Montanha é sagrada para quatro tradições religiosas e circuito ao redor de sua base é feito em três dias; rota também depende de autorizações das autoridades chinesas 0.5x 1x 1.25x 1.5x 2x 00:00 00:00 Imagens aéreas revelam rastro de destruição após deslizamento no Himalaia — Foto: Infoglobo Cerca de 1,5 mil pessoas seguem desaparecidas após as inundações que atingiram a região do Himalaia na quarta-feira, entre elas centenas de peregrinos que viajavam para o Monte Kailash, uma das montanhas mais sagradas para hindus, budistas, jainistas e seguidores da tradição tibetana Bon. Para chegar ao destino, milhares de devotos enfrentam todos os anos uma jornada de cerca de 52 quilômetros, que inclui uma passagem a 5.630 metros de altitude e trechos em que a quantidade de oxigênio disponível é aproximadamente metade daquela encontrada em condições normais. A peregrinação ao Kailash Manasarovar é uma das mais importantes para diferentes tradições religiosas do sul da Ásia e do Tibete. O monte nevado, localizado no sudoeste do Tibete, próximo às fronteiras com Nepal e Índia, se eleva a mais de 6.400 metros acima do nível do mar e fica perto do lago Manasarovar. Para os peregrinos, porém, o objetivo não é chegar ao topo da montanha: tradicionalmente, eles percorrem a pé um circuito ao redor de sua base, em uma jornada conhecida como parikrama. Segundo a tradição, completar uma volta ao redor do Kailash equivale a 12 anos de penitência. Acredita-se que o percurso purifique os peregrinos de seus pecados. Hindus e budistas fazem tradicionalmente o circuiro no sentido horário, enquanto os seguidores do Bon percorrem a montanha no sentido anti-horário. No lago Manasarovar, alguns hindus também se banham nas águas como parte de um ritual de purificação espiritual. Muitos devotos, porém, não chegam ao fim da jornada. Alguns voltam no meio do caminho, derrotados pela altitude. Outros são barrados por uma enxurrada de documentos para conseguir uma das várias autorizações exigidas pelas autoridades chinesas para entrar no Tibete. Desta vez, porém, o obstáculo para os peregrinos que faziam o percurso foi outro: uma torrente de água barrenta devastou a região. Como resume o jornal Indian Express, a peregrinação Kailash Manasarovar talvez seja uma das poucas no mundo em que geografia, política e fisiologia influenciam a possibilidade de chegar ao fim. E, depois disso, Deus decide. Montanha sagrada O Kailash ocupa um lugar especial em diferentes religiões. Segundo o Centro Internacional para o Desenvolvimento Integrado das Montanhas (ICIMOD, na sigla em inglês), a montanha é considerada a morada de Shiva, deus hindu da destruição, e de Parvati, deusa associada ao casamento, à fertilidade e à maternidade. Para os seguidores do Bon, tradição religiosa indígena do Tibete, o local é considerado um centro de poder espiritual e está associado a Tonpa Shenrab, fundador da tradição. Já na cosmologia hindu e budista, o Kailash é relacionado ao mítico Monte Meru, considerado o centro do mundo. A paisagem ao redor da montanha também é cercada por histórias e tradições. Peregrinos tibetanos costumam parar em mosteiros e outros locais sagrados ao longo do percurso, tocando contas de oração ou a testa em elementos considerados portadores de marcas sagradas. Uma jornada de três dias A parikrama começa em Darchen, cidade localizada a 4.560 metros acima do nível do mar e usada como base pelos peregrinos. De lá, eles seguem até Yamadwar, onde fazem orações antes de iniciar a caminhada. O percurso leva cerca de três dias e fica progressivamente mais difícil. Um dos primeiros trechos é uma subida de aproximadamente 650 metros até o mosteiro de Dirapuk. A altitude já é suficiente para deixar muitos peregrinos com tontura. O maior desafio, no entanto, é a passagem de Dolma La. Com 5.630 metros acima do nível do mar, ela é o ponto mais alto da parikrama. Nessa altitude, o ar contém aproximadamente metade da quantidade de oxigênio a que o corpo está acostumado. A redução do oxigênio faz o organismo trabalhar mais para compensar. A frequência cardíaca aumenta, os pulmões aceleram o ritmo e outras funções podem ficar mais lentas. Entre os efeitos estão reflexos mais demorados, confusão mental e piora da capacidade de julgamento — condições especialmente perigosas em uma estreita passagem de montanha. Mesmo depois de superar Dolma La, a peregrinação ainda não terminou. A descida até Zutulpuk envolve uma perda de quase 500 metros de altitude e castiga os joelhos dos peregrinos. Só no terceiro dia o trajeto começa a ficar mais fácil, com uma descida mais suave de volta a Darchen. Rota sem muitas alternativas A dificuldade não está apenas na caminhada. Chegar ao Kailash também exige atravessar uma região de terreno acidentado e instável e obter autorização das autoridades chinesas para entrar no Tibete. Para indianos que chegam pelo Nepal, uma das principais rotas utilizadas pelos peregrinos, Pequim estabeleceu uma cota de 24 mil pessoas para 2026. Dezenas de milhares se candidataram. O caminho passa pelo corredor do rio Bhote Koshi, justamente a região atingida pela inundação repentina desta semana. Sem um atalho, há poucas alternativas reais para quem percorre o trajeto. Em julho de 2025, uma enchente menor já havia destruído uma ponte e matado nove pessoas. Esse afunilamento de grandes quantidades de pessoas por corredores de alto risco é o que, muitos argumentariam, torna desastres como esse possíveis. Onda de lama Na manhã de quarta-feira, por volta das 8h37 ou 8h38, no horário local (cerca de 1h de Brasília), um colapso glacial ocorreu em algum ponto das montanhas na fronteira entre Nepal e Tibete. A queda de um bloco de gelo de 600 metros de largura provocou uma onda de água que desceu pelo rio Bhote Koshi, fazendo o curso d'água transbordar e inundando o vale. A força da água destruiu estradas e pontes, esmagou casas e usinas de energia e arrastou pessoas e construções pelo caminho. Uma instalação de imigração operada pelos chineses na fronteira entre Nepal e Tibete também teria sido atingida e levada pela correnteza em questão de segundos. Os peregrinos estavam entre as pessoas atingidas. Segundo uma contagem preliminar do Conselho de Turismo do Nepal, entre os desaparecidos estão 178 cidadãos da Índia, 65 cidadãos dos Estados Unidos, 53 ucranianos, 51 malaios, 35 australianos, 33 britânicos e 25 canadenses. A Espanha também informou que 4 de seus cidadãos estão desaparecidos. O guru espiritual indiano Jaggi Vasudev, conhecido como Sadhguru, também afirmou em uma publicação no X que 77 pessoas que retornavam da montanha em grupos organizados por sua Fundação Isha estavam em um centro de imigração em Gyirong, no Tibete, quando as enchentes atingiram a região. As águas avançaram depois que o colapso de uma geleira lançou uma enorme quantidade de detritos correnteza abaixo, atingindo comunidades dos dois lados da fronteira. Ao menos 389 pessoas morreram, segundo as autoridades locais. Para os peregrinos que estavam no caminho, a tragédia atingiu uma jornada que já era marcada por altitude extrema, falta de oxigênio, terreno instável e uma rota com poucas alternativas — uma peregrinação em que chegar ao destino é, por si só, uma provação. (Com AFP)