A discussão sobre as chamadas canetas emagrecedoras ganhou um novo capítulo depois que Leandra Leal questionou o uso desses medicamentos para alcançar padrões de beleza. Após a repercussão de declarações feitas no programa "Sem Censura", a atriz voltou às redes sociais para esclarecer que sua crítica não era dirigida ao tratamento da obesidade, mas à utilização das medicações com finalidade estética e à retomada de um ideal de extrema magreza. "Um: não estou demonizando o uso das canetas emagrecedoras. Dois: não estou romantizando a obesidade. E três: eu acho um retrocesso a volta do padrão de beleza de extrema magreza. Acho mesmo", disse Leandra. A fala abre espaço para uma questão que vai além da pressão estética: é possível desenvolver uma relação de dependência com esses medicamentos? A resposta dos especialistas ouvidos pela ELA é mais complexa do que um simples sim ou não. As medicações usadas no tratamento da obesidade não são, em geral, classificadas como drogas que provocam dependência química no sentido tradicional. O que pode surgir, em alguns casos, é uma relação psicológica ou comportamental inadequada com o recurso. Segundo a cirurgiã bariátrica Stephanie Giulianne Silva Morelli, alguns sinais merecem atenção. Entre eles estão o medo excessivo de interromper o tratamento, a alteração de doses sem orientação médica e o uso repetido da medicação para compensar períodos de ganho de peso. A preocupação também aparece quando o objetivo passa a ser exclusivamente a balança, com uma busca contínua por números cada vez menores, independentemente das condições de saúde e da indicação clínica. Quando a caneta deixa de ser uma ferramenta Os medicamentos que atuam nas vias das incretinas, como os agonistas do receptor de GLP-1 e terapias relacionadas, modificaram o tratamento da obesidade e de alterações metabólicas associadas. Eles podem aumentar a saciedade, auxiliar no controle da glicemia e contribuir para a redução do peso. A tirzepatida, por exemplo, atua sobre os receptores de GLP-1 e GIP. O endocrinologista e metabologista Ricardo Barroso ressalta que a resposta varia conforme a substância e as características de cada paciente. Segundo ele, além da perda de peso, alguns pacientes apresentam melhora de parâmetros metabólicos, como glicemia, hemoglobina glicada, perfil lipídico e pressão arterial. A existência de resultados expressivos, porém, não significa que o medicamento deva ser encarado como uma solução isolada. "A suplementação nutricional pode ser necessária em alguns casos, mas não é regra: quando a alimentação está adequada, nem sempre há indicação", comenta. A questão central, na avaliação de Stephanie, está na função que a medicação passa a ocupar. Uma pessoa pode utilizar uma terapia baseada em GLP-1 por meses ou anos e continuar dentro de um tratamento adequado. O tempo de uso, isoladamente, não caracteriza dependência. A obesidade é uma doença crônica e multifatorial, explica a médica. Por isso, alguns pacientes podem precisar de acompanhamento farmacológico prolongado, assim como ocorre com outras doenças crônicas. O aumento do peso depois da interrupção de uma medicação também não significa, por si só, que exista vício. O cenário muda quando a caneta passa a ser percebida como a única maneira possível de controlar o corpo. "O problema começa quando a caneta deixa de ser uma ferramenta dentro de um projeto terapêutico e passa a ser vista como a única forma possível de controlar o peso", afirma Stephanie. O peso não é o único indicador Uma das situações que despertam atenção nos consultórios é quando todo o tratamento passa a ser avaliado pelo número mostrado na balança. A pessoa pode emagrecer, mas não necessariamente estar cuidando de outros aspectos relacionados à saúde. Alimentação, atividade física, sono, saúde mental e comportamento alimentar também fazem parte desse processo. A composição corporal é outro ponto considerado pelos especialistas, especialmente porque uma redução de peso pode vir acompanhada de perda de massa muscular. "Porque emagrecer não significa simplesmente pesar menos", pondera Stephanie. Para Ricardo, a atividade física tem papel importante nesse contexto. Exercícios de força, como musculação e pilates, podem contribuir para a preservação da massa muscular, enquanto atividades aeróbicas ajudam no condicionamento e na saúde cardiometabólica. A combinação das duas modalidades pode integrar o tratamento, de acordo com as condições de cada paciente. A alimentação também precisa ser observada. O uso do medicamento pode reduzir o