Mineração 4.0: a revolução industrial do setorDrones, satélites, 5G, gestão de dados e veículos autônomos já estão na operação da Vale, Rio Tinto e BHP; para especialistas é a revolução industrial do setor. Crédito: EstadãoGerando resumoAvançando em sua estratégia de sair de negócios de commodities, ou de reduzir a exposição, o grupo Votorantim anunciou nesta quinta-feira, 27, a venda do controle da fabricante de zinco e outros metais Nexa Resources para a companhia sueca Boliden, a maior produtora do metal na Europa. O negócio foi consumado numa operação de troca de ações: a companhia da família Ermírio de Moraes passa a ser dona de 7% da nova empresa combinada, ao entregar a fatia de 64,7% que tem na Nexa. PUBLICIDADEO negócio, considerando a oferta pública que será feita pelas ações dos minoritários, é avaliado em US$ 2,025 bilhões pelo valor da ação da Nexa na Bolsa de Nova York (Nyse). Incluindo dívidas, chega a US$ 3,67 bilhões. A fatia da Votorantim (64,7%) foi negociada por US$ 1,31 bilhão, considerando prêmio de 14,2% sobre o valor médio da ação da Nexa até 1º de julho, no período de 20 dias. A expectativa da Boliden é de concluir a aquisição, depois das aprovações de praxe, incluindo seus acionistas, no primeiro trimestre de 2027. O Estadão antecipou as negociações de venda da Nexa em abril. PublicidadeO grupo brasileiro passará a ser o maior acionista da Boliden, que se transforma numa gigante do zinco com produção de quase 700 mil toneladas de minério concentrado e de quase 1,1 milhão de toneladas de zinco metálico equivalente. A nova empresa fruto da incorporação da Nexa terá 12 unidades de mineração e 8 fundições na Europa e na América Latina (Brasil e Peru), com receita combinada estimada em mais de US$ 17 bilhões — nos 12 meses encerrados em 30 de junho, a Boliden reportou US$ 14,27 bilhões. A empresa sueca é listada em Estocolmo, e as ações da Nexa serão mantidas na Nyse.Instalações de mineração e produção de zinco da Nexa Resources no Brasil Foto: Nexa/DivulgaçãoSegundo informações de especialistas, a combinação das operações de Nexa e Boliden cria a terceira maior mineradora e fundidora de zinco do mundo. A combinação dos ativos vai agregar maior escala, ganho de competitividade e diluição de riscos ao diversificar o portfólio geograficamente, competindo com gigantes da Ásia (China e Coreia do Sul, principalmente). Os ativos da Nexa vão valorizar os da Boliden, disse um especialista. Publicidade“O portfólio de ativos combinado da Boliden e da Nexa será altamente atraente e oferecerá uma base sólida para o crescimento futuro. Além disso, estou muito confiante de que a entrada em duas jurisdições de mineração e fundição altamente atraentes na América Latina, em parceria com uma empresa experiente que também se tornará uma acionista relevante da Boliden, trará benefícios para ambas as partes, tanto a curto quanto a longo prazo”, comentou Mikael Staffas, CEO da Boliden. A Votorantim terá direito a um assento no conselho de administração da companhia sueca. “A transação, que segue para a etapa de aprovações regulatórias, está em linha com nossa estratégia de gestão ativa do portfólio e geração de valor e representa uma nova etapa para a Nexa, refletindo o valor construído pela companhia ao longo dos anos e criando condições para sua próxima etapa de desenvolvimento”, comentou a Votorantim, em comunicado.Estratégia leva a novo perfilSegundo desinvestimento do grupo Votorantim no ano, envolvendo a área de mineração e metais. Essa estratégia, de meados da década passada, começou a ser implementada em 2017, com reorganização de ativos. Primeiro a separação das operações de zinco e alumínio (CBA), listando a Nexa em 2017 e vendendo o negócio de siderurgia no Brasil no mesmo ano. Em 2018, se desfez da Fibria, saindo de celulose. A CBA teve ações lançadas na B3 em 2021. PublicidadeNessa visão de reduzir exposição no mercado de commodities, Votorantim vendeu o controle da Companhia Brasileira de Alumínio (CBA) em janeiro deste ano para um consórcio formado pela chinesa Chalco e a anglo-australiana Rio Tinto, por cerca de US$ 900 milhões (R$ 4,7 bilhões). Fundada 65 anos atrás com o nome de Companhia Mineira de Metais, em Minas Gerais, reunindo ativos de zinco, chumbo, cobre e prata, a Nexa hoje tem grande parte de suas operações no Peru, segundo maior produtor mundial de zinco extraído de minas. Leia tambémGrupo sueco confirma negociações com Votorantim para comprar controle da mineradora de zinco NexaVotorantim começa o ano com quase R$ 20 bilhões no caixa. Onde o grupo vai investir esse dinheiro?Chinesa, italiana e Votorantim se destacam na disputa pela CSN CimentosA empresa é atualmente a segunda maior