Atendimento é multidisciplinar, e encaminhamentos são realizados pela rede de atenção primária à saúde 0.5x 1x 1.25x 1.5x 2x 00:00 00:00 Michelle Silva, paciente da Clínica da Dor, durante procedimento de estimulação magnética transcraniana — Foto: Laura Alexandre Pacientes que convivem com cefaleia, fibromialgia, reumatismo, artrite reumatoide e problemas na coluna lombar, entre outros quadros de dor crônica, podem receber tratamento gratuito no Hospital Universitário Pedro Ernesto (Hupe), da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj), em Vila Isabel. O atendimento é realizado pela Clínica da Dor, a partir de encaminhamento da atenção primária à saúde, e reúne uma equipe multidisciplinar para tratar uma condição que, segundo o médico e professor Nivaldo Ribeiro Villela, coordenador da clínica, atinge cerca de 35% da população adulta brasileira. Considerada crônica quando persiste por mais de três meses, a dor é tratada no serviço a partir de uma combinação de diferentes abordagens. O acompanhamento pode incluir medicamentos, procedimentos intervencionistas, psicologia, fisioterapia, atividade física e técnicas de autogerenciamento. A proposta é atuar não apenas sobre a sensação física, mas também sobre os impactos emocionais e cognitivos provocados pela condição. A Clínica da Dor disponibiliza cem vagas mensais para novos pacientes e, entre janeiro e junho deste ano, recebeu 390 pessoas para a primeira consulta. Os pacientes chegam ao serviço por meio do sistema de regulação, após encaminhamento pelas Unidades Básicas de Saúde, pelas Clínicas da Família ou pelos Centros Municipais de Saúde. Os agendamentos são feitos pelo Sistema Nacional de Regulação (Sisreg) e também pelo Sistema Estadual de Regulação (SER). — A dor crônica tem três dimensões. Uma é afetiva, outra é cognitiva e outra é sensitiva — explica Villela, médico, professor associado de Neurocirurgia e Dor da Uerj. A dimensão sensitiva está relacionada à sensação física da dor. Já a afetiva envolve alterações emocionais, como ansiedade e depressão, enquanto a cognitiva diz respeito à forma como o paciente interpreta a dor e organiza seu comportamento a partir dela. Pacientes da Clínica da Dor durante aula de educação física na Uerj — Foto: Laura Alexandre Segundo Villela, não há necessariamente relação direta entre a intensidade da dor e a gravidade de uma lesão. Em alguns casos, o medo de novas crises leva o paciente a reduzir atividades, evitar exercícios e se afastar do convívio social e do trabalho, o que ocasionalmente pode acabar piorando o quadro. A saúde mental também preocupa. O médico informa que em estudo realizado pela equipe com cerca de dois mil pacientes da atenção primária com dor não controlada, aproximadamente metade apresentava sintomas graves de depressão. Essa é uma realidade conhecida por Michelle Moreira da Silva, de 41 anos, paciente da clínica. Ela sempre teve episódios de dor de cabeça, mas em 2016 o quadro se tornou crônico. As crises, antes esporádicas, passaram a ocorrer cerca de três vezes por semana, até se tornarem diárias. — Eu vivia a minha rotina normalmente, mas me sentia sempre muito cansada. Era um peso. Qualquer coisa que eu tinha que fazer no meu dia ficava mais pesada. Eu me arrastava — conta a paciente. Mesmo com a dor, Michelle continuava trabalhando e realizando suas atividades cotidianas, mas tudo exigia mais esforço. A paciente também convive com ansiedade e já passou por dois episódios de depressão. Por isso, atualmente, além do acompanhamento na Clínica da Dor, faz terapia, pratica atividade física e mantém uma rotina de meditação. Hoje, 18 profissionais atuam de forma integrada na clínica: oito médicos especialistas em dor, duas psicólogas, um psiquiatra, uma enfermeira, dois técnicos de enfermagem, dois fisioterapeutas e dois educadores físicos. Quando chega ao ambulatório, o paciente passa pela equipe de enfermagem e responde a questionários que avaliam aspectos como incapacidade, ansiedade