O mercado de seguros começa a ampliar sua atuação diante dos riscos climáticos, mas ainda enfrenta obstáculos para transformar prevenção e adaptação em produtos e mecanismos de proteção. Esse foi um dos principais pontos dos debates realizados no World Climate Summit São Paulo, evento organizado pela World Climate Foundation no âmbito da SP Climate Week, e que reuniu representantes de seguradoras, bancos, governo e consultorias no começo do mês para discutir desde a proteção de populações vulneráveis até a transferência de riscos de grandes projetos de infraestrutura. Sistemas de alerta ainda não chegam a todos No primeiro painel, voltado à inclusão financeira, Thelma Krug, presidente do Comitê Diretor do Sistema Global de Observação do Clima da Organização Meteorológica Mundial (OMM), chamou atenção para as falhas dos sistemas de alerta climático já existentes no país. Segundo ela, os alertas, enviados por celular ou outros canais, não chegam a toda a população, principalmente às pessoas que não têm acesso a telefone celular ou a rotas alternativas de deslocamento em situações de emergência. “Toda construção [de política pública] tem que ser inclusiva”, afirmou Thelma, defendendo que as políticas sejam formuladas em conjunto por governos locais, cientistas, bancos e seguradoras. Ela também chamou atenção para a resistência de comunidades que vivem em áreas de risco a serem deslocadas, ressaltando a necessidade de considerar essas populações na formulação das medidas. Pequenos negócios e adaptação O embaixador Antônio da Costa e Silva, chefe de Assessoria Especial de Assuntos Internacionais do Ministério das Cidades, destacou outra frente de inclusão: a ampliação do acesso da população a serviços financeiros e de infraestrutura urbana. Ele citou o Pix como exemplo de avanço na inclusão financeira e mencionou o trabalho do Ministério das Cidades para regularizar o CEP de áreas ainda invisíveis ao poder público, além da titulação de imóveis e da regularização fundiária. Essas medidas, segundo ele, podem ajudar famílias de baixa renda a acessar outros instrumentos de proteção, incluindo o seguro. André Schelini, diretor técnico do Sebrae, lembrou que os pequenos negócios respondem por parcela expressiva do emprego no Brasil e defendeu políticas públicas capazes de disseminar entre os empreendedores uma maior consciência sobre resiliência climática. Ele citou o compromisso assumido pelo Mato Grosso de, até 2035, reduzir ao máximo as emissões de gases de efeito estufa, com ações como agricultura regenerativa e redução de queimadas e incêndios florestais. Segundo Schelini, o Sebrae conduz um plano estadual de adaptação climática que abrange os biomas do Pantanal, Cerrado e Amazônia, além do sistema do Araguaia, incluindo pequenos negócios inseridos em áreas de zoneamento ambiental. O trabalho está estruturado em três frentes: preparação financeira para lidar com emergências e negociar com fornecedores; disseminação de boas práticas por meio de uma plataforma nacional; e atuação como voz ativa no ecossistema de adaptação. Metas, dados e parcerias Patrícia Chacon, presidente do SindSegSP (Sindicato das Empresas de Seguros de São Paulo) e CEO da Porto, listou três componentes que considera fundamentais para o avanço da resiliência climática no setor. O primeiro é o estabelecimento de compromissos e metas. “Porque, se não pode ser medido, dificilmente a gente consegue saber”, afirmou, citando metas ambientais e de diversidade, equidade e inclusão lançadas pela Porto, entre elas o programa Regenere. O segundo ponto é o uso de dados, considerados por ela essenciais para identificar onde estão os riscos e as pessoas que ainda não conseguem se recuperar e reconstruir depois de eventos climáticos. O terceiro é a formação de um ecossistema de parcerias público-privadas que reúna financiamento, estudos e produtos do mercado segurador para enfrentar o problema de forma coordenada. Viviane Torinelli, gerente de Sustentabilidade do Banco Central do Brasil, defendeu que a discussão climática deixe de ficar restrita às áreas de compliance ou ESG e passe a fazer parte das decisões de governança das empresas. O objetivo, segundo ela, é transformar essa agenda em produtos e medidas com impacto concreto. Infraestrutura ainda olha para o passado O segundo painel, dedicado a infraestrutura e concessões, discutiu os desafios para incorporar riscos climáticos à modelagem financeira de projetos de PPP. Luciene Machado, superintendente de Estruturação de Projetos do BNDES, afirmou que municípios e Estados estão mais sensibilizados para incorporar o mapeamento de riscos climáticos à estruturação dos projetos, com reflexos sobre CAPEX, OPEX e a matriz de riscos. Segundo ela, a experiência prévia com eventos climáticos adversos influencia a forma como os governos tratam o tema. André Dabus, diretor de Infraestrutura da Marsh, apontou três obstáculos para transferir riscos climáticos ao mercado segurador. O primeiro é a qualidade das informações fornecidas a seguradoras e investidores. Quanto mais adequados forem os dados, menor tende a ser a incerteza nos contratos e maior a atratividade dos projetos para investidores e financiadores, afirmou. Ele citou como avanço os editais do BNDES que passaram a apresentar matrizes de risco mais desenvolvidas. O segundo desafio é a própria natureza dos riscos. Dabus dividiu os eventos climáticos entre “ordinários”, que podem ser transferidos, especificados e segurados, e “extraordinários”, para os quais ainda não há métricas adequadas. Os projetos, segundo