geradora de receita do grupo Votorantim, atrás da Votorantim Cimentos — fez R$ 16 bilhões (US$ 3 bilhões) de faturamento líquido em 2025, ou 27%, e US$ 1,8 bilhão no primeiro semestre. Por sua vez, nos mesmos períodos, a CBA obteve R$ 8,8 bilhões e R$ 4,9 bilhões, respectivamente. PublicidadeA receita do grupo Votorantim, tendo por base o ano passado, emagrece de R$ 53 bilhões para cerca de R$ 30 bilhões, desconsiderados os números das duas companhias. A Nexa, se for mantida nas demonstrações financeiras de 2026, ainda vai agregar receita da ordem de US$ 3,5 bilhões (R$ 18 bilhões). A CBA, que terá a conclusão final do negócio em setembro, já foi desconsiderada desde o ano passado. Em contrapartida, a Votorantim, nos últimos cinco anos investiu em outros negócios: infraestrutura (8% concessionária Motiva, ex-CCR), quase 15% da farmacêutica Hypera, em geração de energia, 38% Auren Energia (terceira maior em renováveis do País) e 60% da joint venture 23S Capital (aportes em empresas de alto crescimento) e 7% da Boliden (a se efetivar a partir de 2027). O grupo continua, por ora, com o controle total da cimenteira, da Altre (mercado imobiliário) e da Acerbrag (aço, na Argentina), com 50% do Banco BV e 33% da Citrosuco. João Schmidt, CEO da Votorantim S.A. desde abril de 2022 Foto: Votorantim/DivulgaçãoAos poucos, ganha nova cara o grupo centenário, fundado em 1918 pelo imigrante português Antônio Pereira Inácio com a compra de uma empresa têxtil em Sorocaba (SP). Já foi um dos conglomerados líderes da indústria no País. O perfil avança para o de uma companhia investidora, com participações minoritárias de empresas de setores diversificados. Vai se consolidando como uma gestora de ativos, com atuação no Brasil e no exterior. PublicidadeEssa estratégia de “reciclagem de ativos” é comandada pelo CEO João Schmidt em linha com a visão dos acionistas reunidos no conselho de administração. Dos sete integrantes do ‘board’, três são representantes da família, sendo dois da quinta geração — André Ermírio de Moraes Macedo e José Roberto Ermírio de Moraes Filho. Cláudio Ermírio de Moraes representa a quarta geração. Fusões e aquisições no setor Estimado em US$ 2 bilhões (cerca de R$ 11 bilhões ao câmbio atual), o negócio, envolvendo os 100% da Nexa, é considerado um dos maiores do ano na indústria de mineração e metais envolvendo o Brasil. Nesta semana, a Alcoa anunciou a compra global, inclusive de ativos de alumínio, da South32, por US$ 4,1 bilhões. O da CBA foi de quase US$ 1 bilhão. De acordo com especialistas e executivos da indústria de mineração e metais, essa indústria está passando por uma onda de consolidação de ativos, buscando maior escala de produção e diversificação geográfica de portfólio, com foco em países de moeda forte (dólar e euro). Isso visa maior competitividade e diluição de riscos em tempos de grandes incertezas geopolíticas. Segundo pessoas conhecedoras do setor, a venda da Nexa com troca de ações da Boliden indica que a Votorantim vai sair do negócio de zinco e outros metais em algum momento, de forma gradativa. Venderá as ações pouco a pouco após o lock-up (trava), regra que proíbe a venda de ações por um determinado tempo. No caso, 75% tem lock-up de um a três anos e 25% estarão livres para venda após fechamento final do negócio, com todas as aprovações. A Nexa se posiciona entre os seis maiores produtores globais de zinco em 2025, segundo a consultoria especializada Wood Mackenzie. O zinco corresponde a 47% da produção de metais extraídos, em medida de equivalência do metal, considerando os subprodutos cobre, chumbo, prata e, em menor escala, ouro. A empresa diz ainda, em documento enviado à Nyse (20-F) que, no ano passado, foi o sexto maior produtor de zinco refinado do mundo, citando a Wood Mackenzie.Após saneamento financeiro em 2025, a empresa é adquirida pela Boliden com dívida líquida de US$ 1,37 bilhão. No primeiro semestre, a mineradora — que tem a maior parte de suas operações no Peru — registrou lucro líquido de US$ 98 milhões.PublicidadeVotorantim e Nexa contaram com assessoria financeira do banco Goldman Sachs na transação, além do escritório Machado, Meyer, Sendacz e Opice Advogados, entre outras instituições legais. Vale ler tambémQuem tem o melhor plano de governo para as contas públicas?Nem toda versão errada sobre você precisa ser corrigidaA adaptação de metodologias climáticas à realidade dos trópicos é urgente
Votorantim: venda de negócios de metais muda perfil de foco industrial para gestão de ativos
Grupo passará a deter 7% da sueca Boliden com troca de 67% da fabricante de zinco Nexa Resources; empresa combinada terá valor de quase US$ 20 bilhões e será listada em Estocolmo









