Ney Matogrosso parece estar em transe. Os olhos miram fixamente o chão, onde flutua uma fumaça que empresta ares ritualísticos ao cenário. Os braços estão abertos em um movimento teatral e convulsivo, como se ele fosse o personagem de uma pintura de Caravaggio.

A exemplo das criações do mestre barroco, o artista personifica nessa imagem a luz e a sombra, o espanto e a beleza, o sagrado e o profano. Na fotografia de Madalena Schwartz, Ney Matogrosso é um corpo em ebulição.

Essa corporalidade incendiária e contraditória é tema agora de uma exposição no instituto cultural Solar, no centro do Rio de Janeiro. Intitulada "Prefiro Ser", a mostra reúne vídeos, pinturas, fotografias e esculturas para marcar os 85 anos do cantor, um dos nomes mais celebrados do cancioneiro nacional.

Ney despontou na cena musical nos anos 1970 com o grupo Secos e Molhados, grupo que ele formou ao lado de João Ricardo e Gérson Conrad.

O trio criou uma parceria tão efêmera quanto fulgurante, empilhando sucessos como "Fala", "O Vira" e "Sangue Latino" entre 1973 e 1974. Eles se notabilizaram também por fazer apresentações com o rosto pintado e trajando roupas insinuantes em plena ditadura militar.