Tente ficar vivo para não perder o que a IA ainda vai fazerVocê não vai querer perder as mudanças incríveis que a IA vai trazer na próxima década. Crédito: EstadãoGerando resumoUm trem que recebe sugestões da inteligência artificial (IA) de como ser conduzido. Um sistema que consegue prever quais locomotivas têm maior chance de quebrar. Uma tarefa de conferência de documentos que caiu de dez horas para menos de uma. Um planejamento mais eficiente de abastecimento de postos de combustíveis.PUBLICIDADEDepois de investimentos bilionários das grandes plataformas de IA, como OpenAI, Anthropic e Google, estes são os exemplos de como o retorno do gasto com a tecnologia está sendo calculado nas empresas. São casos de produtividade, economia e eficiência, embora a tecnologia ainda não seja mensurada de uma maneira universal. Agora, as companhias começam a acompanhar o tempo de uma entrega com IA, o custo de uma operação e qual é o ganho financeiro depois que a tecnologia entra no circuito de trabalho.Na contramão do hype de grandes companhias que anunciaram a redução do quadro de funcionários, as empresas que conversaram com a reportagem não substituíram a força de trabalho humana nem eliminaram posições por causa da IA. Na verdade, a implementação, em alguns casos, criou novos cargos, aumentou a produção das equipes e eliminou tarefas repetitivas. Na prática, o que ocorre é um aumento da produtividade dos times de diversas áreas nas empresas, o que pode elevar o lucro obtido por funcionário - métrica comum em startups e nas big techs.PublicidadeNa VLI, empresa de logística, uma das aplicações está dentro da cabine de locomotivas. Batizada de Leader, a solução usa mais de 180 dados técnicos da máquina e da via para sugerir ao maquinista um plano de condução mais eficiente. A tecnologia leva em consideração as características da rota, a velocidade e o uso de freios. “O maquinista fica com a atenção dele menos voltada para o operacional e mais voltada para condução da malha. Isso facilita a atividade dele, entendemos que melhora a eficiência e a segurança operacional”, afirma André Braz, gerente geral de tecnologia, transformação digital e inovação da VLI. A solução está implementada em aproximadamente 200 locomotivas, em três corredores da companhia. André Braz, gerente geral de tecnologia, transformação digital e inovação da VLI Foto: Bruno Figueiredo/VLI/DivulgaçãoOutra tecnologia da empresa, que analisa cerca de 400 parâmetros das locomotivas, reduziu de 75 dias para poucos minutos o tempo para identificar máquinas com sinais de possíveis falhas. De acordo com André Braz, eles utilizam IA para informar com mais precisão e rapidez aos técnicos quais locomotivas têm maior probabilidade de apresentar problemas. No projeto-piloto, a solução ajudou a evitar falhas e gerou um ganho estimado de R$ 7 milhões, conforme estimativa da VLI. PublicidadeIA já traz lucros milionários ao setor de energiaNa gigante do setor de energia Vibra (antiga BR Distribuidora), maior distribuidora de combustíveis do País, a combinação de IA generativa e reconhecimento de imagem com IA levou a uma redução de custos de cerca de R$ 900 milhões no segundo trimestre de 2024, liberando capital de giro e ampliando a eficiência operacional sem comprometer a segurança de abastecimento.Aspen Andersen, vice-presidente de gente, tecnologia e ESG da Vibra, conta que a plataforma chamada Posto 360 2.0, que usa IA para apoiar a gestão de postos, já gerou mais de R$ 100 milhões em ganhos de produtividade. Hoje usada em cerca de 600 postos, a meta é levá-la a 1,1 mil unidades até o fim do ano.A IA ajuda o gestor a correlacionar dados aos horários de pico e de menor movimento. Isso permite remanejar tarefas da equipe comercial para os momentos de calmaria, garantindo que o atendimento de abastecimento não perca produtividade nos momentos de pico.Publicidade“Operamos em um negócio em que qualquer eficiência em alguma parte da cadeia é relevante. São escalas muito grandes. Cada pedido que temos de fazer para importação de produtos precisa acontecer com antecedência. Quanto mais assertivo eu for na previsão da demanda de um determinado mercado, mais assertivo eu serei na gestão de estoque”, afirma.Aspen Andersen, vice-presidente de gente, tecnologia e ESG da Vibra, diz que IA acelerou processos e melhorou eficiência da companhia Foto: Divulgação/VibraAndersen diz ainda que a Vibra conseguiu acelerar as vendas com o uso de IA generativa para preparar seus executivos de vendas antes das visitas aos clientes. Segundo o executivo, antes, os vendedores gastavam muito tempo levantando o histórico de transações dos clientes, avaliando relacionamentos passados, identificando o momento estratégico de