A valorização de corpos muito magros voltou a ganhar espaço nas redes sociais, ao mesmo tempo em que algumas celebridades passaram a expor diferentes formas de lidar com a própria imagem. Paolla Oliveira, Anitta, Jennifer Lawrence, Millie Bobby Brown e Sydney Sweeney aparecem nesse debate por motivos distintos, seja ao falar sobre cobranças relacionadas à aparência, seja ao questionar expectativas sobre como o corpo feminino deveria ser. A mudança nas referências, porém, não significa que a pressão estética tenha desaparecido. Para a psicóloga Jhoanne Hansen, especialista em saúde mental de criadores de conteúdo e integrante da Desvirtua, a comparação continua presente mesmo quando o modelo valorizado se transforma. "Mesmo quando o padrão estético muda, a lógica da comparação permanece. As redes sociais apresentam diferentes corpos, mas ainda existe uma cobrança para que a mulher esteja sempre dentro de algum modelo considerado ideal. Isso pode gerar insatisfação justamente porque o corpo real não funciona como uma imagem produzida para o ambiente digital", afirma. A frequência com que determinados tipos físicos aparecem no feed também interfere na maneira como eles são percebidos. Conteúdos ligados à beleza e à aparência costumam despertar interesse e engajamento, o que pode fazer com que algumas referências sejam exibidas repetidamente para a mesma pessoa. Essa exposição contínua pode alterar a percepção sobre o que é comum. "Os algoritmos favorecem conteúdos que geram engajamento e, com isso, determinados tipos de corpos acabam aparecendo repetidamente. A repetição cria uma falsa sensação de normalidade e pode fazer com que a pessoa passe a enxergar características naturais do próprio corpo como problemas que precisam ser corrigidos", analisa Jhoanne. Não se trata apenas de qual silhueta está em evidência em determinado momento. Para a psicóloga, a própria dinâmica das plataformas mantém a comparação como parte da experiência digital, independentemente do padrão predominante. Quando a aparência deixa de ser o único parâmetro Nos últimos anos, também ganharam espaço imagens menos associadas à busca por um corpo perfeitamente definido. Celebridades que aparecem sem esconder características naturais ou que falam abertamente sobre as expectativas em torno da própria aparência ajudam a ampliar a conversa sobre autoestima. Para a arteterapeuta Juliana Nasasi, especialista em expressão criativa simbólica e integrante da Desvirtua, essa diversidade pode contribuir para uma percepção menos restrita sobre a própria imagem. "Valorizar corpos mais naturais permite que a mulher perceba que sua identidade não precisa estar condicionada à aparência. Quando deixamos de buscar uma imagem perfeita e passamos a reconhecer características individuais, abrimos espaço para uma relação mais verdadeira e acolhedora com o próprio corpo", avalia. Ainda assim, a presença de diferentes corpos nas redes não elimina a necessidade de olhar para outros aspectos que influenciam a saúde. Abdômen definido não indica, sozinho, um corpo saudável Um exemplo é a valorização do abdômen muito marcado. Embora a definição muscular seja frequentemente associada à boa forma, a aparência dessa região não permite determinar, sozinha, o estado de saúde de uma pessoa. Para a nutróloga Mariana Comério, o chamado "tanquinho resulta de uma combinação de características individuais. "Existe uma diferença importante entre ter uma composição corporal saudável e buscar uma definição abdominal extrema. O chamado tanquinho depende de massa muscular, genética, distribuição de gordura e características individuais. Uma mulher pode ser completamente saudável sem apresentar esse nível de definição", pontua. A composição corporal também se modifica ao longo da vida. Sono, estresse, alterações hormonais e metabólicas podem interferir na distribuição de gordura e na massa muscular. "Na mulher, sono, estresse, alterações hormonais, resistência insulínica e até a fase da vida interferem na composição corporal. Na menopausa, por exemplo, existe uma tendência maior ao acúmulo de gordura abdominal. Por isso, não podemos avaliar saúde apenas pela aparência de uma determinada região do corpo", ressalta Mariana. A busca pelo corpo ideal pode levar a medidas extremas Quando uma referência estética passa a ser encarada como objetivo pessoal, existe ainda o risco de recorrer a estratégias agressivas para tentar reproduzi-la. A velocidade da perda de peso é um dos pontos que merecem atenção, principalmente quando o processo é motivado pela pressão para alcançar determinado resultado visual. De acordo com o cirurgião plástico Marco Cassol, mudanças rápidas podem trazer consequências que vão além da aparência. "O emagrecimento acelerado, principalmente quando motivado por pressão estética, pode aumentar o risco de perda de massa muscular, flacidez e alterações metabólicas. O objetivo deve ser transformar o corpo com segurança, e não simplesmente alcançar rapidamente uma determinada aparência", alerta. Por isso, a discussão sobre beleza não precisa se limitar à substituição de um modelo por outro. Um corpo mais magro não é automaticamente mais saudável, assim como uma silhueta mais curvilínea ou um abdômen definido não determinam, por si só, as condições de saúde de alguém. As imagens de pessoas públicas podem influenciar referências de beleza, mas não devem ser usadas como parâmetro individual. Cada pessoa tem características próprias, determinadas por fatores como genética, idade, rotina e condições de saúde, além de contextos que nem sempre são visíveis nas redes sociais. No fim, acompanhar as mudanças nas tendências não significa precisar se encaixar em uma delas. Não existe um único tipo físico que determine saúde ou beleza.
O que está por trás das mudanças nos padrões de beleza nas redes sociais
Algoritmos, celebridades e cultura pop ajudam a explicar por que determinadas referências ganham força e influenciam a relação com a própria imagem