ele, ainda são estruturados com uma visão baseada no histórico, quando seria necessário incorporar projeções sobre o comportamento futuro do clima. “Agora está a necessidade de olhar para esse comportamento climático da visão do para-brisa”, afirmou. O terceiro ponto são os mecanismos disponíveis para a transferência dos riscos. Além das apólices tradicionais, presentes nos contratos de concessão, Dabus citou a Letra de Risco de Seguro (LRS), que capta recursos no mercado de capitais para ampliar a capacidade de retenção de risco do mercado ressegurador, e os seguros paramétricos climáticos, ainda pouco utilizados para riscos extraordinários. Ele também citou a sexta etapa do programa de concessões rodoviárias da ANTT como um marco recente por estabelecer um novo padrão de riscos e seguros para os contratos. Do pagamento de sinistros à prevenção Questionada sobre como o setor pode apoiar não apenas a indenização, mas também a prevenção, Erika Medici, CEO da AXA Brasil, destacou a mudança no papel das seguradoras. “Tem tempo que a gente não pensa em mercado de seguros apenas como um pagador de custos”, afirmou. Segundo ela, o setor vem ampliando sua atuação em prevenção e na construção de soluções diante da maior intensidade e frequência dos eventos climáticos. Como exemplo, ela citou o trabalho de engenharia de risco realizado pela AXA com clientes. Engenheiros analisam os ativos, propõem melhorias em conjunto com o cliente e o corretor e fazem novas visitas ao longo da vigência da apólice para verificar a implementação das medidas e incorporar os aprendizados aos produtos do ciclo seguinte. Ao comentar as enchentes no Rio Grande do Sul, Medici destacou o baixo percentual de empresas que tinham algum tipo de proteção diante da dimensão do desastre e defendeu maior educação do mercado e dos clientes para a construção de soluções sustentáveis no longo prazo. O custo de não agir Melina Amoni, gerente de Mudanças do Clima da WayCarbon, apresentou o trabalho da empresa na análise de risco climático de ativos e infraestruturas críticas, como rodovias, portos, sistemas de saneamento e abastecimento. A metodologia começa pela identificação dos ativos mais críticos e mais dependentes da continuidade da receita operacional. A partir daí, a variável climática é incorporada à análise. Ela citou um estudo sobre infraestruturas críticas no Brasil que calcula não apenas o impacto dos eventos climáticos sobre esses ativos, mas também o chamado “custo da inação”: quanto custa não agir diante de infraestruturas cuja interrupção pode gerar efeitos em cadeia sobre o funcionamento do país. Segundo Melina, a equipe já analisou mais de 18 mil quilômetros de infraestrutura sob essa ótica. A executiva também defendeu uma visão de “escopo 3 da adaptação”, que considera cadeias de suprimento, logística, território e trabalhadores, além dos ativos das próprias empresas. Mercado ainda pouco preparado para infraestrutura Ao longo do debate, os palestrantes voltaram a um ponto da baixa maturidade do mercado segurador brasileiro para infraestrutura. Dabus afirmou que, entre as mais de 100 seguradoras em atividade no país, apenas um pequeno número mantém equipes dedicadas à engenharia e à análise de project finance voltadas para o setor. Apesar disso, disse estar otimista com a evolução desse mercado. Também foi discutida a necessidade de maior participação das seguradoras desde as etapas iniciais dos projetos. Segundo um dos palestrantes, não é incomum que elas sejam procuradas apenas poucos dias antes de um edital de licitação para elaborar propostas. O ideal, segundo ele, seria participar das audiências públicas e da elaboração dos editais com antecedência. Outro exemplo citado foi o do Rio Grande do Sul, que contratou um empréstimo contingente junto ao Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID) como alternativa ao seguro tradicional para se proteger financeiramente de eventos climáticos. Reconstruir melhor após a catástrofe No encerramento do painel, Dabus resumiu em três princípios o que considera necessário para a evolução dos contratos de concessão no Brasil. O primeiro é o “Value for Money”, conceito usado para orientar a decisão do poder público sobre a concessão de um serviço ao setor privado. O segundo é o “fitness for purpose”, que, segundo ele, significa garantir que a infraestrutura entregue cumpra sua função social e contribua para uma transformação positiva na região. O terceiro é o “Build Back Better”, conceito segundo o qual a reconstrução depois de uma catástrofe climática não deve simplesmente repor o que existia, mas tornar a infraestrutura mais resiliente a novos eventos. Dabus afirmou que os concessionários ainda não precificam adequadamente esse tipo de reconstrução no OPEX e no CAPEX e que as seguradoras também não arrecadam prêmios suficientes para cobrir custos superiores aos da simples reposição do patrimônio. Segundo ele, a nova lei brasileira de contrato de seguro permite avançar nessa direção. O debate também chegou à construção civil. Segundo um dos palestrantes, soluções consideradas menos convencionais, como a construção em madeira engenheirada, ainda enfrentam dificuldades para obter cobertura no mercado segurador brasileiro e mundial, por serem tratadas como materiais pouco testados.
Setor de seguros busca ampliar papel na adaptação climática e na prevenção de riscos
Debates da SP Climate Week mostraram desafios para proteger populações vulneráveis e transferir riscos climáticos de grandes obras e concessões ao mercado segurador






