Eleições 2026

A ausência de mulheres nas principais chapas presidenciais não é um evento fortuito, ou a mera exposição de estruturas patriarcais da sociedade brasileira, mas sintoma de mudanças profundas ocorridas ao longo das duas últimas décadas. Há uma aberta influência masculinista na ultradireita brasileira, em boa medida decorrente de velhas crenças – agora toleradas em uma sociedade mais permissiva para falas do tipo –, mas também inspirada em discursos cada vez mais populares globalmente.

Ante o crescimento deste imaginário, aumentam os estímulos a identificar lideranças políticas com certa virilidade masculina, em narrativa que toma as representações ordinárias sobre os homens como sinônimos de virtude. A circulação nas redes de vídeos de candidatos assumindo abertamente seu machismo, como Renan Santos, ou de influencers bolsonaristas atacando o voto feminino e o discernimento político das mulheres, caso de Paulo Figueiredo, não são deslizes ocasionais, mas consequências de um movimento político amplo e articulado. Compreendê-lo é fundamental para explicitar as disputas mais relevantes da política brasileira.

Por vezes, as maiores vitórias não estão em momentos bem delimitados, como nas eleições ou aprovações de projetos de lei, mas decorrem de transformações mais graduais e menos evidentes, que pautam ações políticas futuras. Delimitar o que é ou não disputado, quais são os consensos mais amplos e dissensos abertos, é um dos mais importantes terrenos da política. Quando atos ou discursos antes corriqueiros se tornam algo sobre o qual se temem as consequências, estamos, sem dúvida, diante de um movimento bem-sucedido. Isso vale para grupos à direita e à esquerda. Parte dos avanços da militância feminista ou negra passa não por acabar com o preconceito, mas por aumentar o custo de sua enunciação pública, o que dificulta a reprodução de lideranças, discursos e mesmo a organização de atores para defender certas pautas.