A inteligência artificial começa a redesenhar o combate ao câncerO avanço da vacina personalizada de mRNA aponta para uma nova fase da IA na saúde. Crédito: EstadãoNa semana passada, o comunicado sobre os resultados positivos de fase 3 da vacina contra o melanoma aumentou em 177% o valor das ações da farmacêutica Moderna, o maior salto diário da história da empresa. PUBLICIDADESegundo a revista Nature, essa foi a primeira demonstração de sucesso de um tratamento oncológico de mRNA em um estudo clínico avançado, uma ideia que tem sido perseguida por décadas e abandonada tantas vezes que boa parte dos oncologistas já havia perdido a esperança.O que torna esse anúncio realmente interessante, porém, está mais relacionado a como as intervenções clínicas passaram a ser desenvolvidas. Faz pelo menos uma década que a indústria farmacêutica usa algoritmos de inteligência artificial (IA) em quase tudo que envolve o desenvolvimento de novos medicamentos e vacinas.Durante os ensaios clínicos, algoritmos já auxiliam no recrutamento, na escolha dos hospitais participantes e no monitoramento da adesão aos protocolos. Depois da aprovação, a IA já participa da farmacovigilância e da análise de dados de mundo real para detectar efeitos adversos.Veja tambémAs quatro vantagens humanas sobre a IA: contexto, bom gosto, iniciativa e responsabilidadeCom a IA, professores estão voltando a ser professoresAté recentemente, porém, boa parte dessas aplicações funcionava ao redor da intervenção. A IA ajudava a acelerar ou melhorar etapas da pesquisa, mas, no caso da nova vacina, ela participou da própria definição do tratamento. PublicidadeUma das decisões importantes para essa vacina é escolher quais características específicas do tumor de cada paciente devem ser selecionadas como alvos. Os neoantígenos são fragmentos de proteína criados pelas mutações do tumor, e escolher as poucas dezenas que entram na vacina é um problema de otimização estatística.Os algoritmos aprenderam a identificar e a priorizar quais neoantígenos devem ser incluídos na vacina de cada paciente específico. Se essa seleção mudar, a vacina recebida pelo paciente também irá mudar. A IA deixou de ser apenas uma ferramenta de apoio e passou a integrar a cadeia de decisões que determina a composição da intervenção terapêutica.Inteligência artificial tem ajudado na criação de vacinas Foto: Gorodenkoff - stock.adobe.comPor isso, o resultado da nova vacina de mRNA é particularmente simbólico para o avanço da tecnologia. Ele não significa que uma IA tenha criado sozinha uma vacina contra o câncer, mas mostra uma nova importância da IA para o desenvolvimento científico em saúde.Durante os primeiros anos da sua adoção pela indústria farmacêutica, a IA foi uma tecnologia usada para fazer mais rápido aquilo que os pesquisadores já faziam. Agora começa oficialmente uma nova etapa, em que os algoritmos participam da escolha dos alvos, do desenho das moléculas e da definição dos próprios tratamentos.O verdadeiro impacto da IA na saúde será medido pelas descobertas que não teriam sido possíveis sem ela. A nova vacina de mRNA é um dos primeiros sinais concretos de que essa fase já está começando.Vale ler tambémVarejo descobre o custo de ser grande e fecha mais de 1,1 mil lojas desde 2022Governo libera R$ 1,3 bi para financiar data centers e redes de internetPismo avança em internacionalização e chega a 30 paísesPublicidade