Os ganhos de eficiência não se transformam automaticamente em bem-estar, e a quantidade de horas trabalhadas, sozinha, diz pouco 0.5x 1x 1.25x 1.5x 2x 00:00 00:00 Empresas chinesas como a Moonshot lançaram modelos de IA que se aproximam das capacidades dos principais sistemas de empresas dos EUA, impulsionadas por um governo que transformou a liderança em IA em uma prioridade nacional — Foto: Raul Ariano/Bloomberg Existe uma promessa implícita na inteligência artificial de que a eficiência na execução das tarefas atribuídas a ela trará mais qualidade de vida aos humanos. Mas, à medida que o tempo vai passando e aumentamos a observação sobre o tema, algumas contradições começam a surgir. Uma delas é que, enquanto líderes do setor de tecnologia falam em jornadas menores, profissionais das próprias empresas de IA relatam semanas de 70, 80 e até 90 horas de trabalho. Embora essa informação cause espanto, se pensarmos por um segundo, existe uma lógica perfeitamente plausível e imaginável: se a tecnologia aumenta a produtividade, é possível ou trabalhar menos ou buscar ganhar mais trabalhando mais. Obviamente, nem uma coisa nem outra necessariamente pode acontecer, e os funcionários podem trabalhar mais e receber a mesma coisa, ou até proporcionalmente menos. Por isso, é importante ter cuidado para não adotar imediatamente a lógica do “explorador x explorado” do capitalismo malvadão. Dados recentes ajudam a escapar das respostas fáceis. Um experimento com mais de 7 mil trabalhadores do conhecimento encontrou redução de duas horas semanais gastas com e-mails entre usuários de IA, além de menos trabalho fora do horário regular. Outro estudo associou maior exposição à IA a jornadas mais longas e menos lazer, sobretudo quando a tecnologia complementa o trabalhador e aumenta sua produtividade. No Brasil, a preocupação ganha outra camada. Pesquisa baseada em milhões de observações da PNAD Contínua e em registros formais de emprego encontrou perda relativa de renda entre jovens de 16 a 21 anos em ocupações mais expostas à IA depois do lançamento do ChatGPT. Outro levantamento, do FGV Ibre, também identificou piora relativa na empregabilidade de jovens de 18 a 29 anos. Os ganhos de eficiência não se transformam automaticamente em bem-estar, e a quantidade de horas trabalhadas, sozinha, diz pouco sobre quem ganhou e quem perdeu. Imagine alguém que, com auxílio da IA, produz 30% mais. Se parte desse ganho volta na forma de salário, bônus, autonomia, flexibilidade ou crescimento, trabalhar mais horas em determinado período não nos permite inferir que há prejuízo, porque faltam contextos. Se, porém, a consequência for elevar metas, reduzir equipes e manter a remuneração, o quadro muda bastante. Talvez esteja aí a pergunta mais interessante sobre o futuro do trabalho: quem captura o ganho de produtividade? A discussão costuma oscilar entre a semana de três dias e uma nova era de exploração, mas a realidade já é muito mais complexa. Empresas podem obter margens maiores, consumidores podem receber produtos melhores e mais baratos, trabalhadores podem ganhar renda, autonomia ou tempo, mas também podem perder espaço, como os primeiros dados sobre jovens brasileiros sugerem. No final, já sabemos que a tecnologia tem o potencial de aumentar o tamanho do bolo, mas a decisão sobre como as fatias serão distribuídas ainda se dará por meio do arranjo institucional do país, cujo desenho é definido por gente de carne e osso, como você e eu, seja diariamente, seja em ano de eleição como o que vivemos.
É preciso saber quem se beneficiará com a IA
Os ganhos de eficiência não se transformam automaticamente em bem-estar, e a quantidade de horas trabalhadas, sozinha, diz pouco









