Taxa de juros elevada é central no cenário de crise, encarecendo a dívida e limitando crédito às companhias 0.5x 1x 1.25x 1.5x 2x 00:00 00:00 Gennius, dono de Habib's e Ragazzo, amplia a lista de empresas recorrendo à recuperação judicial no país. Grupo se queixa de efeito da alta taxa de juros e da queda do consumo — Foto: Divulgação Na mesma semana em que a Oi teve sua falência decretada pela Justiça, o Grupo Gennius, dono das redes Habib's e Ragazzo, entou em recuperação judicial, com um passivo de R$ 265 milhões. É mais uma empresa na fila das que recorreram à Justiça para pedir proteção contra execuções movidas por credores, num esforço para reestruturar o negócio. Agora, está ao lado de Casas Bahia, Toky (Mobly e Tok&Stok), Lojas Marabraz, CVLB (Casa&Video e Le Biscuit), Americanas e tantas outras. A crise experimentada por essas empresas tem ao menos dois pontos em comum, segundo especialistas. Um é o salto no valor da dívida e a dificuldade de acesso a crédito devido ao patamar elevado da taxa de juros por um período longo. O outro é o recuo no consumo das famílias brasileiras. Cada uma, no entanto, tem uma trajetória própria e que resultou no pedido de recuperação judicial. Em 2025, foram apresentados 977 processos à Justiça, um recorde na série histórica. Nos quatro primeiros meses deste ano, segundo os dados mais recentes divulgados pela Serasa Experian, foram 268, envolvendo 602 CNPJs. No varejo, o gargalo de crédito tem um efeito de bola de neve na operação. Se há dificuldade de caixa, fornecedores suspendem o fornecimento de mercadorias. Sem estoque, as vendas caem e, com elas, os ganhos da empresa. Crise nas Casas Bahia 1 de 19 Casas Bahia entra em recuperação judicial. Na foto, loja na Avenida Visconde de Pirajá, 161, Ipanema, fechada. — Foto: Fabiano Rocha / Agência O Globo 2 de 19 Casas Bahia entra em recuperação judicial — Foto: Fabiano Rocha / Agência O Globo X de 19 Publicidade 19 fotos 3 de 19 Vendedor das Casas Bahia de Bonsucesso troca o preço da TV, com desconto de mais de R$ 100 — Foto: Lucas Tavares/Agência O Globo 4 de 19 1998 - Problemas com alta de juros no mercado — Foto: Wania Corredo X de 19 Publicidade 5 de 19 Michael Klein, dono da Casas Bahia, na loja em Santa Cruz — Foto: Jorge William 6 de 19 2003 - Inauguração de loja da Casas Bahia na Rua do Catete, com ofertas e banda de música na porta — Foto: André Teixeira X de 19 Publicidade 7 de 19 Fabiano Augusto, o garoto-propaganda da Casas Bahia — Foto: Divulgação /e-mail 8 de 19 Fachada da Casas Bahia e do Ponto frio na Estrada do Cacuia, na Ilha do Governador — Foto: André Teixeira X de 19 Publicidade 9 de 19 Natal 2019 - Loja da Uruguaiana não teve movimento bom — Foto: BRENNO CARVALHO / AGÊNCIA O GLOBO 10 de 19 2021 - Natal Híbrido , centro de distribuição da Casas Bahia em Duque de Caxias — Foto: Domingos Peixoto / Agência o Globo X de 19 Publicidade 11 de 19 2003 - Casas Bahia com juros menores, na Tijuca — Foto: Ricardo Ayres 12 de 19 Michael Klein, CEO da Casas Bahia — Foto: Fabio Rossi X de 19 Publicidade 13 de 19 Garoto-propaganda da Casas Bahia — Foto: Divulgação / E Mail 14 de 19 2014 - Investimento do varejo em áreas próximas a comunidades. Inauguração da Casas Bahia em Ramos, no Complexo do Alemão — Foto: Leo Martins / Agência O Globo X de 19 Publicidade 15 de 19 2020 - Centro de Distribuição da Via Varejo . REABERTURA DESENCADEIA OPERAÇÃO LOGÍSTICA DE GUERRA NO VAREJO E INDÚSTRIA - Retomada gradual do comércio desencadeou uma operação de guerra na logística da indústria e no varejo — Foto: Edilson Dantas / Agência O Globo 16 de 19 Casas Bahia entra em recuperação judicial. Na foto, loja na Avenida Nossa Senhora de Copacabana, 796 , fechada. — Foto: Fabiano Rocha / Agência O Globo X de 19 Publicidade 17 de 19 Loja na Avenida Visconde de Pirajá, 161, Ipanema, fechada. — Foto: Fabiano Rocha / Agência O Globo 18 de 19 Casas Bahia em 1999 — Foto: Gabriel de Paiva/Agência O Globo X de 19 Publicidade 19 de 19 Casas Bahia em 2002 — Foto: André Teixeira Veja os casos de algumas dessas empresas: Gennius (Habib's e Ragazzo) O grupo pediu recuperação judicial na última segunda-feira, 14 de agosto, em demanda já acolhida, informou em nota. Da petição inicial consta uma dívida de R$ 265 milhões. O Gennius reconhece, porém, que o total ultrapassa R$ 300 milhões. Além do impacto da alta da taxa de juros, a empresa de fast-food cita outras razões para as dificuldades financeiras que enfrenta agora. Os problemas tiveram início ainda na pandemia de Covid-19, quando, após investimento em novas lojas, o movimento despencou no período de lockdown e, na sequência, pelo recuo em consumo fora de casa, com a