Betão Aguiar é um cineasta singular. Passando longe de escolas e correntes cinematográficas, ele veio da música e sua produção de documentários deixa isso escancarado. De certa forma, o diretor veio biologicamente da música, pois é filho de Paulinho Boca de Cantor, dos Novos Baianos, e da produtora Marília Aguiar. E seus pais estão entre os personagens de seu filme mais recente, "Nem Tudo É Paz e Amor", que chega agora aos cinemas.

A produção de documentários musicais segue forte. São inúmeros títulos nos últimos anos. Mas nenhum vai se aproximar do fio condutor do projeto de Aguiar. O filme é uma espécie de terapia familiar espalhada por vários núcleos diferentes. Basicamente, são relatos e comentários de filhos a respeito de seus pais. O que faz a ligação de todo esse elenco? Todos os progenitores são cantores e músicos que surgiram ao público na efervescência dos anos 1970.Além de Novos Baianos, a seleção que aparece na tela pode fazer um retrato acurado de uma fatia criativa e nada convencional da MPB setentista. De Caetano Veloso a Itamar Assumpção, passando por Rita Lee e Gilberto Gil, o roteiro permite até um olhar sobre Glauber Rocha. É uma presença até natural, sustentada pela delirante produção cultural do cineasta baiano, que teve influência generalizada nessa geração de músicos.