O presidente Luiz Inácio Lula da Silva fez ontem um comentário importante, ao qual talvez não tenha sido dada a devida importância. O presidente disse, de acordo com reportagem de Gabriel de Sousa e Gabriel Hirabahasi, do Broadcast, que políticas públicas voltadas aos pobres têm um alto custo orçamentário.PUBLICIDADEPode parecer uma obviedade, mas vindo do presidente e candidato à reeleição que mais do que ninguém implantou e ampliou esses programas, a fala ganha relevante significado político.Segundo Lula, "parece uma coisa fácil, mas é muito difícil resolver esses problemas que atingem as pessoas mais pobres. Tem um problema sério. O pobre custa, individualmente, muito barato. Mas, como eles são muitos, fica muito caro".A declaração, na linguagem simples e direta que é a mais poderosa arma política de Lula, traça de forma clara uma parte do diagnóstico do nó econômico que, nas últimas décadas, travou o crescimento econômico brasileiro.A montagem de uma ampla e cara rede previdenciária e assistencial, para "resolver o problema do pobre", foi iniciada timidamente no governo FHC e estendida e turbinada em governos petistas.PublicidadeAs principais e mais emblemáticas políticas voltadas aos pobres são a elevação do valor real do piso previdenciário e do BPC (benefício a idosos e deficientes pobres, de um salário mínimo mensal) e a ampliação do número de beneficiários e o aumento para pouco mais de R$ 600 do Bolsa-Família.O grande problema é que essas políticas - caras, porque os pobres "são muitos" - têm que conviver com a sangria de recursos orçamentários para as mãos de ricos representados por fortes grupos de pressão, numa lista que vai de subsídios a empresas a penduricalhos do Judiciário.O resultado é que o Brasil atravessa quase todo o período da redemocratização com uma fragilidade fiscal estrutural crônica, com alguns interregnos de equilíbrio na esteira de booms de commodities e descobertas de petróleo. O descontrole das contas públicas é o principal fator das sucessivas crises econômicas que transformam qualquer aceleração do crescimento em voos de galinha.Em sua vitoriosa trajetória política, Lula sempre explorou a dicotomia entre ricos e pobres. Seus governos "colocaram o pobre no orçamento", mas o fato é que fizeram pouco para desmamar os ricos - em parte porque é muito difícil mesmo derrotar os grupos de pressão numa democracia jovem sem tradição de defesa do interesse difuso.É justo reconhecer que, neste terceiro mandato, Fernando Haddad conseguiu fechar algumas torneiras de isenções de impostos injustificáveis para ricos e empresas. É meritório, mas ainda é pouco diante do caminhão de vantagens à custa do Erário desfrutadas pelos bem conectados do setor público e privado.PublicidadeQuando Lula diz que colocar o pobre no orçamento é caro, ele finalmente reconhece a existência da restrição orçamentária, o pilar essencial que separa a socialdemocracia do populismo de esquerda.Trata-se, é claro, apenas de uma declaração, e o presidente é conhecido por ser volúvel. De qualquer forma, é uma ideia que combina com o "road-show" de promessas de contenção fiscal - com insuficiência de dados concretos, é importante ressalvar - que o ministro da Fazenda, Dario Durigan, vem fazendo junto ao mercado financeiro e a luminares do pensamento liberal.Fernando Dantas é colunista do Broadcast e escreve às terças, quartas e sextas-feiras (fojdantas@gmail.com)Esta coluna foi publicada pelo Broadcast em 21/8/2026, sexta-feira.Vale ler tambémA despesa de seguro-desemprego deveria ter caído, mas saltou 188% em termos reais entre 2003 e 2014Bancos privados estudam entrar em financiamentos no Minha Casa, Minha VidaSicredi supera R$ 500 bi em ativos e se consolida entre maiores bancos