ampla adoção do trabalho remoto e do uso de aplicativos de delilvery. Casas Bahia Com recuperação judicial, Casas Bahia fecha 300 lojas, como uma unidade em Copacabana — Foto: Fabiano Rocha/Agência O Globo Após divulgar um prejuízo de R$ 10,1 bilhões no segundo trimestre deste ano, 18 vezes maior que a perda de igual período de 2025, a Casas Bahia pediu recuperação judicial somando R$ 17,3 bilhões em dívida. Há outros R$ 11 bilhões não incluídos no processo, devidos principalmente a credores financeiros e a fornecedores de eletrodomésticos. A varejista alega que a taxa básica de juros elevada e o endividamento das famílias agravaram a crise situação do grupo, que vive a pior crise de sua história. Em 2024, a companhia passou por uma recuperação extrajudicial, quando fechou acordo com credores financeiros para reperfilar R$ 4,1 bilhões em débitos. Em meados do ano passado, fez uma emissão de novas ações para pagar títulos de dívidas que transformaram a Domus, da Mapa Capital, em acionista controladora da empresa, hoje com 82,11% do capital. Neste mês, 300 lojas foram fechadas e três mil funcionários foram demitidos. Como fica o cliente com o pedido de recuperação judicial da Casas Bahia A Casas Bahia tem investido na expansão de suas operações digitais, principalmente em marketplaces, tendo fechado parcerias com Mercado Livre, Amazon e Shopee. Lojas Marabraz Sem caixa, estoques encolheram e vendas da Marabraz caíram, levando a varejista de São Paulo a pedir proteção judicial — Foto: Reprodução do Instagram A varejista paulista Lojas Marabraz, que chegou a contar com 135 pontos de venda no Estado de São Paulo, pediu recuperação judicial sustentando contar com R$ 140 milhões em dívidas, embora não tenha apresentado os dados contábeis que devem constar legalmente na petição. O grupo alegou estar sem acesso a esses dados porque uma fornecedora suspendeu o serviço que mantém o sistema em que essas informações ficam armazenadas. A crise da Marabraz é resultado de uma disputa societária entre membros da família Fares, que fundou o negócio. A justificativa é que imóveis comerciais e centros de distribuição usados como garantias do grupo para fechar contratos com instituições financeiras estavam em nome de uma sociedade patrimonial da família controladora. Como o controlador da Marabraz, Nasser Fares, deixou essa holding, bancos credores passaram a pedir novas garantias, limitando a oferta de crédito. O site da companhia saiu do ar em 2025 e quase todas as lojas estão fechadas. Grupo Toky Com dívida bilionária, dono de Tok&Stok e Mobly também iniciou processo de reestruturação — Foto: Divulgação e Rebecca Maria/Agência O Globo Dono das marcas Mobly e Tok&Stok pediu recuperação judicial em maio, com uma dívida de R$ 1,1 bilhão a sanar. A união das duas companhias foi feita em novembro de 2024, após uma a Tok&Stok ter passado por uma recuperação extrajudicial. Juntas, somam mais de 60 lojas e de 2 mil empregados. No fim de semana, o Toky divulgou seus resultados do segundo trimestre deste ano, com uma perda de R$ 232,7 milhões, ante ao prejuízo de R$ 88,9 milhões de um ano antes. As vendas tombaram 32%. No balanço, os administradores explicam que o ajuizamento da recuperação judicial agravou a situação operacional no curto prazo. “O impacto temporário sobre a confiança de fornecedores e parceiros comerciais levou à interrupção do abastecimento e a severas rupturas de estoque no período. A indisponibilidade de produtos alongou os prazos de entrega, reduziu a captação de novas vendas e elevou de forma relevante o volume de cancelamentos de pedidos, afetando expressivamente a receita operacional líquida reconhecida no trimestre”, consta na apresentação de resultados. Consumidora faz compras em uma loja da Americanas em São Paulo — Foto: Maira Erlich/Bloomberg Uma das maiores varejistas do país entrou em recuperação judicial em janeiro de 2023, com mais de R$ 42 bilhões em dívidas, dias após virem à tona inconsistências em balanços financeiros da empresa mais tarde confirmados como uma fraude de R$ 25 bilhões. A revelação foi feita por Sérgio Rial, ex-presidente do Santander, ao renunciar ao cargo de CEO da Americanas depois de apenas nove dias na função. O antigo CEO fugiu do país, diversos executivos são investigados por supostos crimes financeiros. No processo de reestruturação, a companhia recebeu aporte de R$ 12 bilhões de seus sócios de referência — Jorge Paulo Lemann, Beto Sicupira e Marcel Telles, fechou centenas de lojas e vem vendendo ativos, como está fazendo agora com a rede Hortifruti Natural da Terra. Em março, a Americanas pediu o encerramento de seu processo de recuperação judicial.