A indústria do cigarro negava os danos. Até que a ciência, a Justiça e a sociedade impuseram um limite 0.5x 1x 1.25x 1.5x 2x 00:00 00:00 A sede da Meta, na Califórnia, nos EUA — Foto: Jim Wilson/The New York Times Vivemos um momento decisivo na história das redes sociais. Um tribunal da Califórnia, nos Estados Unidos, iniciou o julgamento da Meta por ter desenhado Instagram e Facebook para viciar crianças e adolescentes, coletar seus dados ilegalmente e mentir sobre os riscos que oferecia a eles. Prevendo desfecho desfavorável, a Meta se antecipou e fechou um acordo com os estados americanos para pagar US$ 16,7 bilhões. Se o julgamento fosse levado ao fim, a condenação poderia alcançar US$ 1,4 trilhão. Não é exagero dizer que estamos diante do “momento tabaco” da era digital: aquele instante em que a sociedade decide olhar de frente para um produto que promete conexão e entrega dependência. Independentemente do resultado jurídico nos Estados Unidos, o problema foi posto: a rede social, do jeito como está desenhada, faz mal à saúde e à democracia. O mundo mudou, as pessoas se conectam de outra forma, e isso não precisa ter volta. O questionamento a fazer é sobre a arquitetura viciante por trás das plataformas, construída deliberadamente para prender a atenção de crianças e adolescentes, não para o bem deles, mas para vender sua atenção a anunciantes. Isso não é acidente de design. É engenharia comportamental a serviço do lucro. Chamar isso de crime não me parece nenhum exagero quando o público-alvo são cérebros ainda em formação. Outro grave desenho no modelo de negócio precisará de ajuste urgente. As redes viraram terra sem lei. Qualquer um cria um perfil, ataca, difama, mente, espalha notícia falsa, e a plataforma, na maioria das vezes, só age depois que o estrago foi feito. Pior: essas mesmas plataformas lucram vendendo impulsionamento. Cobram para que mentiras cheguem mais rápido e mais longe. Não existe compromisso com um ambiente saudável, porque um ambiente saudável não é o que gera mais engajamento, e engajamento é o único indicador que essas empresas perseguem. Às vésperas de uma eleição no Brasil, tudo isso fica ainda pior. Qualquer um pode inventar uma história, publicar, repostar, e o conteúdo mentiroso já terá dado sua volta ao mundo. Não há retificação capaz de desfazer o estrago de uma mentira que já formou opinião, já plantou ódio. Uma democracia não sobrevive saudável quando o debate público é sequestrado por um ambiente construído para viralizar o que é raivoso, extremo e falso, em vez do que é verdadeiro e ponderado. Aqui é onde os três Poderes brasileiros precisam se olhar no espelho. Falta a deputados e senadores a coragem de aprovar uma regulamentação de verdade, nos moldes da que já existe para rádio e televisão. Sem uma lei dura, o Judiciário segue em berço esplêndido, aplicando punições frouxas e tardias, quando aplica. E o Executivo se contenta com fiscalizações de fachada, que no fim servem para muito pouco, ou nada. Se há um caminho, ele já foi percorrido antes. Há décadas, o mesmo debate aconteceu com o cigarro: a indústria negava os danos, financiava estudos contrários, dizia que a escolha era do consumidor. Até que a ciência, a Justiça e a sociedade impuseram um limite. Hoje, todo maço de cigarro traz escrito, em letras grandes: “Fumar faz mal à saúde”. Não proibiu o cigarro, mas obrigou a indústria a admitir o dano e a sociedade a conviver com essa informação diante dos olhos. É essa a lógica que defendo para as redes sociais: um aviso claro, permanente, dizendo que rede social faz mal à saúde e à democracia. Não para acabar com elas, mas para que ninguém possa fingir que não sabia. A pergunta que fica sobre o fim do processo nos Estados Unidos é: a Meta sabia dos danos e escolheu não agir? Se isso foi respondido, o mundo terá uma prova irrefutável de que o modelo de negócio, e não apenas o mau uso individual, é o problema. Não dá mais para essa indústria seguir lucrando com o vício e com o caos, escondida atrás da desculpa de que é “só uma plataforma”. *Bruno Dalvi é diretor de jornalismo da TV Gazeta e g1 ES, afiliada da TV Globo no Espírito Santo