Entenda a disputa bilionária do caso OncoclínicasAs gestoras Latache e Centaurus travam uma batalha em torno da necessidade, ou não, de se realizar uma oferta de ações na empresa. Crédito: Jennefer OliveiraA CVM decidirá se a Centaurus, segundo maior acionista da Oncoclínicas, deve realizar uma OPA, proposta que pode custar R$ 6 bilhões. A Latache, maior acionista, defende a OPA, enquanto a Centaurus alega ser acionista relevante antes do IPO. A decisão ocorre em meio a uma recuperação extrajudicial da Oncoclínicas, com dívidas de R$ 5,1 bilhões. A disputa inclui arbitragem e envolve a reestruturação de fundos do Goldman Sachs. A decisão da CVM não encerrará o caso, que segue em arbitragem.O imbróglio do caso Oncoclínicas ganha um capítulo importante nesta terça-feira, 25. A Comissão de Valores Mobiliários (CVM) vai decidir se a gestora Centaurus, o segundo maior acionista individual da companhia, precisa realizar uma Oferta Pública de Aquisição de Ações (OPA). PUBLICIDADEUma “OPA” acontece quando um acionista faz uma proposta para comprar todas as ações dos demais investidores. Conforme apurou o Estadão/Broadcasta, essa aquisição pode chegar a custar R$ 6 bilhões ao Centaurus. Na outra ponta, a principal beneficiada pela oferta seria a gestora Latache, a maior acionista individual da Oncoclínicas, com 14,6% do capital, e grande defensora da OPA.O caso Oncoclínicas é um dos maiores analisados pela CVM no ano e o de maior repercussão, até o momento, na gestão do diretor Otto Lobo, que assumiu a presidência do órgão em junho. Procuradas, a Latache, Centaurus e Oncoclínicas não se manifestaram. PublicidadeA Oncoclínicas, uma rede privada especializada no tratamento do câncer, entrou nos holofotes do mercado pela primeira vez após ter 20% do capital adquirido pelo Banco Master em julho de 2024. Depois que a liquidação da instituição financeira foi feita, em novembro do ano passado, veio à tona um prejuízo de R$ 433 milhões, fruto do investimento em Certificados de Depósitos Bancários (CDBs) do conglomerado de Daniel Vorcaro.Uma reestruturação de fundos na OncoclínicasA discussão pela OPA começou ainda antes da descoberta sobre os CDBs do Banco Master. O gatilho para toda a briga jurídica, que envolveu a CVM e até a Polícia Civil Estadual de São Paulo, foi uma reestruturação em fundos que detinham participação na Oncoclínicas.O banco americano Goldman Sachs é um antigo acionista da Oncoclínicas, e estava presente na empresa desde 2015. Esse investimento era feito por meio de uma estrutura de fundos de investimento chamados “Josephina” I e II. No meio dessa estrutura, estava o family office Centaurus, que detinha participação indireta, mas relevante, na empresa.PublicidadeContudo, pela regulação americana, o Goldman Sachs só poderia manter por até 10 anos uma participação superior a 5% em investimentos proprietários. Com o fim desse prazo se aproximando, o banco decidiu, no final de 2024, diminuir a exposição e reestruturar os fundos que detinham participação na Oncoclínicas. Depois desse realinhamento, a Centaurus, antes cotista indireta, passou a deter cerca de 16,05% por meio de um novo fundo chamado Josephina III. No final de 2024, portanto, o quadro de acionistas da Oncoclínicas passou a ter a seguinte composição:Os conflitos sobre a OPA iniciaram-se somente em meados de março de 2025, depois que a Latache se tornou uma acionista individual de relevância na companhia. A gestora aponta que o Estatuto Social da Oncoclínicas, documento que reúne as regras às quais a companhia está submetida, define que qualquer acionista que atinja ou supere 15% de participação no capital, seja obrigado a lançar uma oferta de compra de ações aos demais investidores. Essa cláusula, conhecido como poison pill (ou pílula de veneno), foi criada para desencorajar aquisições hostis, mas há exceções ao “veneno”.PublicidadeUma dessas exceções abrange acionistas que já detinham participação relevante na Oncoclínicas antes da abertura de capital, ocorrida em 2021. A Centaurus defende que