À medida que o uso das canetas emagrecedoras foi se popularizando no mundo, médicos começaram a investigar e buscar maneiras de combater um efeito colateral dessas drogas: a perda de massa magra. A literatura médica recente já avaliam diversas abordagens para contornar esse problema e até mesmo uma droga para ser tomada em combinação está sendo testada. Apesar de estudos relatarem perdas de massa magra que vão de 25% a 40%, não está claro ainda o quanto o efeito adverso a ser combatido é grave a ponto de comprometer o tratamento com remédios como a semaglutida e tirzepatida (conhecidas pelos nomes comerciais Ozempic e Mounjaro). Nem toda a massa magra é composta de músculo (água e tecido conjuntivo entram na composição), e há evidência de que uma perda de musculatura mais acentuada é mais associada a pessoas que consomem essas drogas sem prescrição adequada, um perfil que só existe fora dos testes clínicos. As recomendações de acompanhamento médico que costumam ser feitas para minimizar a perda de músculos, de todo modo, são em duas frentes: dieta e exercício físico. "A terapia nutricional deve assegurar a ingestão e absorção adequadas de proteínas de alta qualidade e micronutrientes, o que pode exigir o uso de suplementos nutricionais orais", afirma um dos estudos influentes sobre o tema, liderado por Jeffrey Mechanick, do Hospital Mount Sinai de Nova York. "Além disso, a prática concomitante de atividade física, especialmente o treinamento de resistência, tem demonstrado minimizar eficazmente a perda de massa e função muscular durante a terapia de redução de peso." Parte da comunidade de médicos acreditava que o incentivo para que pacientes façam mais atividade física é algo que viria naturalmente, mas um estudo preliminar sobre isso mostra que talvez esse efeito não se verifique. Uma pesquisa apresentada neste sábado no congresso anual da Sociedade Endócrina dos Estados Unidos, em Chicago, sinaliza que fora dos ambiente controlado de pesquisa isso não está acontecendo "Neste grupo de pacientes acompanhados mo mundo real, o início da terapia com agonistas do receptor de GLP-1 em pacientes com obesidade levou a uma diminuição significativa no número de passos diários e na atividade física moderada a vigorosa, sendo que os homens e aqueles com dor musculoesquelética apresentaram as maiores reduções", escreveu a pesquisadora Sajana Maharjan, do Hospital St. John de Illinois, que apresentou o trabalho no encontro. "Esses achados sugerem que a perda de peso isoladamente pode não promover a prática de exercício, destacando a necessidade de intervenções direcionadas que incentivem a atividade física." Com a aparente dificuldade em se combater o problema na frente comportamental, pesquisadores organizaram um teste clínico para verificar se o apitegromab, uma droga já usada para combater perda de musculatura em outros pacientes, poderia ajudar aqueles sob terapia de GLP-1 preservarem a massa magra. Essa droga, que funciona por meio do bloqueio da miostatina, uma proteína que inibe o crescimento muscular, foi testada num ensaio clínico de fase 2 relativamente pequeno. Entre 102 pessoas que estavam sob tratamento com tirzepatida, um grupo recebeu o apitegromab, outro recebeu placebo. "Após 24 semanas, o apitegromab resultou em uma média de 1,9 kg a menos de perda de massa magra em comparação com o placebo, apesar da perda de peso corporal total semelhante entre os grupos, representando uma retenção de 54,9% de massa magra em relação ao placebo", relata Richard Pratley, do Instituto de Pesquisa Translacional AdventHealth, da Flórida, que publicou estudo sobre o ensaio na revista Nature Medicine nesta semana. O resultado do trabalho, de toda forma, não é uma garantia que a droga vai ser aprovada para indicação (isso requer passar por uma fase 3 num ensaio com mais voluntários). Enquanto essa opção não está disponível para pacientes, cientistas buscam explorar tratamentos não farmacológicos. Um grupo de cientistas da Universidade San Rafaelle de Roma publicou recentemente uma revisão de estudos sobre o efeito de suplementação de amino-ácidos para pessoas que não conseguem recuperar a massa magra perdida com canetas emagrecedoras. "Evidências sugerem que a suplementação com aminoácidos essenciais e peptídeos pode ajudar a preservar a massa magra durante períodos de ingestão energética reduzida, principalmente quando a ingestão de proteínas provenientes de alimentos integrais é limitada", escreveram os cientistas, liderados pelo médico Daniele Cannavaro. "Os benefícios parecem ser mais consistentes quando a suplementação é combinada com exercícios de resistência." Para o endocrinologista Alexandre Hohl, professor da Universidade Federal de Santa Catarina, o debate que existe no meio médico sobre a perda de massa magra com drogas da classe GLP-1 precisa ter a cautela de não demonizar essas drogas, que se mostraram um divisor de águas no tratamento das pessoas que são clinicamente obesas. — Há 10 anos, alguns pacientes chegavam chorando no nosso consultório e não tinha nada para fazer. Agora temos— diz. — A obesidade é uma doença crônica recidivante que mata, inclusive pela associação com câncer e uma série de outras doenças. Hohl conta que no Congresso Americano de Diabetes, uma das conferências exibiu uma pesquisa sobre se a perda muscular decorrente das canetas emagrecedoras estaria associada à perda de mobilidade das pessoas. As evidências, porém, mostraram que não. — A polêmica recente que envolveu a criação das expressões 'Ozempic face' e 'Ozempic butt' (cara de Ozempic e bumbum de Ozempic) está associada a situações extremas, onde não não foi feito o uso adequado do medicamento — diz o médico. Hohl afirma que é preciso entender que há dois tipos de cenário no mundo real: aqueles para os quais a droga é usada e é indicada em bula e aqueles em que há uso inadequado, incluindo pessoas que não são clinicamente acima do peso. — O que percebemos são casos e mais casos de pessoas que nitidamente estão com transtornos alimentares, com magreza, e claramente uma perda de massa magra e massa gorda de maneira exagerada — afirma. — Para os casos clínicos, na prática a gente está conseguindo mitigar o problema da perda de massa magra antes de chegar à necessidade de receitar remédios, como talvez seja possível no futuro com o apitegromab