Premier de Israel mantém apoio aos colonos e ao projeto de colonização da Cisjordânia, afirma Guga Chacra em newsletter especial 0.5x 1x 1.25x 1.5x 2x 00:00 00:00 Soldados israelenses chegam ao vilarejo de Qusra, na Cisjordânia ocupada por Israel: local tem enfrentado uma escalada da violência por parte de colonos israelenses no último mês — Foto: Jaafar Ashtiyeh/AFP Desde a eclosão da guerra no Irã, Guga Chacra escreve newsletter diária com informações e análises exclusivas. Clique aqui para se inscrever. Benjamin Netanyahu condenou ataques de colonos israelenses a palestinos e jornalistas norte-americanos depois de mais um dia de violência contra a população palestina na Cisjordânia. A atitude do primeiro-ministro de Israel pode surpreender alguns porque ele se ampara politicamente nos moradores de assentamentos para se sustentar no poder. Seria uma guinada do premier? Sem mudança – Não, Netanyahu segue firme no apoio aos colonos e ao projeto de colonização da Cisjordânia. Inclusive, suas forças armadas pouco fazem para reprimi-los em meio à opressão aos palestinos. Ao mesmo tempo em que colonos promoviam ataques, soldados israelenses realizavam operações militares contra palestinos no território. Objetivo – A declaração de Netanyahu tem dois objetivos. Em primeiro lugar, visa agradar o governo de Donald Trump, insatisfeito com os constantes ataques dos colonos. O premier falou algo sem muito efeito apenas para “cumprir tabela”, sem tomar ações formais. O próprio presidente norte-americano quer apenas uma manifestação retórica para satisfazer aliados na região, como a Turquia, a Arábia Saudita, o Egito e o Paquistão. Prioridade – O segundo objetivo de Netanyahu — e esse seria o mais importante — é tentar separar os indivíduos mais radicais do restante dos colonos na Cisjordânia. O premier fala em um “punhado de manifestantes violentos”. Segundo o primeiro-ministro, a minoria não representaria a população israelense na Cisjordânia e em Jerusalém Oriental, que totaliza mais de 700 mil pessoas. Diferença – É correto afirmar que a imensa maioria dos colonos na Cisjordânia não está envolvida em atos de violência contra palestinos. Vivem no território por questões religiosas ou mesmo econômicas — é mais barato morar em um assentamento do que em cidades como Tel Aviv e Haifa, localizadas dentro do território de Israel reconhecido pela comunidade internacional. Empoderamento – Netanyahu, no entanto, empoderou as vertentes mais radicais dos colonos. Dois de seus ministros (Itamar Ben-Gvir e Bezalel Smotrich) são extremistas, mais próximos dos colonos violentos do que da maioria não envolvida em ataques. O Exército de Israel também realiza ataques contra palestinos, como neste fim de semana, e pouco faz para interromper a violência dos colonos. As declarações do premier, portanto, significam pouco para o que acontece no território. Palestinos – A Cisjordânia é considerada parte de um futuro Estado palestino pela comunidade internacional. Mas o projeto de colonização, iniciado em 1967, depois da Guerra dos Seis Dias, inviabiliza essa possibilidade. Netanyahu, assim como a maior parte dos líderes políticos israelenses, rejeita uma Palestina independente. Os três milhões de palestinos no território vivem sob ocupação, sem direito à cidadania ou a um país independente — os colonos israelenses são cidadãos de Israel. Divisão – Formalmente, Israel nunca anexou a Cisjordânia. Os acordos de Oslo preveem uma divisão em três áreas, que seria transitória até o estabelecimento de um Estado palestino. A área A (20%) teria administração civil e de segurança da Autoridade Palestina (AP). Na prática, Israel faz o que bem entende nesta área. Já a B (20%) teria administração civil da AP e de segurança de Israel. Os 60% restantes, que formam a área C, estariam sob controle civil e militar israelense. Anexação – Integrantes do governo de Israel defendem a anexação, mas não Netanyahu. Alguns mais radicais querem até mesmo a expulsão dos palestinos, em um processo de limpeza étnica. Jerusalém Oriental e as Colinas do Golã (território sírio) foram anexados ilegalmente por Israel, e seus habitantes receberam direito à cidadania israelense. É diferente da Cisjordânia. Cerca de 60% da Faixa de Gaza e o sul do Líbano não são alvos de colonização, sendo ocupados militarmente.