Planos de saúde mais que dobraram os atendimentos virtuais desde a pandemia. SUS usa núcleos de atenção especializados nos postos 0.5x 1x 1.25x 1.5x 2x 00:00 00:00 A médica da família Lais Barbosa durante um atendimento de telemedicina. Atividade foi autorizada pelo Congresso em 2022 e regulamentada pelo Conselho Federal de Medicina — Foto: Fernando Ferraresi/Amil Depois de seu uso ter se intensificado na pandemia, a telemedicina já figura entre as prioridades estratégicas das empresas de saúde privada e impulsiona o surgimento de companhias especializadas no segmento de atendimento virtual. Durante a pandemia da Covid-19, o Ministério da Saúde autorizou o uso da telemedicina para atendimento pré-clínico, assistencial, consultas, monitoramentos e diagnóstico durante a crise sanitária. Em 2022, a Câmara dos Deputados aprovou o projeto de lei que autoriza a telessaúde no país, e o Conselho Federal de Medicina (CFM) regulamentou a prática em caráter definitivo. Chefe da disciplina de Telemedicina da Faculdade de Medicina da USP, o professor Chao Lung Wen avalia que o Brasil já avançou na estrutura regulatória para oferta de serviços em telessaúde, mas ainda há lacunas na definição de boas práticas. Para ele, o próximo passo é qualificar o atendimento, inclusive com ambientes físicos preparados para complementar o serviço remoto. Wen também propõe que as empresas do setor que oferecem atendimentos de telessaúde sejam avaliadas por entidades de acreditação que atestem as boas práticas: —É preciso deixar de enxergar a telemedicina como apenas um atendimento via smartphone. A telessaúde tem de servir como estratégia de cuidado integrado das pessoas para levar a uma resolutividade de fato. Serviços de urgência Dados compilados pela Federação Nacional de Saúde Suplementar (FenaSaúde), que representa dez operadoras, mostram que os convênios realizaram 11 milhões de consultas a distância entre 2020 e 2022. Em 2023, os últimos números disponíveis, foram 30 milhões de atendimentos. Em geral, planos de saúde embarcaram em seus aplicativos e sites os recursos de telessaúde, com consultas tanto de urgência, disponíveis 24 horas por dia para demandas de baixa complexidade, quanto atendimentos agendados com especialistas. Na Amil, são cerca de 200 mil consultas remotas por mês, e a procura tem aumentado. Na urgência, foram 102 mil atendimentos em maio de 2025 contra 123 mil no mesmo período deste ano. Já as consultas eletivas saltaram de 37 mil em janeiro do ano passado para 114 mil em maio último. O interesse pelos atendimentos à distância reflete o contexto da saúde do país. Diretor-executivo Médico da operadora, Charles Souleyman destaca que, nos últimos meses, houve um aumento expressivo na busca por consultas com endocrinologistas e psiquiatras. — No caso da endocrinologia, há o interesse por canetas emagrecedoras. Em psiquiatria, acompanha o crescimento das demandas relacionadas à saúde mental, observada desde a pandemia — analisa. O executivo ressalta que a estratégia da operadora é usar os recursos da telemedicina para ampliar as linhas de cuidado para pacientes que precisam de acompanhamento contínuo. Caso, por exemplo, de gestantes, pessoas com obesidade ou determinados quadros de saúde mental. A operadora também está testando um modelo de fisioterapia remota para pacientes com dificuldade de deslocamento. — A telemedicina tem permitido ampliar o acesso ao cuidado, inclusive em situações em que há menor disponibilidade presencial de determinadas especialidades. Na urgência, mais de 90% dos beneficiários têm suas necessidades resolvidas remotamente, sem precisar buscar atendimento presencial — afirma Souleyman. Atendimentos de telemedicina passaram a ser disponibilizados a usuários da Bradesco Saúde em 2020. Desde então, 1,3 milhão de pacientes já passou por quatro milhões de consultas. Diretora da operadora, Thais Jorge observa que, por ser um serviço indicado para demandas de baixa complexidade, clínicos gerais são os