Fico profundamente incomodado quando termino de ler um livro e percebo que tudo, ou quase tudo, está explicado. Porque a literatura não existe para resolver, mas para aprofundar perguntas, por vezes as mesmas, martelando, indo e voltando, inspirando e expirando, uma tortura psicológica que é a própria existência.

Um livro, qualquer livro, tampouco é simulacro de qualquer coisa, é a própria coisa redesenhada, reescrita, restabelecida. Engolida e escarrada. Fermentada. Adocicada e azeda. Perfumada e podre. Sobreviver é assim.

Entre as personagens mais emblemáticas da literatura brasileira está a Capitolina de Machado de Assis. E tanto do que a permeia é a dúvida, nunca a certeza. Na literatura e na vida, é essencial que as respostas nos faltem.

Parêntese: estou em uma cidade do interior paulista chamada São Pedro, com cerca de quarenta mil habitantes, e descobri faz algum tempo, não muito, que a Capitolina verdadeira morava aqui. Sim, a pessoa longe da ficção que inspirou Machado. O nome dela era Rafaelina, uma mulher jovem, casada, que supostamente tinha um amante – e, comprovadamente, trocou correspondência diversas com o autor de Dom Casmurro. Cartas que foram ganhando temperatura, revelando-se.