Dois homens dançam com dois pianos. Um deles gira um dos instrumentos enquanto o outro caminha plantando bananeira sobre a sua tampa. O primeiro martela o corpo do piano; o outro pula entre os instrumentos. As marteladas se sucedem, cada vez mais fortes, assim como os pulos frenéticos sobre as teclas amareladas de um velho Yamaha.

Essa é uma das cenas de "Urutau", performance concebida pelo multiartista Novíssimo Edgar e pelo encenador Wagner Antônio. Ela é apresentada no Instituto Capobianco, no centro de São Paulo, até o final deste mês.

O espetáculo começa com Máximo Wassu, indígena da etnia wassu-cocal, realizando um toré, uma dança típica, enquanto toca o maracá, espécie de chocalho. "Eduardo Viveiros de Castro diz que esse instrumento é como um acelerador de partículas. Faz sentido na performance, porque é esse momento inicial que vai reorganizar vários elementos aparentemente distintos", diz Edgar.

Ao longo de "Urutau", é difícil saber se o que se vê é um ritual xamânico, uma apresentação de dança, um show de rock ou uma roda de rap. Há ainda uma união de temas que, embora pareçam desconexos a princípio, vão ganhando sentido no contexto geral.

"As cenas se costuram por tratarem de temas geopolíticos e dessa tensão atual. Esse espetáculo só conseguiria ser pensado no Brasil, com o tempero que faz tudo ter sentido", afirma Edgar.A iluminação, uma espécie de cola entre as cenas, é central na performance. "O processo de luz extravasa a ideia de iluminação convencional, porque se trata de uma instalação", afirma Antônio.