profissionais mais buscados, além de psicólogos: — A consolidação da telemedicina nos últimos anos ajudou a superar parte das barreiras existentes no início de sua utilização em maior escala, o que é natural. Hoje, há uma familiaridade maior de pacientes e profissionais. Mas ela não substitui indiscriminadamente a consulta presencial. Há situações em que exames complementares ou avaliação presencial são necessários, e a integração adequada entre os canais é fundamental. Especial tecnologia em saúde - Difícil acesso. Em regiões remotas, exames e laudos de retinografia são feitos virtualmente — Foto: Divulgação/Ministério da Saúde Abriu-se também um filão de mercado, com empresas se especializando nesses serviços. A Conexa é um dos exemplos. Com seis mil profissionais distribuídos em 35 especialidades, entre médicos, psicólogos, fonoaudiólogos e nutricionistas, a empresa presta serviço de telessaúde para 190 operadoras de planos de saúde, além de empresas que contratam o serviço para disponibilizar a seus funcionários. Até meados de agosto, a empresa realizou este ano 3,5 milhões de consultas. Em todo o ano passado foram quatro milhões, o que projeta um crescimento de 30% em 2026. Vice-presidente Médico da Conexa, Gabriel Garcez detalha que metade dos atendimentos é de psicoterapia. Em seguida, aparecem consultas de pronto atendimento digital com médicos generalistas. Segundo o executivo, somente 6% dos pacientes precisam ser encaminhados para atendimento presencial em hospitais. — Se tínhamos uma média de 0,6% a 0,8% de taxa de utilização lá em 2020, 2021, hoje há operadoras com mais de 4% de taxa de utilização mensal aqui na Conexa. A pandemia passou e a telessaúde deixou de ser uma vantagem para se provar como uma ferramenta que dava retorno a quem está contratando, seja esse retorno financeiro, seja esse retorno de desfecho clínico — defende Garcez. A telessaúde também foi incorporada ao Sistema Único de Saúde (SUS). Entre janeiro de 2025 e este mês de agosto, 10 milhões de procedimentos remotos foram registrados. A estratégia de saúde digital do governo federal funciona a partir dos chamados núcleos de telessaúde (NTS), centros especializados em teleatendimento que se conectam com as unidades básicas de saúde nos municípios. A estrutura está em expansão. Em 2023, eram 12 NTS no país, contra os 63 atuais que atendem cerca de quatro mil municípios. No posto de saúde Secretária de Informação e Saúde Digital do Ministério da Saúde, Maria Aparecida Cina da Silva explica que os recursos são indicados quando há dificuldades de acesso a profissionais especializados ou necessidade de apoio às equipes da atenção primária. Quando a avaliação presencial é necessária, o paciente é encaminhado aos serviços específicos. Funciona assim: os pacientes vão até o posto de saúde mais próximo e, numa sala dedicada a isso, passam pelos atendimentos a distância. As especialidades mais procuradas são cardiologia, neurologia, dermatologia e endocrinologia. Além das consultas, profissionais de saúde discutem casos remotamente, a equipe busca orientação de especialistas, e o telediagnóstico, que permite realizar exames no próprio território e emitir laudos remotamente — como no tele-ECG, na teledermatoscopia e na telerretinografia. — Num país com dimensões continentais como o Brasil, ferramentas de telessaúde representam uma estratégia importante de redução das desigualdades territoriais de acesso, permitindo que o conhecimento especializado circule pela rede e chegue mais próximo de onde o usuário vive — argumenta Maria Aparecida. Apesar disso, ainda há gargalos de infraestrutura tecnológica, conectividade e qualificação dos profissionais, admite a secretária. Para o professor Chao Lung Wen, da USP, o SUS tem sido eficiente nessa frente: — A implementação de salas de teleatendimento, áreas específicas para isso dentro das unidades de saúde, é um diferencial, contra uma visão da telemedicina apenas como consultas à distância, pelo celular.