Desde julho mais 200 podcasts brasileiros publicaram episódios com 'Odisseia' no título, informa a plataforma de áudio Spotify 0.5x 1x 1.25x 1.5x 2x 00:00 00:00 Cena do filme 'A Odisseia', de Christopher Nolan: produção hollywoodiana despertou interesse do público pela cultura clássica — Foto: Reprodução No último dia 6, uma quinta-feira, o professor Élvio Cotrim começou a aula com um “sincero obrigado” ao cineasta americano Christopher Nolan, diretor de “A Odisseia”, sua ambiciosa releitura da obra de Homero que estreou nos cinemas há um mês e segue em cartaz. Professor de literatura e língua francesa na Universidade Federal Fluminense (UFF), há anos ele dá cursos livres sobre a “Odisseia” (o livro). Desta vez, como introdução ao curso (que é pago, on-line e dura quatro semanas), ele anunciou uma aula aberta sobre a adaptação. Divulgou a iniciativa no Instagram (onde soma menos de dois mil seguidores) e no Substack (sua newsletter tem pouco mais de 2,4 mil assinantes). Para seu espanto, cerca de 150 pessoas entraram em contato pedindo para assistir à aula. — Achava que iam aparecer umas dez pessoas, que íamos discutir o filme e acabou — diz Cotrim, que não gostou “nem um pouco” do longa. — O Odisseu do Nolan é um traumatizado de guerra, tem transtorno de estresse pós-traumático. É despido de todas as suas ambiguidades. O Odisseu original é mentiroso, caozeiro, dormia com as mulheres por onde passava, colocava as pessoas em situações ruins, não tinha uma mentalidade judaico-cristã. Goste-se ou não do filme (que, à certa altura, parece se transformar numa metáfora da tão falada decadência da civilização ocidental), tudo indica que os 172 minutos da superprodução de Nolan não foram suficientes para saciar a nova fome de cultura clássica do público. Por toda parte, pipocam cursos sobre a obra de Homero, diferentes edições do livro estão vendendo como nunca e Ítaca, a ilha de Odisseu, onde vivem cerca de três mil pessoas, anda sonhando com mais turistas, conforme disse o prefeito Dionysis Stanitsas à AFP. Já a ilha de Favignana, na Itália, onde “A Odisseia” foi filmada, espera faturar até US$ 287 milhões com turismo nos próximos três anos, informou o jornal La Repubblica. Buscas nas alturas Nos últimos 30 dias, cresceu a busca no Google por personagens como Calipso (3.600%), Circe (1.350%) e o próprio Odisseu (650%). Já no Spotify, a procura por “Odisseia” aumentou 14 vezes desde o lançamento do filme. Mais de 200 podcasts brasileiros publicaram episódios com “Odisseia” no título. Tradutor da edição da obra publicada pela Mnema, Leonardo Antunes relata que a audiência de seu canal no YouTube, dedicado à cultura clássica, cresceu nos últimos três meses — inclusive as visualizações do curso de grego que ele disponibilizou lá. Segundo levantamento da NielsenIQ BookData, há 33 edições da “Odisseia” no mercado, entre traduções do texto original (18) e adaptações (15). Somadas, elas já venderam 54,02% a mais este ano que no mesmo período de 2025. E o preço médio caiu de R$ 76,26 para R$ 69,55. Na semana de estreia do filme, as vendas aumentaram 51,9% em comparação com a anterior. As vendas da tradução de Christian Werner, publicada pela Ubu, subiram 400% e o livro está esgotado — a editora mandou imprimir mais 1.500 exemplares. A procura pela tradução de Trajano Vieira, vencedora do Prêmio Jabuti e lançada pela Editora 34, triplicou. O desempenho de outros clássicos gregos, como “Teatro completo” de Eurípides, também impressionou a editora. Na Companhia das Letras, as vendas da “Odisseia” (traduzida por Frederico Lourenço) cresceram 200% e o audiolivro da obra, narrado pelo ator Gustavo Falcão, tem saído mais que arrasa-quarteirões como a autoajuda “Rápido e devagar”, de Daniel Kahneman, e “Fogo e sangue”, de George. R. R. Martin, autor de “A guerra dos tronos”. Para o escritor e editor Antonio Xerxenesky, por seu status de clássico, a “Odisseia” sempre “intimidou” os leitores, no entanto, “graças ao filme de Christopher Nolan, muitos estão enfrentando o medo e descobrindo que Homero, quando bem traduzido, é muito mais acessível do que parece”. O cantor e compositor Lucas Santtana é um desses leitores. Ele assistiu ao filme e não gostou (apesar de tê-lo achado “plasticamente bonito”). Chegando do cinema, resolveu retirar da estante uma edição da “Odisseia” (traduzida por Donaldo Schüler) que estava lá estava juntado pó há um par de anos. — Por ser uma obra de quase três mil anos, achei que pudesse ser chata de ler, mas a