Andei intrigada na minha adolescência com os extraterrestres serem sempre versões modificadas do que conhecemos: humanoides, insetoides, polvoides. Por que tanta falta de imaginação? Anos depois, já neurocientista de plantão, entendi que de fato não tem jeito. Não existe um "centro da imaginação" no cérebro; tudo que podemos fazer é usar os elementos que vivenciamos ao longo da vida pelos sentidos e reorganizá-los de maneiras diferentes. Gary Larson, cartunista de "The Far Side", bem capturou nossa limitação ilustrando humanos pré-históricos correndo de discos voadores feitos de... paus e pedras.
Isso quer dizer que toda lenda humana tem que ter um fundo de verdade, uma fonte de inspiração em eventos reais. Dragões conjuram cobras e lagartos e incêndios que cospem fogo. Quimeras, então, são literalmente uma colagem de elementos. Pessoas dadas por mortas voltam à vida (o que significa que nunca estiveram mortas de fato).
E o ciclope, então, que faz uma aparição importante na "Odisseia"? Por que um grego contaria a estória de uma pessoa com um único olho na testa, se nunca tivesse visto algo parecido na natureza?
Pois eu aposto que os gregos, como povo pastoral, tinham amplo conhecimento de casos reais de ciclopia. Ela ocorre em humanos, em cerca de 1 em cada 250 embriões abortados, mas na nossa espécie ela é tão destrutiva que são raros os casos que chegam a termo –cerca de 1 em 16 mil nascidos vivos, que então logo morrem. Mas em cabras e carneiros a ciclopia é viável. Se você tiver curiosidade e estômago para ver animais com um olho só no meio da testa, o Google tem várias imagens ao seu alcance. Passada a estranheza inicial, eu acho eles até bonitinhos.






