Não sei vocês mas, ultimamente, assim que a campanha eleitoral começa, tenho vontade de fugir para as montanhas 0.5x 1x 1.25x 1.5x 2x 00:00 00:00 Comício pelas 'Diretas Já' em São Paulo, no dia 16 de abril de 1984 — Foto: Antonio Carlos Piccino Há algum tempo, tentei explicar a meus netos adolescentes a importância de tirar título eleitoral. Falei de democracia e de cidadania, expliquei que, quando não votamos, deixamos aos outros a escolha do nosso destino, lembrei que tive que esperar até os 36 anos pela minha primeira eleição presidencial. Eles ouviram com a atenção que uma palestra de avó comanda, mas meus argumentos não encontraram solo fértil. Não adianta regar o deserto. A minha geração viveu momentos políticos emocionantes. Crescemos numa ditadura e, quando afinal o país reconquistou a liberdade e o direito ao voto, demos muito valor àquilo e nos emocionamos indescritivelmente. “Indescritivelmente”, aqui, não é só um advérbio salpicado na página: é fato. Não há como comunicar a um jovem de hoje o que era a frustração dos anos de chumbo, a sensação de que o país havia sido sequestrado e de que as nossas vidas estavam em compasso de espera. A emoção das Diretas. Tínhamos grandes esperanças porque tínhamos, também, grande ingenuidade em relação aos mecanismos do poder. Hoje a internet roubou da garotada o saudável direito à ignorância. Fábio e Nina cresceram ouvindo falar em exemplos de má administração e descaso, em demagogia e populismo, em incompetência e maldade. Desde que nasceram, cinco governadores do Rio de Janeiro passaram pela prisão. Cinco! Na cabeça deles, isso não é sucessão de escândalos, é modo de funcionamento. Estão errados na sua falta de interesse? Claro que não. A democracia brasileira tem sido péssima professora. Ensina cedo demais que gente importante pode fazer coisas horríveis e, ainda assim, sair sorrindo na foto; que a justiça não só tarda como falha; que o único uso prático da indignação é criar memes para as redes sociais. É difícil explicar a eles que o Título de Eleitor não é um certificado de esperança, mas uma pequena ferramenta de defesa; que na maior parte das vezes, a gente não vota a favor, mas contra. É complicado pedir entusiasmo e fé no voto a quem só conheceu uma democracia em permanente mau funcionamento. Mas confesso que a maior dificuldade que tenho é tentar transmitir aos dois uma empolgação que deixei de sentir. Não sei vocês mas, ultimamente, assim que a campanha começa, eu tenho vontade de fugir para as montanhas. Todos os candidatos falam em chavões sobre segurança pública, educação e saúde. Mais uma vez somos vítimas da reeleição, a verdadeira herança maldita de FH, que aumenta a polarização e dá asas a uma toupeira sinistra como Flávio Bolsonaro. Mais uma vez, Lula será o nosso salvador de uma catástrofe em que é causa, efeito e consequência. O Congresso, a Alerj e a Câmara dos Vereadores são ambientes tóxicos, focos permanentes de cinismo, oportunismo e negociatas bilionárias. Eu bem que tentei, mas falhei em transformar tudo isso numa conversa animadora sobre cidadania. Na vida real, a democracia não é o espetáculo emocionante das Diretas, nem a festa de 1989. É escolher o menos ruim, engolir a decepção e continuar prestando atenção. Não cabe num meme. Mas, crianças, ouçam o que eu digo: será sempre melhor um voto na mão do que uma procuração em branco na mão dos outros.
Procuração em branco
Não sei vocês mas, ultimamente, assim que a campanha eleitoral começa, tenho vontade de fugir para as montanhas