é esse o caso da empresa, já que, desde antes do IPO, estava na estrutura de fundos do Goldman Sachs na Oncoclínicas, com fatia relevante. Não se trataria, portanto, de um “novo acionista”. Oncoclínicas é uma rede especializada no tratamento de câncer Foto: Divulgação/OncoclínicasA Latache pensa diferente. Sustenta que a figura da Centaurus somente emergiu no final de 2024, depois da reorganização nos fundos do Goldman Sachs. Portanto, deveria fazer a oferta de ações, cujo montante supera o próprio valor de mercado da empresa.A discussão acabou na CVM, cuja área técnica emitiu um parecer favorável à Centaurus. Os técnicos da autarquia apontaram que o family office havia indicado um diretor para a Oncoclínicas em 2019, indício de que já detinha participação relevante antes do IPO, como apurou o Estadão/Broadcast. Diante da negativa, a Latache entrou com recurso no colegiado da autarquia, hoje composto presidente Otto Lobo, João Accioly e Igor Muniz. A diretora Marina Copola se declarou impedida no caso e não participou das votações. Este é o recurso a ser analisado nesta terça.PublicidadeAntes do julgamento, havia rumores de que o placar do colegiado penderia para a tese apresentada pela Latache. Entre janeiro e julho, as ações da Oncoclínicas caíram 70%. No início de agosto, quando os rumores ultrapassaram os corredores da CVM, os papéis saltaram. Até esta segunda-feira, 24, acumulavam alta de 176% no mês.Antes de todo o imbróglio, a gestora Latache geria os fundos pelos quais o Master detinha participação na Oncoclínicas. A deterioração e subsequente liquidação do banco redesenhou o quadro de acionistas da empresa, com a Latache aos poucos assumindo a dianteira. Paralelamente o Banco de Brasília (BRB) recebeu, do Master, ações da rede especializada em tratamento oncológico como forma de recuperação de créditos - o BRB adquiriu R$ 12 bilhões em uma carteira podre do Master no decorrer de 2025.Procurado, o BRB afirmou que não participa das discussões referentes à OPA da Oncoclínicas. “A participação no referido veículo decorreu exclusivamente de processo de dação em pagamento e substituição de garantias, no contexto de recuperação de créditos, não representando decisão de investimento estratégico na companhia. O BRB não possui ingerência, assento ou participação na gestão, na governança ou nas decisões de investimento do fundo ou de suas investidas”, disse ao Estadão.PublicidadeA decisão da CVM não será o fim das discussões. Na última sexta-feira, 21, o fundo Josephina III entrou com uma arbitragem - via privada de resolução de conflitos entre empresas - para contestar a necessidade de uma oferta de aquisição. O processo deve correr de forma independente à decisão da CVM. Hoje, paralelamente ao entrave sobre a OPA, a companhia enfrenta uma recuperação extrajudicial, com dívidas de R$ 5,1 bilhões. O pedido foi feito pela Oncoclínicas à Justiça no dia 13 de julho e acatado no começo de agosto.Segundo levantamento feito pelo Instituto Empresa, dentro da dívida do grupo há R$ 1,6 bilhão em Certificados de Recebíveis Imobiliários (CRIs) lastreados em debêntures e distribuídos a aproximadamente 25 mil investidores. Para esses, a discussão sobre a oferta não muda a percepção de risco de inadimplência.“Formalmente, a securitizadora aparece como titular das debêntures que servem de lastro aos CRIs. Economicamente, porém, são os investidores que adquiriram os certificados que dependem dos pagamentos desses créditos e que suportarão os efeitos de eventual deságio, alongamento, alteração de juros ou mudança das condições originais”, diz Nicole Berto, executiva do Instituto Empresa, em nota.Vale ler tambémA inteligência artificial seria a solução ou a dissolução?Caixa já investiu R$ 2,6 bi em tecnologia em 2026Empresas controladas pela XP vão se fundir
Oncoclínicas: CVM julga hoje se gestora terá de fazer compra de ações estimada em R$ 6 bilhões
Disputa polêmica envolve o family office Centaurus e a gestora Latache; procurados, os envolvidos não comentaram












