Ex-governador de Minas Gerais foi o primeiro presidenciável entrevistado pelos jornais O GLOBO e Valor e a rádio CBN nesta terça-feira 0.5x 1x 1.25x 1.5x 2x 00:00 00:00 Romeu Zema na sabatina de O GLOBO, Valor e CBN — Foto: Ana Branco/Agência O Globo Romeu Zema chegou à sabatina dos jornais O GLOBO e Valor e da rádio CBN com um discurso conhecido: cortar gastos, fazer reforma administrativa, privatizar estatais, rever incentivos fiscais e reduzir o peso do Estado. É uma narrativa que encontra eco num eleitor cansado de desperdício, imposto e serviço público ruim. Mas aconteceu algo interessante ao longo da entrevista: quanto mais as perguntas saíram do Estado abstrato e entraram no Brasil concreto, menos mínimo ficou o Estado proposto por Zema. A Caixa Econômica talvez tenha sido o melhor exemplo. Em maio, Zema dizia que, se eleito, iria “privatizar tudo”. Na véspera da sabatina, em entrevista à Globo, voltou a defender a privatização de Petrobras, Banco do Brasil e Caixa. Menos de 24 horas depois, quando perguntado diretamente sobre Caixa e Embrapa, respondeu que não privatizaria nenhuma das duas. Sobre a Caixa, foi além: disse que ela funciona como uma espécie de braço do Ministério da Assistência Social. Isso não é apenas uma contradição de campanha. É o Brasil real corrigindo a ideologia. O mesmo aconteceu em outros temas. Quando o assunto foram programas sociais, Zema disse que são essenciais e devem ser mantidos, embora defenda um pente-fino contra fraudes. Na Saúde e na Educação, em vez de simplesmente defender menos gasto, propôs que a distribuição dos recursos considere critérios demográficos e as diferentes necessidades dos municípios. As pesquisas do Locomotiva mostram há anos que o eleitor da classe C não cabe na velha pergunta sobre Estado mínimo ou Estado máximo. Esse brasileiro pode reclamar do imposto pela manhã, vender pelo WhatsApp à tarde e, à noite, depender do SUS para atender a mãe. Pode preferir trabalhar por conta própria e querer escola pública funcionando para o filho. Pode desconfiar da máquina pública e saber que, sem ela, fica sozinho quando a vida aperta. A classe C aprendeu, na prática, que o Estado pode ser ineficiente e indispensável ao mesmo tempo. Zema foi melhor quando conseguiu traduzir a planilha para o boleto. Ao relacionar gasto público, juros altos e prestações mais caras de motos, celulares e outros bens financiados, falou numa linguagem que chega à maioria. O brasileiro não compra “equilíbrio fiscal”. Compra geladeira. Não paga “prêmio de risco”. Paga prestação. Mas é justamente aí que surge a pergunta: cortar qual gasto? Se for fraude, privilégio e desperdício, há audiência. Se a consequência for uma consulta que demora ainda mais no SUS, uma creche sem vaga ou uma polícia que não chega, a conversa muda. Quem tem renda alta consegue pagar pela ausência do Estado: plano de saúde, escola particular, segurança, carro, previdência. Para os mais pobres, a ausência do Estado não é uma tese econômica. É uma porta fechada. Por isso a mudança sobre a Caixa é tão reveladora. Quando Zema reconhece que ela cumpre uma função social que o mercado não necessariamente substitui, muda também a pergunta. Já não se trata apenas de saber se uma empresa deve ser pública ou privada, mas de entender onde o mercado consegue chegar sozinho e onde alguma presença pública continua necessária. É esse pragmatismo que encontro quando escuto o eleitor popular. Ele não acorda querendo saber qual é o tamanho ideal do Estado. Quer saber quem consegue destravar sua vida. Zema tem razão ao dizer que um Estado caro e ineficiente também pune os pobres. Seu desafio é reconhecer o outro lado da equação: a ausência do Estado pune esses mesmos brasileiros primeiro. A eleição de 2026 não será um plebiscito entre Estado máximo e Estado mínimo. Será uma disputa sobre qual Estado aparece quando a vida aperta. E, curiosamente, quanto mais Zema respondeu sobre esse Brasil de verdade, mais perto chegou dessa conclusão.