Um corvo que resolve um quebra-cabeça de oito etapas se equipara a uma criança de 5 anos no discurso dos especialistas, que hoje definem inteligência pelo escore, não mais pelo que dizem os filósofos. Por esse critério, há dois anos a IA era inferior a nós; há um, superdotada; hoje está no topo da humanidade. Fim.

A questão é que o teste de QI possui cenário fixo, como o dos benchmarks que a máquina gabarita toda semana, enquanto o mistério real é o que a faz resolver cada vez melhor o que não tem gabarito, do dilema afetivo gravado num áudio cheio de erros à conjectura matemática que resistiu a um século de tentativas.

Isso não ocorre pela via da lógica e da regularidade na aplicação de regras, que em humanos estão associadas aos QIs mais elevados. Nessas coisas, a IA perde para calculadoras científicas e programas de xadrez da década de 1990.

A minha tese é que dois fatores explicam boa parte do efeito. O primeiro é a identificação e a conservação de objetivos.

A cada versão, a IA segue melhor a linha invisível que liga as partes de um diálogo e dali vai extraindo o que mais importa, que passa a guiar a conversa. Isso ocorre porque os modelos atuais criam verdadeiras geometrias das conversas, que usam para enxergar o objetivo latente mesmo quando o usuário não o vê, tal como o psicanalista que diz enxergar na linguagem o inconsciente.