Operadoras estão atentas à transformação digital da saúde para oferecer redes de alta capacidade 0.5x 1x 1.25x 1.5x 2x 00:00 00:00 OpenCare 5G tem feito exames de imagem vistos em tempo real em São Paulo — Foto: Divulgação De um lado, robôs de última geração e centros de saúde no patamar dos melhores do mundo. De outro, dificuldade para acessar procedimentos simples. Em um país continental, com mais de 25 milhões de pessoas vivendo em áreas rurais e especialistas concentrados em grandes centros, levar a medicina a toda a população é um desafio. A rede móvel de dados ajuda a encurtar essa distância e o 5G contribui para aproximar especialistas de quem precisa, além de abrir espaço para soluções inovadoras visando agilizar o atendimento nas redes pública e privada. Conectividade segura, resiliente e capaz de suportar grandes volumes de dados em tempo real é fundamental para acompanhar a transformação digital da saúde. O OpenCare 5G é um projeto de pesquisa multidisciplinar que uniu medicina e tecnologia em Miguel Alves, no Piauí, onde 70% da população é rural. De maio de 2025 a fevereiro deste ano, exames de imagem foram conduzidos por profissionais de saúde do município, treinados e acompanhados em tempo real via rede 5G por especialistas da Beneficência Portuguesa de São Paulo (BP), que está à frente do projeto e conta com a parceria do InovaHC, ligado ao Hospital das Clínicas da USP, da Samsung e do Centro de Pesquisa e Desenvolvimento em Telecomunicações. Para isso, a estabilidade e confiabilidade da rede 5G foram imprescindíveis. — O primeiro grande desafio foi o 5G. Tivemos de testar porque, na hora de um exame como ultrassom ou ecocardiograma, é preciso haver uma latência muito baixa. Quando é feita a medida, há um fluxo para determinar se uma válvula cardíaca está com uma insuficiência discreta ou importante. O delay inviabilizaria o experimento — explica Marcelo Nishiyama, cardiologista da BP e coordenador do OpenCare 5G. O OpenCare 5G surgiu de um projeto anterior do InovaHC para testar a tecnologia 5G na área da saúde. — Eles fizeram um projeto-piloto no Xingu, com ultrassom obstétrico e abdominal, em que conseguiram ver a viabilidade do 5G para exames de telediagnóstico. A BP entrou na parceria para fazer testes mais robustos e ver até onde a gente conseguiria ir — explica o cardiologista. Redes privativas As operadoras de telefonia estão cada vez mais atentas às demandas de conectividade da transformação digital da saúde. Rogerio Takayanagi, CTO da Vivo, reconhece que a nova geração de aplicações médicas exige redes com alta capacidade de transmissão, baixa latência e elevada disponibilidade, criando oportunidades de novos serviços e receitas. — As redes de fibra e 5G da Vivo já suportam aplicações intensivas em dados, como telemedicina, telemonitoramento, compartilhamento de exames de imagem em alta resolução e acompanhamento remoto de pacientes, impulsionando a transformação digital — diz o executivo. Com a evolução do 5G, a Vivo passou a oferecer redes privativas móveis, permitindo a segmentação da infraestrutura de rede para atender diferentes necessidades hospitalares com níveis de desempenho, segurança e qualidade de serviço. — Isso possibilita, por exemplo, priorizar aplicações críticas como telemedicina, monitoramento de pacientes, sistemas clínicos e equipamentos conectados, garantindo uma experiência mais previsível e confiável para as operações de saúde. Segundo Nishiyama, o Piauí tem apenas quatro equipamentos de ecocardiograma na rede pública. Em Miguel Alves, os pacientes com indicação para fazer o exame esperavam até 180 dias e tinham de ir a Teresina, a 117 km de distância. Muitos se negavam. Devido à demora, o quadro se agravava e ir para a capital virou sinônimo de situação sem volta, de sentença de morte. Durante os testes do OpenCare 5G, 910 exames de teleecocardiograma, teleultrassom obstétrico simples e morfológico e teleultrassonografia para investigação de endometriose foram realizados na cidade, que tem cerca de 33 mil habitantes. Tudo acompanhado em tempo real por especialistas em São Paulo, chancelando o uso do 5G para o diagnóstico a distância. Orientação remota Prestes a serem publicadas em revistas científicas, as conclusões da pesquisa também geram oportunidades para a rede privada. Em uma cirurgia de marca-passo, por exemplo, o médico pode ter dificuldade de introduzir um eletrodo e, em vez de o ecocardiografista ir ao centro cirúrgico, pode orientar a equipe remotamente, reduzindo o tempo do paciente no procedimento. Também abre caminho para o acompanhamento à distância em situações de sobreaviso noturno ou de fim de semana. — Ainda estamos avaliando oportunidades. Na saúde pública, uma das opções seria criar centros regionais para a realização dos exames com apoio remoto, desafogando filas e dando acesso a quem hoje, na prática, não tem — afirma Nishiyama. Segundo a Vivo, sua cobertura 4G chega a 98% da população e o 5G alcança cerca de mil municípios e mais de 73% da população do país, abrindo oportunidades de negócio para soluções de telemedicina. Já a TIM afirma que atua na democratização da saúde usando a rede móvel e o avanço do 5G para conectar pacientes a médicos. No campo tecnológico, a companhia detém a maior rede NB-IoT do país e desenvolve soluções baseadas em Internet das Coisas, inteligência artificial e análise de dados, viabilizando a integração de múltiplos aparelhos, sensores e sistemas de controle, criando o ambiente necessário para a gestão de dados, monitoramento em tempo real e avanço de aplicações inteligentes na saúde. Segundo Charles Souleyman, diretor-executivo Médico da Amil, a operadora trabalha na implantação de cabines de telemedicina equipadas com dispositivos que fornecem informações adicionais ao médico durante a consulta. A incorporação de dados gerados por outros equipamentos conectados também abre novas possibilidades para o acompanhamento dos beneficiários.