Caso da cantora reacende discussões sobre padrões estéticos, pressão nas redes sociais e os impactos da busca por corpos cada vez mais finos 0.5x 1x 1.25x 1.5x 2x 00:00 00:00 Ariana Grande volta ao centro das discussões sobre corpo e padrões de beleza — Foto: Getty Images A aparência de Ariana Grande voltou a ocupar o centro das conversas nas redes sociais nas últimas semanas. Aos 33 anos, a cantora passou a receber uma série de comentários sobre seu corpo, com internautas questionando uma suposta perda excessiva de peso. Diante da repercussão, um representante da artista afirmou que ela fará uma pausa na carreira para cuidar da saúde. O episódio reacendeu uma discussão que vai além da imagem de uma celebridade: o retorno de um padrão estético marcado pela valorização de corpos cada vez mais magros. Conhecida como uma nova onda da magreza extrema, essa referência corporal tem chamado atenção de especialistas por resgatar uma estética em que estruturas antes escondidas, como ossos mais aparentes, clavículas evidentes e braços muito finos, passam a ser associadas a beleza e desejo. O movimento contrasta com um período recente em que procedimentos e tendências valorizavam mais volume, como lábios preenchidos, rostos mais projetados, glúteos avantajados e próteses mamárias evidentes. "Historicamente a indústria da moda impõe um padrão de corpo magro para os modelos que carregam suas coleções, muito abaixo do que é admissível como normalidade. Logicamente uma minoria tem naturalmente esse biotipo, mas certamente a maior parte das modelos femininas, no mundo, só atinge essa forma às custas de estratégias que trazem muitos impactos negativos à saúde física e mental. O grande problema, do ponto de vista médico, é que essas modelos vão estampar suas imagens em todas as mídias, como ideal de beleza, sucesso e luxo. Um padrão inatingível para a maioria da população mundial, que pode ter consequências desastrosas, como o aumento na prevalência de distúrbios emocionais e transtornos alimentares", explica a médica nutróloga Marcella Garcez. Para a cirurgiã plástica Heloise Manfrim, a mudança revela uma transformação no imaginário estético. "Mais do que uma mudança estética pontual, trata-se de um reposicionamento cultural mais amplo, no qual o corpo passa a refletir uma nova lógica de desejo, com menos projeção e volume, em alinhamento com uma estética de restrição corporal, marcada por contornos ósseos visíveis, braços mais finos, clavículas evidentes e menor percentual de gordura corporal", detalha. Nas redes sociais, esse padrão também ganhou força pela exposição constante de imagens editadas, filtros e referências muitas vezes distantes da realidade. A comparação diária com corpos idealizados pode influenciar a forma como muitas pessoas enxergam a própria aparência. "A grande exposição nas redes sociais, onde corpos magros ganham curtidas e admiração, estimula uma corrida silenciosa por resultados rápidos, muitas vezes sem acompanhamento adequado. E muitas pessoas, deslocadas da realidade, em vez de priorizar a saúde, concentram seu foco completamente na estética, no imediatismo e na comparação constante com imagens idealizadas. É como se ter gordura corporal fosse um insulto", acrescenta a Dra. Heloise. Ariana Grande — Foto: Getty Images Outro fator que passou a fazer parte dessa discussão é o uso de medicamentos injetáveis indicados para tratamento da obesidade, que também passaram a ser associados por algumas pessoas à busca por um corpo mais magro. "Com a popularização dos chamados medicamentos injetáveis para obesidade, e muitas pessoas utilizando para ter um ‘shape mais slim’, nunca foi tão fácil perder peso de forma rápida e isso está moldando não apenas o comportamento nas redes, mas também provocando transformações no consultório médico e na prática da cirurgia plástica. Hoje, a magreza excessiva e extrema voltou a ser alvo de desejo entre mulheres e homens", afirma o cirurgião plástico Carlos Manfrim. A preocupação dos especialistas está relacionada principalmente ao uso desses