cada empresa e analisando planos de ação divulgados por elas. Agora, a Vibra entrega um relatório consolidado feito por IA que contém um sumário de uma página e materiais complementares detalhados para orientar a negociação.Publicidade“Tem clientes que não conseguíamos atingir e agora conseguimos, porque a tecnologia já ajudou. O valor é de cerca de R$ 15 milhões a mais na receita de clientes”, afirma Andersen.Como fazer mais com a mesma equipeO ganho de produtividade com a IA também é observado na Synvia, empresa brasileira de estudos clínicos para validação de medicamentos. A área de tecnologia cresceu 30% nos últimos três anos, segundo o CEO Pedro Ducci Serafim, que diz que a entrega da equipe está três vezes maior.Antes da adoção da IA, um dos sistemas da companhia levou dois anos para ser lançado. Mais recentemente, com uma equipe 30% maior e o uso da tecnologia, a empresa conseguiu desenvolver mais de três sistemas em aproximadamente um ano.PublicidadePedro Ducci Serafim, CEO da Synvia, diz que o investimento mensal em IA é de R$ 250 mil Foto: Felipe Rau/EstadãoEm outra área, uma tarefa de conferência documental que consumia cerca de dez horas de trabalho agora é realizada em menos de uma hora. Já na montagem de dossiês regulatórios, a empresa calcula uma redução de 70% no tempo da atividade. “Tem muita coisa que precisa de uma decisão humana. Inclusive, tem de ter dois revisores humanos. Nós desenvolvemos uma ferramenta usando IA para tudo que não precisa necessariamente ser feito por um humano”, conta Pedro Ducci Serafim. No iFood, os agentes de IA auxiliam desenvolvedores a identificar bugs, consultar repositórios e sugerir alterações. A diretora de tecnologia e inovação, Isabella Piratininga, relata que em determinadas situações, uma demanda que levava duas semanas agora pode ser concluída em apenas sete dias. A empresa afirma trabalhar com o mesmo tamanho de equipe, mas com mais projetos.PublicidadeIsabella Piratininga, diretora de tecnologia e inovação do iFood Foto: Divulgação/iFoodAtualmente, o grupo soma 27 mil agentes de IA criados internamente, dos quais cerca de 12 mil estão ativos. A ideia é que funcionários de diferentes áreas criem soluções para as próprias necessidades. “Nós olhamos para o custo de cada modelo e tentamos escolher aquele que entrega a qualidade necessária para aquele problema. Em alguns casos, conseguimos trocar por um modelo cerca de 80% mais barato sem cair a qualidade”, diz a diretora. A empresa também utiliza um modelo chamado LCM para personalização, que considera o comportamento dos consumidores para fazer recomendações. Em um exemplo, o sistema pode identificar que uma pessoa costuma pedir determinada salada e, caso o restaurante habitual esteja fechado, sugerir uma alternativa semelhante.Na VLI, há 148 agentes em operação, usados para atividades como transcrição de reuniões, elaboração de atas, geração de apresentações, conversão de documentos e automação de tarefas administrativas.PublicidadeNa VLI, a solução de trem semiautomatizado usa mais de 180 dados técnicos da máquina e da via para sugerir ao maquinista um plano de condução Foto: DivulgaçãoMensurar o resultado da IA ainda é um desafio para as empresasNão há, pelo menos entre as companhias ouvidas pela reportagem, um modelo universal para mensurar os resultados da IA nos negócios. Na Synvia, por exemplo, o ganho de algumas iniciativas é calculado pela evolução das entregas e comparando o tempo gasto antes e depois da implementação. A empresa, porém, ainda não tem uma metodologia única para calcular o retorno financeiro global da IA.De acordo com o CEO, a companhia desembolsa R$ 250 mil por mês com IA, considerando gastos com tokens e servidores. Para controlar o gasto, a empresa estuda estabelecer limites de consumo e acompanhar quais usuários utilizam mais recursos e geram maior retorno. No iFood, o processo para medir o sucesso da ferramenta é semelhante. A empresa não calcula um único “ROI (retorno sobre o investimento) da IA”. A companhia acompanha métricas como custo, conversão, produtividade e eficiência.Publicidade“Mensuramos a partir disso para saber se mantemos a escala ou não. Já houve casos em que fizemos análise de implementação que não estava valendo apenas… São escolhas inteligentes que influenciam bastante os nossos custos”, afirma Isabella Piratininga.Na VLI, a medição é mais diretamente ligada ao resultado financeiro. A companhia chama esses resultados de “ganhos digitais” e compara o desempenho antes e depois da implementação de uma solução. “Se não tivéssemos inovação e uso de IA, como seria? Nós comparamos com o resultado desse processo”, diz André Braz. A mensuração é feita mensalmente e passa por um comitê que