"A Odisseia", de Christopher Nolan, é o blockbuster que deu origem a um milhão de análises. As interpretações lotam meu feed nas redes sociais como os navios de Agamenon reunidos em Áulis. Ecoam em meus ouvidos como as vozes sedutoras das sereias. Elas... Tá certo, olha só, eu só estou tentando dizer que as pessoas têm muitas opiniões sobre o maior filme do ano.

E por bons motivos, porque o filme de Nolan foi calibrado com perfeição para a guerra cultural contemporânea. Primeiro, porque sua obra de origem é uma história que todos querem reivindicar: o movimento woke e o movimento anti-woke, masculinistas e feministas, cinéfilos e classicistas, defensores profissionais da civilização ocidental e aqueles que pretendem revisá-la e subvertê-la.

Outros clássicos são igualmente reivindicados e disputados, mas nem todos querem se apropriar de "A Ilíada" (masculina demais), Jane Austen (feminina demais), das tragédias gregas (deprimentes demais), do Novo Testamento (cristão demais) ou das peças de Shakespeare ( diálogos difíceis demais de acompanhar). Mas, tanto na vida quanto no épico de Homero, todos querem um pedaço de Odisseu.

Depois, tendo colhido o fruto mais maduro, Nolan tratou de servi-lo da forma mais insossa possível. Foram-se o sexo e a sensualidade, as divindades em guerra, o ego e o carisma desmedidos do herói. No lugar deles, há uma história muito americana, com clichês conhecidos dos filmes de guerra e dos faroestes, diálogos dignos de um romance juvenil contemporâneo e um moralismo ao mesmo tempo extremamente didático e extremamente genérico.