Manifestação de ministros pode dar novo impulso às apurações relacionadas ao filme, avaliam governistas 0.5x 1x 1.25x 1.5x 2x 00:00 00:00 Jair Bolsonaro é interpretado por Jim Caviezel em 'Dark Horse' — Foto: Marcelo Camargo/Agência Brasil — Reprodução Uma decisão do ministro Flávio Dino que permite à Polícia Federal (PF) acessar provas obtidas pela Polícia Civil de São Paulo ampliou a pressão no Supemo Tribunal Federal (STF) em torno do financiamento do filme “Dark Horse”, sobre o ex-presidente Jair Bolsonaro (PL), e tem potencial para ampliar as divergências internas na Corte. Em decisão do último dia 21 antecipada nesta segunda-feira pela colunista Bela Megale, Dino autorizou que a PF tenha acesso a dados apreendidos pela Polícia Civil paulista em uma operação que atingiu Karina Ferreira da Gama, sócia da Go Up Entertainment, produtora responsável pelo filme. O compartilhamento havia sido solicitado pela própria PF, que apura, na frente relatada por Dino, se recursos provenientes de emendas parlamentares foram desviados para empresas ligadas à produção. A decisão ocorre em um momento de incômodo entre governistas com o ritmo de outra investigação relacionada ao “Dark Horse”, esta sob a relatoria do ministro André Mendonça. O inquérito conduzido por ele apura os repasses feitos pelo ex-banqueiro Daniel Vorcaro, dono do Banco Master, para a produção do filme. A investigação foi aberta em julho, depois que vieram à tona mensagens e um áudio em que Flávio Bolsonaro (PL), candidato à Presidência, pede dinheiro a Vorcaro para ajudar a financiar a obra. As duas apurações têm objetos distintos. Enquanto Dino trata da suspeita de uso irregular de emendas parlamentares destinadas a entidades e empresas ligadas à produtora, Mendonça comanda a investigação sobre a origem e o destino do dinheiro repassado por Vorcaro. Na prática, porém, as duas frentes passaram a se aproximar em torno da produtora responsável pelo filme e podem produzir informações de interesse recíproco para os investigadores. É justamente essa sobreposição que passou a ser observada com atenção dentro do STF e no entorno do governo. Interlocutores governistas consideram que o acesso da PF ao material já apreendido em São Paulo pode dar novo impulso às apurações relacionadas ao filme, em um momento em que há a percepção de que o inquérito sob responsabilidade de Mendonça avança de maneira mais lenta. Segundo interlocutores do ministro, no entanto, a investigação sobre o “Dark Horse” está em estágio inicial e eventuais novos passos dependem, neste momento, da própria Polícia Federal. Mendonça autorizou a abertura do inquérito em julho a pedido da corporação e logo após parecer favorável da Procuradoria-Geral da República (PGR). A movimentação ocorre em meio a um ambiente de crescente tensão no Supremo em torno das investigações que atravessam a campanha presidencial. Mendonça concentra hoje casos politicamente relevantes para os dois principais campos da disputa. Além do caso “Dark Horse” e das investigações relacionadas ao Master, também estão sob sua supervisão apurações ligadas às fraudes no INSS e a Fábio Luís Lula da Silva, o Lulinha. Em outra frente, Dino também foi sorteado relator de uma apuração envolvendo Lulinha. No atual cenário do Supremo, Dino e Mendonça se posicionam em alas distintas dentro do Supremo. Dino tem como seus maiores aliados no Supremo os ministros Alexandre de Moraes e Gilmar Mendes, enquanto Mendonça tem encontrado maior convergência com Kassio Nunes Marques e Luiz Fux. Avaliação do governo Integrantes do governo e aliados do presidente Luiz Inácio Lula da Silva avaliam que a medida tomada por Dino no último dia 21 e divulgada nesta segunda pode ajudar a “acelerar” as investigações que atingem o entorno do senador Flávio Bolsonaro. Aliados do presidente se queixam do que seria uma demora para avançar nesse caso, enquanto outros que miram pessoas próximas a Lula estariam avançando mais rapidamente. Mendonça foi indicado por Bolsonaro ao STF. Dino, por sua vez, foi ministro da Justiça de Lula e depois indicado por ele a uma vaga na Corte. Além disso, os dois ministros integram alas diferentes do Supremo. Dois aliados do petista dizem, sob reserva, que um Supremo divido não é bom, já que pode incentivar maiores questionamentos e ataques da direita ao Judiciário. Um auxiliar de Lula diz que há uma tentativa em distensionar o clima no STF, mas afirma enxergar incentivos a esses ruídos internos até mesmo como estratégia para, futuramente, buscar a nulidade dos processos. Nos últimos dias, as investigações relacionadas a Lulinha registraram novos avanços. Já no caso do “Dark Horse”, aliados do governo passaram a cobrar maior velocidade na apuração, sobretudo diante das suspeitas envolvendo Flávio e Vorcaro. Nesse cenário, a decisão de Dino é vista por esse grupo como uma forma de colocar novos elementos à disposição da PF sem depender exclusivamente do andamento do inquérito relatado por Mendonça. Apesar de criticar a condução de Mendonça no caso Dark Horse, um aliado de primeira hora de Lula afirma que esses movimentos e troca de acusações sobre o andamento dos processos pode gerar prejuízos ao próprio petista. Por essa avaliação, qualquer ruído pode ser usado por adversários para acusar Lula de interferência nas investigações, discurso rechaçado pelo petista e seu entorno. Em entrevista neste final de semana, por exemplo, Lula voltou a cobrar que todas as investigações aconteçam e que trata com “muita seriedade” as que falam de seu filho Lulinha e do seu ex-chefe de gabinete Marco Aurélio Santana Ribeiro, o Marcola. O presidente disse que ninguém está acima da lei. — Todos nós somos obrigados a agirmos corretamente. Se alguém está agindo de forma equivocada, de forma errada, esse alguém tem que ser investigado. Isso vale para o meu filho, vale para qualquer pessoa. Ninguém está (acima da lei) se cometer erro — afirmou Lula em entrevista a Record.