recursos sem acompanhamento adequado e às consequências de mudanças muito rápidas no organismo. "É preciso olhar para o uso indiscriminado de canetas emagrecedoras e hormônios de maneira cautelosa. Os corpos magros e atléticos em excesso escondem problemas de saúde, muito mais do que a estética. No campo da estética em si existe uma busca por perfeição inatingível de um lado e de outro a não manutenção de resultados por justamente fazer procedimentos em vigência de tratamento emagrecedor ou hormonal", alerta a cirurgiã plástica Flávia Bonato. Ariana Grande — Foto: Getty Images O impacto desse padrão preocupa especialmente quando chega aos adolescentes, que ainda estão construindo a própria relação com a imagem. "Muitas vezes, esses pacientes estão em uma fase de formação de identidade corporal, o que os torna ainda mais vulneráveis a influências externas. Por outro lado, também observo adultos que, mesmo com histórico de boa autoestima, passaram a se sentir pressionados diante das novas referências corporais promovidas digitalmente", esclarece a Dra. Marcella. Além das questões emocionais, a perda acelerada de peso também tem levado pacientes aos consultórios em busca de procedimentos reparadores. Segundo os especialistas, algumas pessoas apresentam excesso de pele e alterações na qualidade dos tecidos após grandes reduções de peso. "Não é incomum vermos perdas massivas, de 30/40kg e esses pacientes tem grandes repercussões de posição e qualidade de pele. No geral eles são muito parecidos com os pacientes pós-bariátrica, com a grande vantagem de um perfil metabólico melhor e mais organizado. No geral é um paciente que quer uma estética mais slim e realmente uma reconstrução muitas vezes reparadora dos tecidos que estão extremamente frouxos", acrescenta a Dra. Flávia. O processo também pode envolver deficiências nutricionais, que interferem na recuperação de procedimentos. "Em muitos casos, a perda de peso vem acompanhada de deficiências nutricionais importantes, que afetam diretamente a cicatrização, a resposta imunológica e a recuperação pós-operatória em cirurgias plásticas. É comum vermos pacientes que chegam ao consultório com perda de peso acentuada, mas sem acompanhamento nutricional adequado", observa o Carlos. Outro ponto levantado pelos médicos é a dismorfia corporal, transtorno caracterizado pela percepção distorcida da própria imagem. "Trata-se de um transtorno em que a pessoa tem uma percepção distorcida do próprio corpo, acreditando estar acima do peso ou com imperfeições, mesmo quando os parâmetros de saúde já foram atingidos", pontua. Ariana Grande — Foto: Getty Images Para a Dra. Beatriz Lassance, membro da SBCP, a busca por um padrão idealizado pode gerar frustração justamente por ignorar características individuais. "Alcançar o ideal na grande maioria das vezes é impossível por questões metabólicas, genéticas, composição corporal e até de aptidão física, gerando frustração e sensação de incapacidade", diz. Segundo ela, muitas vezes a solução desejada pelo paciente não está necessariamente em um procedimento estético. "Recebo no consultório muitos pacientes insatisfeitos com o corpo e procuram uma maneira de recuperar a forma de forma rápida com cirurgia. E com frequência a indicação não é de cirurgia, mas mudança de hábitos e de estilo de vida", conta. No fim, o debate provocado pela nova valorização da magreza extrema coloca em discussão não apenas tendências visuais, mas a maneira como padrões de beleza influenciam escolhas pessoais. "A maioria dos pacientes já chega com referências específicas, muitas vezes baseadas em tendências da internet. Já ouviram sobre determinados medicamentos, dietas da moda, jejum intermitente ou suplementos populares. Muitos vêm com imagens salvas no celular, comparando-se a celebridades ou influenciadores. O desafio, nesse contexto, é promover um diálogo responsável e baseado em evidências, explicando que saúde vai muito além da estética e que o emagrecimento deve ser individualizado, seguro e sustentável", finaliza a Dra. Marcella.