Especialistas explicam por que emagrecer pode trazer benefícios, mas não significa tratar a causa da condição 0.5x 1x 1.25x 1.5x 2x 00:00 00:00 Lipedema: canetas emagrecedoras não tratam a doença, mas ajudam a reduzir complicações — Foto: Imagem criada por IA Nos últimos meses, as chamadas canetas de emagrecimento passaram a ocupar um espaço frequente nas conversas sobre corpo, saúde e estética. O assunto ganhou ainda mais visibilidade nas redes sociais, entre celebridades e influenciadoras que compartilharam suas experiências com medicamentos como Ozempic, Mounjaro e Wegovy. Com a popularização desses tratamentos, também surgiram dúvidas entre mulheres com lipedema, condição que provoca o acúmulo desproporcional de gordura em regiões como pernas e, em alguns casos, braços: afinal, essas medicações também podem atuar sobre a doença? A resposta, segundo especialistas, ainda exige cautela. O lipedema não é simplesmente um excesso de gordura relacionado ao ganho de peso, mas uma alteração crônica do tecido adiposo que pode envolver dor, sensibilidade, inchaço e mudanças no contorno corporal. Por isso, emagrecer nem sempre significa reduzir as áreas afetadas. "Embora pessoas com lipedema também possam apresentar obesidade, perder peso nem sempre reduz de forma significativa o tecido acometido pela doença, o que explica por que algumas pacientes continuam com dor e desproporção corporal mesmo após emagrecer", explica a endocrinologista Deborah Beranger. Segundo a médica nutróloga Marcella Garcez, os estudos disponíveis mostram que medicamentos como semaglutida e tirzepatida são eficazes no controle da obesidade, mas ainda não comprovam uma ação específica sobre o tecido característico do lipedema. "As evidências disponíveis mostram que semaglutida e tirzepatida são altamente eficazes no tratamento da obesidade, promovendo redução significativa do peso corporal. Entretanto, não existem estudos robustos demonstrando que essas medicações eliminem seletivamente a gordura característica do lipedema ou modifiquem sua fisiopatologia", afirma. O que as canetas podem fazer no lipedema? A relação entre esses medicamentos e a condição ainda está sendo estudada. De acordo com a cirurgiã plástica Heloise Manfim, é importante diferenciar a perda de gordura associada à obesidade daquela afetada pelo lipedema. "As canetas vão atuar principalmente na perda de peso, reduzindo gordura relacionada à obesidade e também gordura visceral. A gordura do lipedema costuma ter um comportamento bem diferente; até o momento, a gente não tem nenhuma evidência tão clara de que ela vai ser eliminada pelas canetas", explica. Entre os medicamentos, a tirzepatida tem despertado interesse de pesquisadores por apresentar uma ação diferente. Enquanto alguns remédios atuam sobre o hormônio GLP-1, ela combina mecanismos relacionados ao GLP-1 e ao GIP, o que pode gerar efeitos além da perda de peso. Segundo o cirurgião plástico Rafael Erthal, especialista em lipedema, estudos iniciais levantam a possibilidade de que a substância tenha efeitos anti-inflamatórios e antifibróticos, aspectos que despertam atenção porque inflamação e fibrose estão entre as características da doença. "O que existe hoje são hipóteses e observações que precisam ser confirmadas. Ainda não temos estudos feitos diretamente com pacientes de lipedema que comprovem uma ação da tirzepatida sobre a doença", esclarece. Apesar das limitações, a perda de peso pode trazer benefícios indiretos para algumas pacientes. A redução da sobrecarga nas articulações, a melhora da mobilidade e o controle de alterações metabólicas associadas ao excesso de peso podem contribuir para uma melhor qualidade de vida. "Perder de 10% a 20% do peso alivia a sobrecarga sobre joelhos e quadris, melhora a mobilidade e ajuda no controle de problemas metabólicos, como pré-diabetes e pressão alta. Então, mesmo que a doença em si não desapareça, a qualidade de vida costuma melhorar", diz Rafael. Por isso, o acompanhamento precisa considerar cada caso individualmente. A endocrinologista Deborah destaca que o cuidado com o lipedema costuma envolver diferentes estratégias, como mudanças no estilo de vida, terapias conservadoras e, em situações específicas, procedimentos cirúrgicos. Canetas de emagrecimento e cirurgia para lipedema Quando a cirurgia redutora do lipedema é indicada, o controle do peso antes do procedimento costuma ser um dos pontos avaliados pelos especialistas. A técnica, uma lipoaspiração específica para remoção do tecido afetado, tende a ser planejada quando o corpo está mais estável. "Operar enquanto a paciente ainda está emagrecendo é como mirar em alvo móvel, porque o corpo ainda está mudando de forma. Isso pode atrapalhar o planejamento e a simetria", observa Rafael. O uso das medicações também precisa ser informado à equipe médica antes de qualquer procedimento. Isso acontece porque os medicamentos podem retardar o esvaziamento do estômago, aumentando alguns riscos durante a anestesia, além de provocar sintomas como náuseas e vômitos. "As medicações podem dificultar uma boa hidratação antes da cirurgia. Por isso, todo esse planejamento é importante para garantir um procedimento seguro", enfatiza Heloise. No período após a cirurgia, a retomada do medicamento deve ser avaliada pelo médico responsável, considerando fatores como recuperação, alimentação, hidratação e funcionamento gastrointestinal. Para os especialistas, o principal ponto é evitar a ideia de que existe uma única solução para o lipedema. A condição exige uma abordagem ampla, que pode envolver alimentação equilibrada, atividade física, fortalecimento muscular, acompanhamento médico e, quando necessário, cirurgia. "O maior erro é acreditar que existe uma solução única para o lipedema. É uma doença que precisa ser tratada em várias frentes ao mesmo tempo", conclui Heloise.