e depressão. Depois, os médicos definem o tratamento de acordo com cada caso. O centro conta com estrutura para procedimentos como infiltrações e bloqueios, além de infusão de medicamentos e estimulação magnética transcraniana. Michelle passou por sessões da técnica e diz ter percebido melhora principalmente na intensidade da dor. Antes, chegava a utilizar cerca de 20 doses mensais de uma medicação para controlar as crises de cefaleia. — Hoje, quando a crise começa, não necessariamente preciso tomar um remédio. Eu usava esse medicamento umas 20 vezes no mês. Agora, tomo no máximo cinco — afirma. O fisioterapeuta Flávio Flutt, responsável por realizar o procedimento, explica que a estimulação magnética transcraniana utiliza uma bobina para produzir um campo magnético e estimular regiões específicas do cérebro. O recurso pode ajudar principalmente pacientes cuja intensidade da dor dificulta a adesão a outras etapas do tratamento. Michelle Silva, paciente da Clínica da Dor, durante procedimento de estimulação magnética transcraniana — Foto: Laura Alexandre — A gente usa justamente naquelas pessoas que têm aquela dor nível 10, que não conseguem nem entrar num programa de atividade física. A pessoa desce de 10 para 8, 7 ou 6, e isso permite que consiga ter melhora nos outros tratamentos — diz. Outra etapa oferecida pela Clínica da Dor é o grupo de autogerenciamento. Durante sete semanas, os pacientes participam de encontros conduzidos por profissionais de psicologia, fisioterapia e educação física. As turmas têm até dez participantes. A psicóloga Fernanda Pereira, professora da Faculdade de Medicina da Uerj e integrante da clínica, explica que a proposta é romper com a lógica fragmentada em que o paciente procura cada profissional separadamente. — Geralmente, os pacientes buscam o médico, depois procuram o fisioterapeuta, o psicólogo, o psiquiatra. Aqui, atuamos juntos — afirma. Nos encontros, são trabalhadas técnicas baseadas em terapia cognitivo-comportamental, exercícios físicos, relaxamento muscular, controle da ansiedade, higiene do sono e retomada de atividades prazerosas. Parte do trabalho também consiste em ajudar o paciente a compreender a própria condição. Pacientes durante roda de conversa com a psicóloga Fernanda Pereira (de pé, à esquerda) — Foto: Laura Alexandre Fatores emocionais, no entanto, podem influenciar a experiência da dor. Estresse, ansiedade e isolamento social são abordados durante o tratamento. A atividade física também é retomada gradualmente. O grupo incentiva ainda a retomada de atividades prazerosas e trabalha habilidades como pedir ajuda, estabelecer limites e comunicar as próprias necessidades. O objetivo é fazer com que, depois das sete semanas, o paciente consiga aplicar sozinho as estratégias aprendidas. — Ele aprende estratégias que possa e deva treinar no seu dia a dia para que não fique, por exemplo, dependendo de um fisioterapeuta para sempre. A gente oferece estratégias que sejam viáveis dentro do contexto de vida desses pacientes — afirma Fernanda. Ao fim do programa, os questionários aplicados inicialmente são repetidos, e o paciente retorna ao ambulatório. O médico pode rever a medicação, ajustar doses ou indicar novas estratégias antes de encaminhá-lo novamente à atenção primária. O atual modelo multidisciplinar da Clínica da Dor da Uerj começou a ser estruturado em 2019. O projeto ganhou esse formato após articulação entre a universidade, o Hupe e a Secretaria de Estado de Saúde. Desde então, mais de cinco mil pacientes já passaram pelo modelo de atendimento. Para o coordenador da clínica, a proposta não é manter os pacientes indefinidamente no hospital, mas oferecer atendimento especializado, ajudar a estabilizar o quadro e permitir que o acompanhamento tenha continuidade na rede básica. No caso da paciente Michelle, a dor ainda faz parte da rotina, mas já não tem o mesmo impacto de antes. — Tenho uma dor que afeta, mas não incapacita as minhas atividades — resume ela.