Montadoras japonesas estão em uma corrida para desenvolver veículos autônomos impulsionados por inteligência artificial (IA), estabelecendo parcerias com startups e outras empresas na tentativa de alcançar as líderes dos Estados Unidos e da China. No Centro Técnico da Nissan, na província de Kanagawa, o desenvolvimento da tecnologia de direção autônoma planejada para a minivan Elgrand, com lançamento previsto para o ano fiscal de 2027, avança em ritmo acelerado. O veículo utilizará tecnologia de direção autônoma de ponta a ponta (E2E), o que significa que a IA cuidará de tudo, desde a avaliação do ambiente ao redor até a tomada de decisões de condução e a operação do automóvel. Até agora, a maioria dos veículos autônomos dependia de sistemas baseados em regras programadas por engenheiros, com diretrizes de trânsito predefinidas, como "parar no sinal vermelho" ou "não cruzar a faixa divisória da pista". Em contrapartida, os sistemas E2E utilizam IA treinada com vastas quantidades de dados coletados por sensores embarcados para controlar a condução, conferindo-lhes maior capacidade de lidar com ambientes de tráfego complexos. Startups dos Estados Unidos e da China lideram o desenvolvimento de sistemas E2E. A Tesla comercializou a tecnologia em 2023, e montadoras chinesas como Xpeng e Li Auto seguiram o exemplo pouco depois. Com o aprimoramento da IA, a concorrência concentrou-se em sistemas de "Nível 2++", capazes de levar o veículo ao destino trafegando tanto em rodovias quanto em vias urbanas comuns. A Tesla, que ganhou destaque global com seu serviço de transporte autônomo por aplicativo, desenvolve tecnologias-chave internamente, incluindo seu modelo de IA E2E e o próprio aplicativo de transporte. As montadoras chinesas — muitas das quais ingressaram na indústria automotiva vindas do setor de smartphones — também estão aproveitando sua expertise em software para desenvolver veículos. As empresas japonesas, que estão atrás de suas rivais estrangeiras, tentam reduzir essa diferença abandonando a preferência pelo desenvolvimento interno e estabelecendo uma série de parcerias com startups de IA e outras companhias. A Nissan tem sido a mais agressiva nessa estratégia. Além de colaborar com a startup britânica de direção autônoma Wayve Technologies, ela firmou parcerias com a Uber Technologies para aplicativos de transporte e com a Nvidia para chips automotivos. Em setembro do ano passado, um Nissan Ariya circulou com sucesso pelas ruas movimentadas do centro de Tóquio. "Tecnicamente, chegamos a um ponto em que uma máquina pode dirigir praticamente em qualquer lugar", afirmou Takashi Yoshizawa, executivo da Nissan responsável por tecnologias avançadas. Ainda este ano, a Nissan planeja iniciar testes de robotáxis em vias públicas, em parceria com uma operadora de táxis local. O executivo-chefe (CEO) da Nissan, Ivan Espinosa, afirmou que a condução autônoma pode, por si só, tornar-se uma “commodity”. A médio e longo prazo, a Nissan planeja introduzir a tecnologia E2E também em veículos de menor custo, elevando a participação de veículos autônomos para 90% de todos os novos modelos. A Honda planeja equipar a próxima geração do modelo híbrido Vezel, com lançamento previsto para 2028, com a tecnologia E2E desenvolvida em conjunto com a startup norte-americana Helm.ai. A Astemo, importante fornecedora de peças do grupo Honda, também está focada no desenvolvimento da tecnologia E2E em parceria com a Hitachi, uma de suas investidoras. As empresas podem combinar unidades de controle eletrônico — o "cérebro" do veículo — e realizar verificações operacionais em ambientes virtuais. No início deste mês, a Astemo também firmou parceria com a desenvolvedora de “software” para condução autônoma Tier IV, que conta com o apoio da Toyota e da Sony. A lenta adoção da condução autônoma no Japão tem sido frequentemente atribuída ao atraso na legislação, a conflitos de interesse com setores como o de táxis e a preocupações com segurança e aceitação pública. No entanto, à medida que a tecnologia E2E — descrita pelo presidente da Honda, Toshihiro Mibe, como um divisor de águas para a indústria automotiva — se expande globalmente, a postura de reguladores e consumidores começa a mudar. Em janeiro, o governo aprovou um plano para colocar 10 mil veículos autônomos em operação até o ano fiscal de 2030. Percebendo essa mudança, empresas estrangeiras estão entrando no mercado japonês. A Tesla planeja introduzir, ainda este ano, uma função de condução sem as mãos (“hands-free”) utilizando a tecnologia E2E em vias comuns no Japão. O sistema já está disponível em veículos vendidos nos Estados Unidos e na China. Nos veículos mais recentes, a condução autônoma e outros recursos podem ser adicionados posteriormente por meio de atualizações de software. Uma vez estabelecido um marco regulatório no Japão, a tecnologia poderá ser implementada em veículos que já estão em circulação, acelerando significativamente a adoção. A gigante alemã de autopeças Bosch iniciou testes em vias públicas em Yokohama, em maio, utilizando um sistema E2E desenvolvido em conjunto com a chinesa WeRide — sistema que já é empregado em veículos produzidos em massa para o mercado chinês. Enquanto as montadoras japonesas ganham tempo ao firmar parcerias com startups chinesas e outras empresas de IA, há preocupações de que a própria tecnologia de direção autônoma possa se tornar uma "caixa-preta", cujo mecanismo interno é desconhecido. A Toyota e seus fornecedores estão acelerando a internalização do desenvolvimento de IA ao realocar profissionais para funções ligadas a software, mas os avanços na área podem ocorrer ainda mais rapidamente. Segundo Tang Jin, do Mizuho Bank, as montadoras japonesas enfrentam três grandes desafios: talentos na área de software, acúmulo de dados e ambientes de testes. "A colaboração com fornecedores de IA e software é fundamental se as montadoras japonesas quiserem alcançar as startups dos Estados Unidos e da China", afirmou ele. "O ponto-chave será a eficácia com que conseguirão absorver o conhecimento adquirido nessas parcerias e, futuramente, transformá-lo em tecnologia própria." O Japão enfrenta uma demanda significativa por veículos autônomos, dada a escassez de mão de obra no setor de transporte e logística e a necessidade crescente de dar suporte a motoristas idosos. Há uma preocupação de que as montadoras japonesas possam acabar perdendo espaço em seu próprio mercado interno caso continuem presas a modelos de negócios tradicionais focados em hardware.