A Food and Drug Administration (FDA), agência reguladora da saúde pública nos Estados Unidos, aprovou na quarta-feira (26) um novo medicamento para o câncer de pâncreas avançado, inaugurando uma nova era no tratamento de uma doença que há muito tempo é considerada uma das mais desesperadoras da medicina. O medicamento, tomado na forma de dois comprimidos por dia, é o primeiro de seu tipo e causou grande entusiasmo entre especialistas em câncer e pacientes. Não é uma cura, mas é o primeiro tratamento a prolongar de maneira substancial a vida de pacientes com câncer de pâncreas. O medicamento, daraxonrasib, é fabricado pela Revolution Medicines e será comercializado com o nome de Rasonque. Ele foi aprovado para pacientes com câncer de pâncreas metastático que já tenham tentado quimioterapia. Em um importante ensaio clínico, os participantes que receberam daraxonrasib tiveram uma sobrevida mediana de mais de 13 meses, em comparação com menos de sete meses entre aqueles que receberam quimioterapia. Alguns pacientes que receberam o medicamento em ensaios clínicos vivem há anos. — Nunca vimos um benefício como esse — diz Anna Berkenblit, diretora científica e médica da Pancreatic Cancer Action Network, uma organização voltada à defesa da pesquisa e dos pacientes. A Revolution Medicines não anunciou imediatamente quanto pretende cobrar pelo medicamento. Analistas de Wall Street disseram esperar que o preço de tabela seja de várias centenas de milhares de dólares por ano. Espera-se que a grande maioria desse custo seja coberta pelos planos de saúde, embora as despesas pagas diretamente pelos pacientes variem. Desde maio, mais de 2.000 pacientes receberam acesso antecipado e gratuito ao medicamento por meio de um programa de acesso expandido criado pela empresa após a conclusão de seu principal ensaio clínico. A empresa afirmou que as pessoas que recebem o medicamento por esse programa passarão a obtê-lo com cobertura dos planos de saúde. Ferramenta de IA procura câncer de pâncreas em tomografias sem contraste, que não mostram anormalidades de forma tão clara quanto exames com uso de contraste. — Foto: Andrea Verdelli / The New York Times O pâncreas, uma glândula localizada profundamente no abdômen, ajuda a regular o açúcar no sangue e a digestão. O câncer de pâncreas mata mais de 50 mil pessoas por ano nos Estados Unidos. Apenas 3% dos pacientes cujo câncer de pâncreas se espalhou para partes distantes do corpo estão vivos cinco anos após o diagnóstico. As poucas opções de tratamento disponíveis, normalmente quimioterapias extremamente agressivas, fazem pouco para prolongar a vida. Durante anos, os pesquisadores chegaram a perder a esperança de encontrar um tratamento mais eficaz para esse câncer. Por isso, em uma conferência sobre câncer realizada em maio, oncologistas se levantaram e aplaudiram — e, segundo pessoas presentes na sala, alguns choraram — quando foram apresentados os dados do ensaio clínico mostrando que os tempos de sobrevida haviam dobrado. O pesquisador que apresentou os dados e liderou o principal estudo, o Dr. Brian Wolpin, do Dana-Farber Cancer Institute, em Boston, disse em uma entrevista que ficou atônito com os resultados do ensaio quando finalmente pôde vê-los. “Nunca vi nada parecido nos ensaios que conduzimos sobre câncer de pâncreas”, afirmou. “Eu simplesmente continuava repetindo: ‘Uau’.” Quase todos os cânceres de pâncreas, assim como muitos cânceres de pulmão e de cólon, são alimentados por uma proteína celular mutada chamada KRAS. Sem ela, essas células cancerosas morrem. Mas parecia não haver uma maneira de um medicamento atacar a proteína KRAS, cuja superfície é lisa, e bloqueá-la. Por isso, durante muito tempo, a sabedoria convencional nessa área era que seria impossível desenvolver um medicamento capaz de atingir especificamente a KRAS. Mas, ao longo de décadas, uma série de avanços científicos derrubou esse paradigma. O