Gerando resumoA indústria brasileira foi protegida da competição internacional por décadas, por meio de subsídios e de ajuda governamental, mas esse sistema “está destruído”, afirma o economista José Roberto Mendonça de Barros, sócio da MB Associados, que participou de debate promovido pelo Estadão para tratar dos desafios econômicos do próximo governo. “A gente não podia ter coisa melhor”, afirma. “Estamos vivendo este ano uma coisa que nunca vi, que é uma competição por desconto de preços entre a indústria estabelecida aqui, de representantes da Anfavea (Associação Nacional dos Fabricantes de Veículos Automotores), e os chineses que estão chegando. Por que eles ficaram bonzinhos? Não. Porque, senão, não vendem nada.”Mendonça de Barros e Elena Landau abordaram as transformações no parque industrial brasileiro Foto: Daniel Teixeira/EstadãoPUBLICIDADEAté por essa competição promovida pelos fabricantes de carros elétricos chineses, avalia o economista, a indústria automotiva é um dos dois setores que estão indo bem “mesmo nessa bagunça” da economia brasileira atual, ao lado do setor imobiliário. “Se tirar a indústria de papel e celulose, os setores defendidos pelo governo Geisel, que receberam os troféus de grandes campeões nacionais, desacabaram. O valor deles acabou.”Um exemplo disso seria a Braskem, empresa que acaba de pedir recuperação extrajudicial. “Ela representa uma petroquímica inviável, movida a nafta e não a gás natural, protegida pelo preço que a Petrobras subsidia e que era totalmente inviável há muito tempo”, diz Mendonça de Barros.O economista considera que o acidente de afundamento do solo em Maceió foi só um pedaço do problema financeiro da Braskem, não a sua causa, e que se a empresa estivesse saudável poderia pagar com tranquilidade esses prejuízos. “Acabou o sistema de produção. Envelheceu a representação industrial, e hoje ela não faz mais diferença nenhuma”, afirma.Para a também economista e advogada Elena Landau, que participou do debate, o símbolo da indústria nacional não é mais o setor automobilístico, como foi na segunda metade do século 20, o que seria ”um excelente sinal”. “Quando você falava com orgulho da indústria nacional, antigamente, você falava dos carros. Hoje em dia você olha como grandes empresas brasileiras a Weg e a Embraer, que têm as características de competição internacional. Isso obriga o pessoal que está protegido a mudar. Não quer dizer que os lobbies no congresso não continuem, mas mudaram os ídolos, os heróis.”PublicidadeO ano de 2027 pode trazer recessãoQuanto às expectativas de Landau e Mendonça de Barros para a economia em 2027, o cenário é de piora. A situação será preocupante, marcada por juros elevados, aumento da dívida pública, endividamento de empresas e famílias, e de risco de recessão. A avaliação é que não há uma solução simples, mas ainda seria possível evitar uma crise mais grave caso o próximo governo consiga recuperar rapidamente a credibilidade econômica.Um dos principais sinais de alerta está no custo de financiamento da dívida pública. As taxas pagas pelo Tesouro em títulos de longo prazo são apontadas como evidência de que o risco fiscal já foi incorporado aos preços pelo mercado. Nesse cenário, os analistas alertam para o risco de um “calote inflacionário”, no qual a deterioração fiscal acabaria sendo absorvida por uma inflação mais elevada, explica Landau.A perspectiva para 2027 é considerada pessimista porque parte dos efeitos da política monetária e do elevado endividamento “já estaria contratada”, trazendo um crescimento ainda menor ou uma recessão. O aumento das recuperações judiciais, o endividamento das famílias e a desaceleração da atividade são vistos como sinais da deterioração da economia. Um eventual choque de credibilidade, porém, poderia alterar esse cenário, ou crise já estaria contratada, diz Landau.PublicidadeLeia tambémGiannetti e Pessôa: Equacionar questão fiscal será fundamental para reduzir tensão entre os PoderesCenário preocupa e Brasil tem desaceleração contratada em 2027, dizem Marcos Lisboa e Solange SrourBrasil vive combinação de crise institucional com uma crise moral, dizem Landau e Mendonça de BarrosA questão será se o próximo presidente terá a capacidade ou o interesse de apresentar um programa fiscal consistente logo no início do mandato. No caso de uma reeleição de Lula, seria necessário um importante ajuste de posição e de medidas consideradas difíceis para serem aceitas pelo PT, como mudanças na Previdência, uma revisão da vinculação de despesas ao salário mínimo e alterações nas regras de gastos com saúde e educação, o que até configuraria um “estelionato eleitoral”. No caso de uma vitória de Flávio Bolsonaro, o resultado positivo dependeria da qualidade e da autonomia da equipe econômica e de sua capacidade de aprovar mudanças no Congresso.Apesar do pessimismo das expectativas, há uma avaliação de que o Brasil ainda possui capacidade de atrair investimentos quando as condições econômicas melhoram. O setor privado tem respondido por meio de concessões, parcerias público-privadas e investimentos em novas áreas promissoras, como a de terras raras.Vale ler tambémA inteligência artificial começa a redesenhar o combate ao câncerCaixa já investiu R$ 2,6 bi em tecnologia em 2026A inteligência artificial seria a solução ou a dissolução?