O caixa das empresas brasileiras enfrenta uma combinação pouco confortável entre juros ainda elevados, crédito seletivo e contas que vencem antes da entrada efetiva das receitas. Um levantamento da Everblue mostra que mais de 60% do crédito disponibilizado em sua carteira tem como finalidade a antecipação de recebíveis, enquanto 40% é destinado a capital de giro, sinal de que, em parte relevante das operações, o recurso não financia uma venda futura, mas transforma em liquidez uma receita que a empresa já gerou e ainda não recebeu.

O movimento ocorre enquanto a inadimplência empresarial permanece em nível recorde. Em maio deste ano, mais de 9 milhões de CNPJs estavam negativados no país e acumulavam R$ 229,9 bilhões em dívidas, com quase 7 contas em atraso por empresa e dívida média de R$ 25,5 mil. Entre micro e pequenas empresas, eram 8,5 milhões de CNPJs inadimplentes, com R$ 198,8 bilhões em compromissos atrasados.

A pressão aparece também no preço do dinheiro: as taxas médias do crédito livre para pessoas jurídicas chegaram a 25,3% ao ano em abril, enquanto o crescimento do estoque de crédito às empresas desacelerou para 6,7% em 12 meses. O conjunto dos indicadores ajuda a mostrar que faturar não significa necessariamente ter dinheiro disponível no momento em que fornecedores, salários, tributos e outras despesas precisam ser pagos.