, mas se reduzirá para a grande maioria dos produtos industrializados.Se essa prática de reajustes preventivos se disseminar, uma reforma concebida para aumentar a transparência e reduzir distorções poderá acabar pressionando a inflação. Por isso, sobretudo durante este período de transição, o amplo esclarecimento de produtores, comerciantes e consumidores quanto ao funcionamento do novo IVA é parte essencial e urgente de sua implantação.Vale ler tambémSplit payment, CNPJ técnico: o que ainda falta para a reforma tributária começar de verdade em 2027?Em plena expansão, Coamo mira R$ 30 bi em faturamentoA baixa produtividade do trabalho é um dos principais limitadores do crescimento de uma economia