sucesso do daraxonrasib mostrou que a KRAS podia ser combatida. O medicamento utiliza uma abordagem inovadora que une moléculas para capturar e desativar a KRAS. O daraxonrasib frequentemente causa efeitos colaterais como erupções cutâneas, diarreia, fadiga e náusea. Vários pacientes que tomaram o medicamento em ensaios clínicos disseram que os efeitos colaterais podiam ser intensos. Alguns afirmaram que prolongar a vida em 13 meses não era suficiente — eles queriam anos, ou até décadas, ao lado de suas famílias. Mas, nos últimos anos, os estudos com daraxonrasib começaram a apresentar resultados iniciais tão promissores que pacientes do mundo inteiro correram para tentar conseguir uma vaga nos ensaios clínicos que testavam o medicamento. A Dra. Nilofer Azad, especialista em câncer de pâncreas da Johns Hopkins, disse em uma entrevista nesta primavera que recebia diariamente e-mails de pessoas de todo o mundo tentando entrar em um estudo para receber o medicamento. O participante mais conhecido de um ensaio clínico com o medicamento é o ex-senador Ben Sasse, de Nebraska, que anunciou em dezembro passado que havia sido diagnosticado com câncer de pâncreas metastático. Ele atribuiu ao medicamento o prolongamento de sua vida, dizendo que os marcadores tumorais em seu sangue despencaram desde que começou a tomá-lo. Oncologistas dizem que o daraxonrasib é apenas o começo do que consideram uma nova era no tratamento do câncer de pâncreas e de outros cânceres impulsionados pela KRAS. A Revolution Medicines e outras empresas estão testando dezenas de medicamentos semelhantes contra a KRAS em ensaios clínicos. Esses medicamentos estão sendo testados isoladamente, em combinações e junto com quimioterapia e imunoterapia. Também estão sendo testados como tratamentos iniciais para o câncer de pâncreas. A esperança agora é que, à medida que os tratamentos evoluam e melhorem, a maioria dos pacientes possa manter seus cânceres sob controle durante anos, ou até indefinidamente. Ainda assim, permanecem muitas perguntas, disse o Dr. Mark Goldsmith, diretor-executivo da Revolution Medicines, em um webinar recente. “Por que os tumores demoram tanto para diminuir?”, perguntou. “Por que eles não diminuem instantaneamente? O que resta depois que um tumor é esmagado por um medicamento?” E por que alguns pacientes raros conseguem eliminar os tumores de seus corpos quando tomam daraxonrasib? Um desses pacientes é Jerry Simonson, de 79 anos, que mora perto de Salt Lake City Ele descobriu que tinha câncer de pâncreas depois de procurar um médico, em 2017, por causa de uma infecção no ombro. O câncer já havia se espalhado para seus gânglios linfáticos. Simonson achou que estava condenado. “Eu simplesmente disse a mim mesmo: ‘Dois meses’”, lembrou. “Eu conhecia duas outras pessoas quando foram diagnosticadas. Elas só tinham mais dois meses de vida.” Mas ele entrou em um ensaio clínico de daraxonrasib no final de 2022, e seu tumor começou a diminuir. Hoje, ele não pode mais ser visto nos exames de imagem. Ele diz que se sente bem — caminha três quilômetros todos os dias e está aprendendo a jogar pickleball. Seus efeitos colaterais foram leves — uma pequena erupção no rosto e no peito, que controlou com um creme à base de corticoide, além de alguma constipação e diarreia. Ele acrescentou que só percebeu recentemente o quanto seu medicamento era revolucionário. “Era apenas mais um médico, mais um comprimido”, disse Simonson. Então, em maio, ele estava assistindo à televisão e viu uma reportagem sobre a conferência de câncer na qual os oncologistas deram uma ovação de pé ao daraxonrasib. “Foi aí que realmente caiu a ficha”, disse Simonson.
FDA aprova droga que dobra o tempo de vida de pacientes com câncer de pâncreas avançado
Em um importante ensaio clínico, pacientes que receberam o comprimido daraxonrasib viveram o dobro do tempo daqueles que receberam quimioterapia













