Um dia, o escritor George Saunders voava tranquilo de avião quando, de repente, um dos motores parou de funcionar. Então era isso, pensou. Chegou o fim de tudo. Lembrando hoje esse pânico súbito, o que mais o impressiona —porque, claro, a nave pousou e o autor sobreviveu— são as coisas em que ele não pensou naquela hora.
Não pensou em sua família. Não pensou em seus livros. Não fez um balanço de seus sucessos e fracassos. Era um animal, puro instinto, um outro tipo de ser vivo. Guardou dessa experiência um olhar inédito sobre a vida, desincumbido de qualquer peso ou de qualquer pose.
Muito desse episódio se decantou em seu novo livro, "Vigília", romance sobre um magnata do petróleo que agoniza em seu leito de morte.K.J. Boone é quase um vilão de cinema. Comandando sua empresa, teve tanta culpa no cartório da crise climática que se acostumou a ter seu nome estampado em cartazes de ativistas ambientais. Arrecadou seus bilhões pagando cientistas para produzirem relatórios afirmando que o aquecimento global era mentira. Ou que havia dúvida razoável.
Fez explorações predatórias que levaram a desastres em comunidades pobres —quando cenas assim passavam na televisão, era seu hábito desligar para não lidar com o "sentimentalismo barato". E virou mestre em elaborar argumentos que defendiam, com racionalidade iluminista das mais convincentes, que o progresso não pode ser parado.O que uma pessoa assim pensa nos seus últimos momentos, diante da morte certa?








