Gerando resumoFoto: Taba Benedicto/EstadãoFernando Simõespresidente da SimparA holding Simpar atingiu um porte de R$ 48,1 bilhões de receita em 2025, o que a torna o maior grupo de logística do Brasil, dona de empresas como a JSL (a antiga Transportadora Julio Simões), a Movida, a Vamos e a Automob. À frente dos negócios desde a década de 1990, o empresário Fernando Simões afirma que não teme passar por períodos de forte expansão, financiada por meio de crédito, seguidos por momentos de vendas de ativos, mesmo quando esses movimentos acontecem em época de juros altos como a atual. Leia outro trecho da entrevista‘Meu pai tratava quem pedia concordata como bandido’, conta Fernando Simões, do grupo SimparSe diversos setores da economia brasileira, em especial os de varejo, agronegócio e mesmo o de transportes, sofrem com um alto grau de endividamento e estão repletos de empresas entrando ou buscando fugir de processos de recuperação judicial, a holding tem seguido o seu caminho, tendo promovido muitas vendas de ativos. Mais do que isso, Simões considera isso natural da atividade, e não um sinal de preocupação com o endividamento. “Faz parte do nosso negócio comprar e vender bem ativos”, afirma.De fato, a Simpar vem avançando nesse processo. Em julho, vendeu a CS Porto Aratu, um dos ativos portuários do grupo. Já a JSL negociou R$ 92 milhões em ativos no segundo trimestre. Com ações como essas e com um aumento de R$ 6,9 bilhões na estrutura de capital do grupo no último ano, o nível de endividamento da Simpar caiu, na metade de 2026, para o menor patamar desde a sua abertura de capital, em 2010. A relação entre a dívida líquida e o lucro antes de juros, impostos, depreciações e amortizações (Ebitda, na sigla em inglês) chegou a 2,8 vezes, frente às 3,6 vezes do fim do segundo trimestre de 2025.Simões conversou com o Estadão sobre o processo de venda de ativos e o momento da economia. Leia os principais trechos.PublicidadeLeia tambémÉ impossível reverter a estagnação sem uma revisão das políticas públicas, caminho para baixar jurosEra do juro baixo global acabou e País terá desafio para atrair capital, diz economista do SantanderO grupo Simpar está num momento de venda de ativos. Até que ponto vai a desalavancagem?Se você pegar a nossa história e ver os últimos 16 anos da empresa, desde que está listada na bolsa, vai perceber que temos como característica fazer um crescimento durante um período. Depois, ficamos um ou dois anos crescendo menos e digerindo a expansão. O nosso negócio é um pouco diferente dos outros. Quando você está construindo um prédio, você já está vendendo. Então, se financia com o próprio ativo. No setor de serviços de transportes, você faz a compra do ativo, mas a receita começa a aparecer depois de três a cinco meses. Então, se mantiver um crescimento durante cinco anos, talvez se perca na execução. Por outro lado, se você não aproveitar as oportunidades, também vai perder. Então, essa questão de fazer investimento e, depois, vendas de ativos, não significa perder oportunidade, mas usufruir do que foi feito. Isso o grupo sempre fez.Já houve momentos que trouxeram mais preocupação do que o atual?Por volta de 2015 e 2016, a nossa alavancagem era muito maior do que hoje. Chegou a mais de cinco vezes (a dívida em relação ao Ebitda). E isso aconteceu num momento de juros altos e com um monte de empresas machucadas, direta ou indiretamente, pela Operação Lava Jato. E nós estávamos em construção. A Movida tinha acabado de ser comprada e tinha de ganhar escala. A Vamos estava nascendo.O momento da economia e do setor hoje não é parecido com o daquela época?Hoje existe muito mais uma tensão do mercado, porque o juro real está uma loucura. Por isso, alguns grupos sofrem com isso. Lá por volta de 2015, nós chegamos a ter até 1,2 mil ônibus operando, de transporte intermunicipal e urbano. E decidimos sair disso. Já o negócio de concessionárias era muito menor. Então, essa gestão dos ativos foi uma escolha. Faz parte do nosso planejamento, passo a passo, e de uma lógica de negócios. Além disso, existe uma consolidação de setores. Por exemplo, o nosso desinvestimento do centro de tratamento de resíduos no Rio foi uma oportunidade de vender para quem já está no Rio de Janeiro trabalhando com água e esgoto (a Ciclus Ambiental foi vendida para a Aegea, em 2025, por R$ 1,9 bilhão). Tem uma lógica empresarial. A saída de algumas operações faz parte. O desinvestimento foi a consequência de um plano. São movimentos pontuais que contribuem para a desalavancagem, mas não estamos desinvestindo porque estamos precisando reduzir a dívida.PublicidadeFernando Simões, CEO da SIMPAR Foto: Taba Benedicto/EstadãoA empresa sempre trabalhou com dinheiro de terceiros, via crédito?Sempre foi da natureza desse negócio, da nossa empresa. Mas a gente não se alavanca para fazer um negócio que eu não sei se vai dar certo. A gente se alavanca porque temos a certeza de que faz sentido. E o nosso ativo é de alta liquidez e faz parte de um ecossistema que está dentro da vida real. É preciso, primeiramente, comprar bem o ativo que você vai precisar e vender bem depois. Então, a nossa alavancagem sempre foi planejada, desde que a gente faz o investimento.O sr. se sente confortável, então, com o nível atual de endividamento da empresa?Eu sempre estive confortável e satisfeito com a nossa estrutura de capital, em todos os momentos. Fez parte do crescimento e nós sabemos onde o nosso dinheiro está investido. Eu sei que a receita vem, que nós cuidamos das empresas dentro da nossa governança com muita eficiência, sabemos da qualidade e do preço que a gente paga pelos nossos ativos.E como vê o momento da economia e os juros permanecendo altos por tanto tempo?Eu brinco que os juros são um negócio sobre o qual a gente não tem controle. A gente torce para ter condições de esse juro ser baixado. Não sou economista, nem estudei (Fernando chegou na empresa com 14 anos). Os economistas dizem, com razão, que os juros estão ligados à inflação e ao consumo. Mas acho que não podemos matar o consumo para ter um juro mais baixo. A qualidade de vida das pessoas tem de melhorar. A remuneração das pessoas, de uma forma geral, tem melhorado nos últimos anos. PublicidadePUBLICIDADEEntão, o sr. não defende a manutenção dos juros altos por tanto tempo?Existem ainda outros temperos nisso que não estão sendo considerados. Se a gente for ver no pós-pandemia, houve uma explosão de serviços de carros por aplicativos, do delivery e do Airbnb. Existe uma renda extra para as pessoas que contribuem com o consumo. Então, muitas vezes, não vai ser só o juro alto que vai trazer uma redução da inflação. De qualquer forma, a gente realiza todo o nosso trabalho para fazer frente aos juros, seja qual for. Na hora certa, o juro vai ter o equilíbrio certo. Acho que está descompensado. Mas somos felizes da vida como pagadores de juros. Como empresários, temos de fazer o que for necessário para pagar os juros e ainda obter retorno para a gente. É o que temos feito.Vale ler tambémPor que a alta renda não está compensando a isenção do IR para quem ganha até R$ 5 mil?GFS amplia capacidade com fábrica de R$ 55 miNão há um programa de proteção de seguros a serviço das classes C e D, as menos favorecidas