"Tu és pó e ao pó voltarás". A frase bíblica, do "Livro do Gênesis" parece nortear o longa potiguar "Leite em Pó", de Carlos Segundo, um filme de luto, segundo o diretor. E de música também. O filme foi exibido na competição nacional do 54º Festival de Cinema de Gramado.
Na apresentação, o cineasta o anunciou como seu primeiro longa. Que diabos! Ele parece renegar o primeiro de fato, "Fendas", exibido em festivais brasileiros em 2019. Não é um filme para ser renegado. De todo modo, "Leite em Pó" é melhor. Revela uma mão mais segura para os tempos internos da narrativa, que são os mesmos do protagonista Vicente, vivido por Vinicius de Oliveira, o menino órfão de "Central do Brasil", agora adulto.
Trata-se de um paulista que reside em Natal, RN, com sua avó. Pode-se dizer que sua vida é um tratado sobre o pó, desde a infância, quando só conseguia tomar leite se fosse com o pó diluído em água.
Apaixonado por rock, tenta ganhar a vida fazendo covers de bandas brasileiras de rock, versões constrangedoras para sucessos do Ira!, do Biquini Cavadão ou dos Titãs. Aos poucos, por saudade, passa a ouvir também sambas, inicialmente os de Agepê, preferido da avó.
Logo no começo, uma música toca na vitrola, até que algo a leva sempre a um ponto anterior da música. Percebemos que o disco está riscado, numa metáfora para a vida estagnada de Vicente, aos 38 anos. A avó, aliás, Zezita Matos, se enforca no lustre do quarto.







