Quando os números apareceram no telão do congresso da Sociedade Americana de Oncologia, em 2026, a plateia de especialistas fez o que raramente faz: levantou-se para aplaudir. O motivo era um inimigo conhecido e duro de derrotar. O câncer de pâncreas acabava de recuar diante de um novo remédio. O daraxonrasib dobrou o tempo de vida em pacientes com doença avançada que já haviam falhado a outros tratamentos. Em uma área marcada por décadas de avanços pequenos, ganhar meses de vida é ganhar muito. Havia, de fato, o que comemorar.
Passada a emoção, vem o incômodo. Entre o anúncio triunfal em um palco internacional e a prateleira de uma farmácia do SUS, há um percurso longo e cheio de obstáculos: registros em agências reguladoras, avaliação de incorporação, compra pública e distribuição. Esse caminho costuma ser medido não em semanas, mas em anos ou décadas.Enquanto a engrenagem gira, a novidade tende a ficar restrita a quem pode pagar. E aí mora a contradição que assombra a medicina atual: a ideia que a inovação que mais entusiasma é, com frequência, a que menos chega à maioria. A ciência avança; o paciente, muitas vezes, espera. O progresso só se completa quando atravessa o muro do acesso.












