Em artigo, cientista político João Feres Júnior aborda como se dá a distância entre grupos raciais no autorretrato ideológico e no antipetismo a partir de resultados da pesquisa A Cara da Democracia 0.5x 1x 1.25x 1.5x 2x 00:00 00:00 Eleitor vota na urna eletrônica em 2022 — Foto: Custódio Coimbra Em julho, a pesquisa A Cara da Democracia saiu a campo para ouvir 2.010 brasileiros sobre atitudes políticas. Entre muitos resultados obtidos, dois deles, quando colocados lado a lado, tocam num tema pouco explorado no Brasil: a conexão entre raça e ideologia. O primeiro é o autoposicionamento ideológico, em que se pede ao entrevistado que se coloque numa escala de 1 a 10, da esquerda à direita. Brancos ficam com média 6,34, pardos com 6,25 e pretos com 5,92. Quatro décimos de ponto numa escala de dez é diferença irrisória, que não sobrevive aos testes estatísticos convencionais. Pelo autorretrato ideológico, pretos e brancos brasileiros são, na média, igualmente de centro-direita. O segundo resultado é o antipetismo, a rejeição espontânea ao PT quando se pergunta de que partido a pessoa não gosta. Aqui a distância aparece claramente: 29% dos brancos, 24% dos pardos e 16,7% dos pretos. Ela é grande e estatisticamente consistente. Seriam essas duas medidas do mesmo conceito, com respostas dissonantes? Acho que, na verdade, não expressam exatamente o mesmo conceito. Ideologia como autodescrição abstrata não se racializa no Brasil; ideologia como identidade partidária negativa, sim. A escala esquerda-direita, aliás, é medida notoriamente mal ancorada no eleitorado brasileiro. Ou seja, confirmando dado já explorado por uma miríade de trabalhos anteriores, o eleitorado brasileiro continua tendo relativa dificuldade de entender e, por conseguinte, se identificar com essa escala, ainda que isso venha mudando nos últimos anos. Isso importa porque o antipetismo é o maior canal identificado pelo qual a cor chega à preferência eleitoral. Decompondo as oito ondas da pesquisa A Cara da Democracia, desde 2018, a rejeição ao PT responde por 27% da distância entre brancos e pretos na preferência por Bolsonaro. Renda e escolaridade somadas explicam 10%. A clivagem racial no bolsonarismo não é, portanto, uma clivagem de classe disfarçada. A distância entre grupos raciais aparece em todas as faixas de renda: entre quem ganha até um salário-mínimo, 28,6% dos brancos votaram em Bolsonaro em 2022 contra 14,8% dos pretos; entre quem ganha mais de cinco, 52% contra 33%. Testamos se ela varia conforme renda, escolaridade ou religião. Não varia. Por outro lado, não podemos afirmar, como fazem alguns, que o bolsonarismo seria uma “ideologia” de brancos. Metade desse eleitorado é composta por gente que se identifica como parda, 35% como branco e 14% como preto. É importante considerar a religião também nessa análise do tema, pois sabemos que pretos e pardos são mais evangélicos que brancos, e que o evangelismo puxa para o bolsonarismo. Em outras palavras, se hipoteticamente tirarmos o efeito da religião, a distância racial nas preferências eleitorais seria maior ainda. Outro dado importante é que essa divisão nas preferências eleitorais – não no autoposicionamento ideológico, onde ela nunca existiu – parece ser recente. Em 2018, semanas antes da eleição que levou Bolsonaro ao poder, não havia clivagem racial alguma: 25,8% dos brancos, 23,5% dos pardos e 21,1% dos pretos declaravam intenção de votar nele, diferença indistinguível de zero. Ou seja, ela foi produzida ao longo dos oito anos seguintes. No espírito de guardar o melhor para o final, o dado mais intrigante da análise é que, depois de descontar renda, escolaridade, região, religião, posições sobre costumes, autoposicionamento ideológico e antipetismo, mais da metade da distância racial nas preferências eleitorais continua de pé. Qual seria a explicação para tal fato? Não temos evidências concretas sobre isso, pois somos limitados pelas perguntas da pesquisa, mas a hipótese mais plausível é que se trata de fatores ligados à experiência da discriminação racial cotidiana, à percepção de pertença a grupos racializados, à construção de identidades de resistência a processos sociais de exclusão, dominação e humilhação etc. Só para tomarmos um exemplo do nosso questionário, quando perguntados sobre as cotas raciais, os brasileiros se dividem de forma nítida: 46,9% dos brancos são contrários, ante 44,0% dos pardos e 34,6% dos pretos. Sabemos, portanto, que a raça organiza posições sobre política de igualdade racial. Suspeitamos que organize também a preferência eleitoral, e temos um resíduo grande apontando para isso. Só não perguntamos o suficiente para saber por quê. *João Feres Júnior é professor titular de Ciência Política do Instituto de Estudos Sociais e Políticos – IESP e da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ)
Artigo: raça, ideologia e identidade partidária no Brasil
Em artigo, cientista político João Feres Júnior aborda como se dá a distância entre grupos raciais no autorretrato ideológico e no antipetismo a partir de resultados da pesquisa A Cara da Democracia