apetite e, consequentemente, a quantidade de comida ingerida. Sem acompanhamento, porém, isso pode resultar em ingestão insuficiente de proteínas e outros nutrientes. Efeitos colaterais e acompanhamento Os efeitos adversos mais frequentes estão relacionados ao sistema gastrointestinal. Náusea, enjoo, sensação de saciedade precoce, azia, queimação e refluxo podem ocorrer, especialmente durante a adaptação ao medicamento. Barroso explica que a intensidade varia de acordo com a substância, a dose, as características individuais e a alimentação. Alguns pacientes também relatam falta de energia, principalmente nos primeiros dias após a aplicação. Por isso, a indicação e o acompanhamento médico continuam sendo importantes mesmo diante de resultados rápidos na balança. A automedicação, a alteração de doses por conta própria e o uso intermitente para emagrecer antes de férias, festas ou outros eventos são comportamentos que merecem atenção, segundo Stephanie. Ela cita ainda uma situação que pode se tornar um ciclo: a pessoa interrompe o tratamento, recupera parte do peso e volta a usar a medicação sem reavaliar os fatores que contribuíram para o ganho. "Cria-se, assim, um ciclo de emagrecer, interromper, recuperar peso e reiniciar medicamentos sem planejamento", alerta. Uso estético x indicação médica A distinção entre tratamento e uso exclusivamente estético ajuda a contextualizar a discussão levantada por Leandra. As canetas podem ter indicação para determinadas condições de saúde, mas isso não significa que sejam apropriadas para qualquer pessoa que queira perder alguns quilos. Na publicação em que esclareceu suas declarações, a atriz fez justamente essa separação: "As canetas emagrecedoras, que são um medicamento extremamente benéfico e eficaz no combate a uma doença brutal como a obesidade, elas estão sendo usadas para isso também. E é uma pena. Se as canetas tem indicação clínica, elas têm que ser utilizadas, sim. Agora, a gente tem uma tendência a usar medicamentos e atalhos para atingir padrões que nos aprisionam. Espero que tenha ficado claro." A preocupação dos especialistas não está, portanto, na existência de um tratamento farmacológico para a obesidade, mas na maneira como ele é incorporado à vida do paciente. Stephanie considera que a meta não deveria ser simplesmente deixar de usar a medicação, assim como também não faria sentido mantê-la indefinidamente sem avaliação. "O objetivo é controlar uma doença crônica utilizando as ferramentas necessárias para cada paciente e para cada momento de sua vida", defende. A duração do tratamento pode variar. Em alguns casos, segundo Barroso, é possível retirar a medicação gradualmente; em outros, o uso prolongado pode ser necessário. A decisão depende da evolução do quadro e deve ser tomada em acompanhamento de longo prazo. O que acontece quando o medicamento deixa de ser o centro A questão levantada pela repercussão da fala de Leandra acaba chegando a um ponto mais amplo: qual lugar o emagrecimento ocupa na relação de uma pessoa com o próprio corpo? Quando a preocupação com o peso passa a organizar escolhas, expectativas e comportamentos, o medicamento pode deixar de ser apenas uma ferramenta terapêutica. Stephanie chama atenção para situações como o medo intenso de recuperar qualquer quantidade de peso, a preocupação exagerada com o dia da aplicação e a tentativa de aumentar a dose sem orientação. Também pode haver uma inversão de lógica quando a pessoa passa a pensar que o medicamento permite manter os mesmos hábitos sem consequências. "Posso comer qualquer coisa porque estou usando a caneta", exemplifica a médica. O tratamento, na visão dos especialistas, não deveria funcionar dessa maneira. A medicação pode integrar uma estratégia mais ampla, que considere alimentação, movimento, sono, saúde mental, comportamento alimentar e outros fatores relacionados ao ganho de peso. No caso de pessoas que apresentam uma relação difícil com comida ou com a própria imagem corporal, o acompanhamento de profissionais de diferentes áreas também pode ser necessário. Médico, nutricionista, profissional de saúde mental e especialista em atividade física podem atuar de forma complementar. A pergunta, então, deixa de ser apenas quanto peso foi perdido. Passa a incluir o que aconteceu durante o processo e o que foi construído além da redução dos números na balança. A caneta pode ser uma parte importante desse percurso, mas, como resumiu Stephanie, "a caneta não deveria ser vilã, nem protagonista". 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