leitura é muito fluida, a história parece uma novela. Não conseguia largar — diz o baiano radicado na França, que já consegue explicar seu incômodo como o filme. — Como Nolan adapta mitologia grega e omite os deuses? É como fazer um filme sobre futebol e não mostrar a bola. Dos deuses, só aparece Atena, sempre com cara triste. A representação de Circe também é absurda. No livro, ela é uma mulher linda, simpática, mora num palácio. No filme, é uma bruaca ressentida com os homens. E Calipso parece uma gatinha de Búzios, meio hippie. Por falar nos deuses... A imagem furiosa de Poseidon, deus dos mares que atrapalha a volta de Odisseu para Ítaca, mas que não dá as caras no filme, estampa a capa da versão em quadrinhos da “Odisseia” assinada pelo ilustrador americano Gareth Hinds e que acaba de sair pela Darkside (o anúncio da adaptação acelerou a publicação). Gerente editorial da casa, Bruno Dorigatti afirma que há uma “sinergia direta” entre o desempenho do filme nos cinemas e a procura pela graphic novel. Nova impressão de cópias Na semana em que a adaptação chegou aos cinemas, a editora Citadel observou um crescimento de 127,2% nas vendas de “Ilíada & Odisseia: reflexões sobre as obras-primas de Homero”, de Clóvis de Barros Filho. Para dar conta da demanda, foram impressas mais 20 mil cópias. — As pessoas não estão se contentando em conhecer a “Odisseia” à distância, no cinema. Elas estão indo atrás da fonte original, querem conhecer a história “de verdade” — diz o professor Élvio Cotrim, que, a partir de setembro, vai conduzir uma leitura guiada da obra na Janela Livraria do Jardim Botânico, no Rio. Em 30 de setembro, o Clube do Livro do Centro Cultural Banco do Brasil (CCBB), no Rio, vai promover um encontro dedicado à “Odisseia” com a presença de Carlinda Pate Nuñez, professora da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj). Desde que começou a frequentar os clássicos, na pandemia, a aposentada carioca Thaïs Chavarry sonhava com um curso sobre a “Odisseia”. Agora, ela se inscreveu em três: na leitura guiada oferecida por Rafael Brunhara na Escrevedeira (centro cultural em São Paulo), que teve o dobro de procura da primeira edição, em 2022, e em dois cursos de Giuliana Ragusa, professora de língua e literatura grega da Universidade de São Paulo, um da editora Ubu (que vai discutir as maiores virtudes de Odisseu, astúcia e a resistência) e outro na Sala Jaú, focado nas personagens femininas da epopeia. Thaïs não viu e não pretende ver o filme. Ouviu críticas demais e não é fã do cineasta — embora admita que a profusão de cursos sobre a obra de Homero, que tanto a beneficia, é mérito dele. Carioca vivendo em João Pessoa, na Paraíba, Julia Schmidt já conhecia bem a “Odisseia” e foi ver o filme de peito aberto. Estranhou a representações de personagens femininas como a deusa Atena, a rainha Penélope, a feiticeira Circe e a ninfa Calipso (que ela achou “apática”). Começou a se perguntar se havia “perdido alguma coisa” na leitura e, para tirar a teima, inscreveu-se no curso de Élvio Cotrim. — Eu poderia pesquisar essas diferenças no Google, mas ele não ia me trazer a construção literária, a poesia das cenas, nem o impacto que eu teria relendo o livro ou num curso — diz ela. — Por mais que a gente leia, sempre tem algo de inédito na “Odisseia”. É muito bonito e significativo que essa história milenar ainda nos deixe intrigados. É de se comemorar o impacto desse filme. Cada vez mais seguidores Moreno conta que tanto ele quanto o podcast não param de ganhar seguidores nas redes sociais. Ele sabe bem o que acontece quando Hollywood se volta aos clássicos. Lançou “Troia: o romance de uma guerra” (L&PM) em 2004, pouco tempo depois da estreia do filme com Brad Pitt. E o livro rapidamente escalou a lista dos mais vendidos. — Apesar de tudo, Nolan fez um bem enorme ao despertar o interesse do público para a cultura clássica. Mal ele teria feito se o pessoal estivesse saindo do cinema satisfeito, achando que agora conhece a “Odisseia” — diz Moreno, que, desde abril, está narrando a jornada de Odisseu no “Noites gregas”. — Estou relendo o livro com um novo olhar e o lápis na mão e descobrindo detalhes que nunca tinha visto.
Filme 'A Odisseia' desperta interesse do público pela cultura clássica: aumento da venda de livros e cursos sobre Homero
Desde julho mais 200 podcasts brasileiros publicaram episódios com 'Odisseia' no título, informa a plataforma de áudio Spotify
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