reúne as áreas financeira, técnica e de tecnologia. Oliver Jay, vice-presidente da OpenAI, a dona do ChatGPT, diz que as empresas que usam a IA podem facilmente obter retorno do investimento na tecnologia. “Queremos que todas as pessoas usem IA, mas não vale a pena gastar muito tempo tentando calcular o ROI, porque basta que um dos fluxos de trabalho seja automatizado para que a solução se pague. Isso é interessante, porque é difícil fazer esses cálculos, algumas empresas até fazem testes AB para isso, mas um fluxo automatizado faz a IA se pagar”, afirmou Jay em entrevista ao Estadão durante visita recente a São Paulo.PublicidadeA própria OpenAI, diz Jay, tem economizado milhões de dólares no processo preparatório para a abertura de capital do negócio ao fazer tudo com IA em vez de contratar auditores e outros especialistas. Em estudo recente feito pelo centro de pesquisas Reglab, sob encomenda da OpenAI, o uso da IA no Brasil pode adicionar R$ 986,7 bilhões à economia nacional até 2030. Os setores que o levantamento estima que terão os maiores ganhos de produtividade são a indústria de transformação (R$ 264,2 bilhões), o setor de serviços (R$ 165,4 bilhões) e o comércio (R$ 131,2 bilhões).Leia tambémExibir anúncios é negócio promissor para manter ChatGPT gratuito, diz executivo da OpenAIGoverno lança plano de IA que inclui supercomputadores, nuvem brasileira e parceria com a ChinaDona do ChatGPT faz parcerias com empresas para crescer no País; veja quaisIA entra em nova fase nas empresasConforme mostram os casos, a IA generativa nas empresas está mudando de fase. Se antes a ideia era usar a tecnologia de todas as formas possíveis para entender como ela poderia ser útil, agora o foco está em aplicações objetivas que aumentam a lucratividade das empresas. PublicidadeO dado surge em pesquisas de grandes consultorias de mercado. Segundo levantamento da consultoria PwC, as empresas que mais usam IA têm ganhos de receita e eficiência que são até 7,2 vezes superiores aos das demais companhias. O diferencial é integrar a tecnologia à estratégia de negócios e também utilizá-la para a criação de novas fontes de receita. Ou seja, o caminho para a lucratividade da IA nas empresas está tanto na aceleração de processos existentes quanto na reinvenção dos negócios.De acordo com levantamento feito pela EY, 88% das empresas utilizam inteligência artificial e 79% já fazem uso de IA generativa. Contudo, apenas 38% delas admitem que a IA está efetivamente gerando valor real e transformador dentro da organização, com impacto perceptível no lucro.“O Brasil aparece como um dos pioneiros. Hoje, 94% das pessoas que têm acesso à internet já usam IA. Nas empresas, são 88%. Isso é relevante, por exemplo, no varejo. As pessoas começam hoje uma compra pedindo o que querem para a IA. Se a empresa não aparecer lá, a marca está praticamente fora do mercado”, afirma David Dias, sócio da EY.Segundo Flávio Loução, sócio de IA e dados na Deloitte, um levantamento da empresa com mais de 3 mil executivos em mais de 20 países apontou que a governança de dados, os sistemas corporativos e o letramento das pessoas em IA são gargalos mais importantes do que a tecnologia na adoção da tecnologia. O estudo indicou que 42% das empresas brasileiras dizem estar usando IA, ante 34% da média global. Porém, no quesito extrair valor da IA para os negócios, a média brasileira ficou em 23%, ante 27% da média global. “Nosso apetite é maior do que a nossa preparação”, disse Loução, durante painel no evento Rio Innovation Week.A próxima etapa do uso da IA deve ser a mais difícil porque precisará ser inventada. Para ir além de acelerar os processos corporativos existentes, as empresas agora tentam criar novas formas de trabalhar tendo a IA no centro do negócio, em vez de ser apenas uma catalisadora.De acordo com Dias, da EY, será esse redesenho que trará impacto perceptível na lucratividade das empresas. Ele aponta o setor financeiro como o mais avançado nessa jornada, estando cerca de um ano a um ano e meio à frente dos demais setores nessa transformação.“Estamos vivendo um momento de ‘destruição criativa’. Muitas coisas que fazíamos ou conhecíamos vão acabar e estamos criando maneiras novas de trabalhar. Se você ficar olhando apenas para a redução de tempo em processos antigos, estará absolutamente equivocado. A grande sacada é redesenhar o processo inteiro”, diz Dias.Vale ler tambémO El Niño que vai além das chuvas: fenômeno também muda a dinâmica de pragas e doençasCom a Braskem, o Brasil bate recorde de R$ 180 bi em dívidas em recuperação judicial e extrajudicialVarejo descobre o custo de ser grande e fecha mais de 1,1 mil lojas desde 2022
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