Candidato do PSD anunciou diplomata como coordenador para assuntos internacionais 0.5x 1x 1.25x 1.5x 2x 00:00 00:00 Diplomata Roberto Azevêdo — Foto: Sandra Blaser Azevedo/World Economic Forum Ex-diretor-geral da Organização Mundial do Comércio, o diplomata Roberto Azevêdo negou nesta quarta-feira (26) que faça parte da campanha do candidato à Presidência Ronaldo Caiado (PSD), como coordenador da área internacional. É o segundo especialista que nega ter aderido à campanha do presidenciável, depois de Lincoln Gakiya, promotor do Ministério Público de São Paulo. Azevêdo disse ao Valor que foi procurado por Caiado e por outros candidatos para pedirem opiniões sobre política externa, comércio exterior e mercados internacionais, mas sem participar formalmente das campanhas. "Eu tenho dado minha opinião, contribuído na medida em que me demandam, mas eu não estou formalmente na campanha de nenhum candidato", disse Azevêdo. No início de agosto, a campanha de Caiado anunciou o nome Azevêdo como coordenador da área de diplomacia e comércio exterior. Quatro dias depois, no dia 10, Caiado disse que convidaria Gakiya como ministro da Segurança Pública caso seja eleito. Em 14 de agosto, o promotor disse que não poderia aceitar o convite por ainda estar na ativa no Ministério Público. Após participar de painel no "Congresso Sustentável", realizado no Rio pelo Conselho Empresarial Brasileiro para o Desenvolvimento Sustentável (CEBDS), Azevêdo disse ao Valor que um tema fundamental para o país é a continuidade de políticas públicas, especialmente em assuntos voltados ao clima e à sustentabilidade. O Brasil, disse Azevêdo, é visto como um ator global importante na redução de emissões e no enfrentamento do clima extremo, num cenário geopolítico em transformação. Mas os investimentos e a visão de longo prazo são pautados pelas políticas públicas que demandam olhar político para além dos mandatos, segundo ele. "O setor privado, no fundo, é quem fará a transição. Quem faz a transição energética é o operador econômico e os investimentos têm que ser feitos a longo prazo. O investidor, o produtor, o industrial, o agricultor, não têm capacidade de fazer investimentos e refazê-los a cada quatro ou cinco anos", disse. Tarifaço Azevêdo disse que negociar o tarifaço com o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, e buscar mercados alternativos não são duas decisões excludentes. Para ele, a busca de novos mercados pelo Brasil exige um esforço "perene, constante e incessante", sem impedir negociações com os Estados Unidos. Azevêdo afirmou, porém, que não vê espaço para conversas em busca de trocas e acordos, mas de modo mais amplo, com foco em oportunidades tidas como estratégicas, como minerais críticos, data centers e energia limpa. "Não sou muito otimista em uma negociação tarifária tradicional, pelas diferentes ambições, sobretudo pelos Estados Unidos serem bastante maximalistas nos pedidos. Mas creio em negociações mais abrangentes, que considerem oportunidades estratégicas", afirmou. Azevêdo prosseguiu: "Se ficarmos apenas em uma negociação estritamente tarifária com o escritório de representação comercial dos Estados Unidos [USTR] e não colocarmos segurança, desenvolvimento industrial, mineração e energia na convença, acho difícil abrir o leque de uma forma que permita ao Brasil encontrar espaços comuns". Azevêdo afirmou ainda que o fim da globalização não acabará com a interdependência entre os países; pelo contrário, ela continuará e até crescerá. A questão, ponderou, é que o Brasil não pode pensar apenas que estará no centro do processo de nova governança global por causa das potencialidades que apresenta. Segundo ele, o fato do Brasil ter energia limpa, minerais críticos no subsolo, petróleo, gás, recursos naturais em abundância, terra e água não fará do país um player central na mesa global. Sem políticas públicas que mirem o longo prazo, o país continuará "patinando e não irá a lugar algum." "Você pode ter tudo isso e não ter nada. Precisamos ter os incentivos, as políticas públicas que transcendam o ciclo eleitoral e o viés ideológico. Temos que ter uma política pública que a sociedade como um todo abrace, que outros partidos, outros segmentos ideológicos também abracem", disse. No início do mês, os Estados Unidos taxaram o Brasil em 25% sob argumento de práticas comerciais desleais contra empresas americanas. E aplicaram outra taxa de 12,5% por supostas falhas na fiscalização de importações de mercadorias feitas com trabalho forçado. Estabilização econômica Azevêdo defendeu ainda que, independentemente do vencedor das eleições, uma pauta prioritária é a estabilização da economia, com taxas de juros que "não asfixiem a indústria nem o consumidor". O ex-diretor-geral da OMC salientou que campanhas eleitorais tendem a olhar um só pedaço da equação porque o eleitor se sensibiliza com os aspectos mais próximos deles, o que é um erro dos candidatos. A discussão, avalia, passa pelo equilíbrio fiscal, que pode ser obtido com disciplina de gastos do governo e diálogo com o setor privado. "O setor privado tem que ser um aliado do governo. Precisamos de políticas que favoreçam o empreendedorismo e o clima de negócios. Porque é o clima de negócio que traz o investimento, é o investimento que traz o emprego, é o emprego que traz a qualidade de vida do cidadão. Todas essas coisas estão ligadas", disse. Azevêdo disse também que os investimentos em energia limpa no Brasil só vão ser viabilizados com incentivos econômicos dados pelo governo – não necessariamente subsídios – e previsibilidade jurídica e regulatória. Na visão de Azevedo, uma forma de incentivar investimentos em energia limpa é não penalizá-los de forma desnecessária. "Não adianta ter uma narrativa maravilhosa, sobre a importância da economia verde, de que o Brasil tem o potencial de ser um grande supridor de energias limpas para o mundo de uma maneira geral, se não existir um marco regulatório e um quadro de incentivos financeiros para que isso aconteça", afirmou.