0.5x 1x 1.25x 1.5x 2x 00:00 00:00 Lojas do Ragazzo e Habib´s — Foto: divulgação O número de pedidos de recuperação judicial saltou em 2026. Entre os casos mais recentes estão os de Casas Bahia, Marabraz, Braskem, GPA, Havanna, Grupo Gennius e empresas do agronegócio. Não é possível apontar um único fator ou atribuir os pedidos apenas aos juros altos. Cada empresa tem suas particularidades, dizem especialistas. - Os juros altos, isoladamente, não justificam todos os casos. As causas são a combinação de diversos fatores: juros altos, crédito restrito, alto índice de endividamento, custos, mudanças de hábitos e o próprio modelo de negócio. A recuperação judicial só é deferida para empresas que demonstram viabilidade econômica real. Dentro do cenário de recuperação judicial, há empresas viáveis, mas que estão asfixiadas pelos juros; há aquelas cujo modelo de negócio está defasado; e há empresas que se endividaram em momentos de crédito barato e não conseguem dar conta do passivo — diz Camila Nicolau Juliano, advogada especialista em Direito Empresarial e Contratual do escritório Tardioli Lima Advogados. Na justificativa para o pedido de recuperação, o Grupo Gennius, dono do Habib’s, atribui a crise à pandemia, às mudanças nos hábitos de consumo e aos juros altos. O endividamento, porém, é majoritariamente bancário. O especialista em reestruturação e recuperação judicial Claudio Damasceno, sócio da RGF/BIZDOC, considera que a empresa não fez o “trabalho de casa”. Ele analisa que a recuperação judicial do Grupo Habib’s marca uma ruptura com um dos princípios que ajudaram a construir a trajetória da rede: a operação com caixa próprio e sem dívidas bancárias. O grupo controlado pela família Saraiva chegou à Justiça com R$ 265,2 milhões em dívidas sujeitas à recuperação judicial. A avaliação do especialista é de que a empresa já enfrenta uma situação de “asfixia operacional”, na qual a geração de caixa não seria suficiente para fazer frente ao serviço da dívida. Ele lembra que a empresa, fundada em 1988, fez sua expansão por meio do sistema de franquias, com uma estratégia baseada em preços baixos, que transformou a esfirra em um dos principais símbolos da rede. Para sustentar os preços, o grupo adotou uma estratégia de verticalização: criou empresas próprias para produzir pães e massas, laticínios, sorvetes e outros serviços, além de um call center. A lógica era reduzir a dependência de fornecedores e controlar custos. - O modelo também era marcado pela baixa alavancagem. Durante anos, o grupo operou com recursos próprios e sem depender de financiamento bancário. A mudança desse padrão é apontada pela análise como um dos principais pontos de inflexão para a situação atual. Na recuperação judicial, a dívida é majoritariamente bancária. A análise aponta um passivo bancário superior a R$ 300 milhões, com Bradesco, Daycoval, Banco Original e Inter entre os principais credores. Para Damasceno, o trunfo da produção própria acabou se tornando um problema. A estrutura passou a pesar diante da perda de escala. Com a redução do volume de vendas, fábricas, laticínios, cozinhas centrais e estruturas próprias passaram a representar um custo fixo mais pesado para a operação. A avaliação é de que estruturas desenhadas para funcionar em grande escala deixaram de ser sustentáveis no mesmo nível quando o fluxo de clientes diminuiu. Além disso, a própria cadeia de fornecedores do grupo está envolvida na recuperação. Empresas responsáveis por insumos e serviços, como a Arabian Bread e a Promilat, aparecem como co-devedoras. Outro fator apontado para a crise é a perda do diferencial histórico de preço. A esfirra, que chegou a ser vendida por R$ 0,50 e depois por R$ 1, passou a custar R$ 4,99. A elevação reflete a pressão dos custos de insumos e reduz uma das principais vantagens competitivas construídas pelo Habib’s ao longo de sua história: oferecer comida a preços baixos para consumidores das classes B, C e D. Ao mesmo tempo, a operação enfrentou mudanças no comportamento do consumidor. A pandemia reduziu o movimento presencial e acelerou a migração para o delivery. A expansão do serviço de entrega também aumentou a concorrência e pressionou as margens das lojas de rua. Essa combinação de fatores ocorreu justamente após o grupo ter recorrido ao crédito bancário. - Com a Selic chegando a 15% ao ano em 2025, o custo financeiro passou a pressionar ainda mais uma operação que já enfrentava redução de volume e aumento dos custos. Como não tem capital aberto. Damasceno fez um estudo a partir de projeções. Estima-se um faturamento de aproximadamente R$ 3 bilhões para o Habib’s e utiliza a margem média de EBITDA de empresas comparáveis como exercício. Aplicada ao grupo, uma margem de 13,3% resultaria em um EBITDA estimado de cerca de R$ 399 milhões. Mas, para cobrir aproximadamente R$ 48 milhões de juros anuais sobre uma dívida bancária de R$ 300 milhões, a margem necessária seria de apenas 1,6%, explica Segundo Damasceno, o desfecho dependerá, portanto, da capacidade de o Habib’s reconstruir a geração de caixa sem abandonar completamente o modelo que fez a marca crescer. Para a análise, a crise nasceu da combinação de fatores comuns ao setor, mas ganhou proporções próprias no grupo: