Mercado imobiliário no Rio tem aquecido pela demanda de turistas e por reformas em apartamentos inicialmente destinados a aluguel de curta duraçã 0.5x 1x 1.25x 1.5x 2x 00:00 00:00 Rodrigo Barbosa, do Morabilidade — Foto: Arquivo pessoal Janela com vista para um cartão-postal, escada com contornos de obra de arte, detalhes da composição de um piso raro de taco... Nas mãos de uma nova geração de corretores com milhares de seguidores nas redes sociais, casas e apartamentos deixam de ser apenas imóveis à venda e ganham storytelling. Nos vídeos que misturam humor, informação e olhar sensível ao ambiente externo e interno, eles apresentam menos metragem e número de quartos e mais histórias, descobertas e experiências. Rosto e fundador do perfil Morabilidade, com quase 110 mil seguidores no Instagram, Rodrigo Barbosa, de 45 anos, iniciou a carreira no mercado imobiliário on-line em 2010, quando voltou a morar no Brasil depois de quase uma década fora do país. Os vídeos dos anúncios eram simples, sem narração, até que uma amiga, em 2024, sugeriu que o corretor passasse a apresentá-los em frente à câmera e se transformasse em sua “própria ferramenta de venda”. “Vi que era uma ótima estratégia logo na primeira gravação, porque consegui fazer com que meu olhar amarrasse a história do imóvel, ressaltando coisas que eu particularmente achava importante”, comenta o carioca. “No ano passado, atingimos 60% da nossa meta anual de vendas em menos de uma semana. Nossa penúltima de agora, por exemplo, foi feita em 20 horas. É impressionante, porque comprar uma casa demanda um processo que não é tão imediato.” Além do carisma de Rodrigo, o mercado aquecido por compradores internacionais o tornou uma espécie de celebridade a ponto de ser reconhecido em espaços públicos. “Fico feliz de ver a quantidade de elogios que recebo, as pessoas me param na rua. Divertem-se assistindo aos vídeos e ficam levantando teorias nos comentários sobre como são as famílias proprietárias”, conta. Quem também viu a vida mudar com o ofício nas redes foi Gabriel Rodrigues, de 39 anos, corretor de imóveis desde 2019. O carioca posta vídeos apresentando os espaços no seu Instagram pessoal, onde é seguido por 42 mil pessoas, e no da Okre Imobiliária, onde é o “vendedor número 1”. “Vendo dez apartamentos no Leblon e em Ipanema por mês. Minhas comissões são altas, comecei a ganhar muito dinheiro e consegui tirar minha mãe da favela”, afirma o carioca, que veio da Rocinha. “Este ano, já vendi 15 apartamentos em 24 horas.” Vídeos virais, no entanto, nem sempre são bons para o negócio, salienta o profissional. “Viralizar é bom para a página, mas não costuma vender. Precisei contratar uma assistente para me ajudar a responder o volume de mensagens de potenciais clientes.” As mídias sociais se tornaram vitrines para todos os tipos de serviço, de acordo com a consultora de Comunicação Elis Monteiro, e o mercado imobiliário acompanhou a tendência: “Basta uma câmera na mão para mostrar o produto, e isso ajuda profissões novas e antigas a se reciclarem”. Desmotivada com a área de Educação Física, Lya Torres, de 50 anos, passou a atuar como corretora há dois, justamente em função do barulho que a profissão tem feito nas redes. Hoje, tem 40 mil seguidores no Instagram, onde promete “trazer o imóvel amado em três dias” e comemora a venda de 30 imóveis em apenas seis meses. “Sempre gostei de ler o jornal de domingo, ver os classificados, visitar apartamentos... Depois, com essa dinâmica dos vídeos, consegui mudar a minha vida de verdade”, afirma ela, que em suas andanças como cliente tropeçou em alguns profissionais “difíceis”. “Tive muitas birras, deixei de comprar um apartamento incrível porque o corretor era despreparado, marcou uma visita embriagado.” Outra empresa que também vem crescendo no meio é Meu Metro Quadrado, capitaneado pela dupla catarinense Juliana Carpeggian e Patricia Jucá, com quase 50 mil seguidores acumulados nos três perfis da imobiliária, cada um focado no atendimento em Florianópolis, São Paulo e Rio, onde avaliam ter mais imóveis “com histórias”. As duas empreendem juntas desde 2008. “Passamos as informações da venda de uma forma que não seja piegas. Temos uma preocupação em como vamos comunicar aquele anúncio, honrando também a memória da família que está deixando aquele local”, conta Juliana. Presidente do Conselho Regional de Corretores de Imóveis do Rio de Janeiro (Creci-RJ), João Eduardo Correa ressalta a retomada da cidade como lugar de destaque no cenário internacional. O aumento de turistas e as reformas em apartamentos inicialmente destinados a aluguel de curta duração (em prédios que posteriormente proibiram esse tipo de negócio) são fatores que ajudaram a aquecer o mercado. “Os imóveis em melhores condições viram desejo imediato quando somamos isso à beleza natural do Rio, à gastronomia e aos grandes eventos culturais”, afirma Correa. Ele também reitera que as redes sociais se tornaram o principal veículo de comunicação do ofício, mas pondera que a busca pelo engajamento precisa ser acompanhada de real conhecimento técnico e do número do Creci, registro profissional da categoria, nas postagens. “Hoje, o cliente não sai de casa para visitas sem antes assistir a tudo pela internet. Os que dominam esse mercado on-line saem na frente.” Negócio fechado.