Uma gravação obtida pela Polícia Militar numa câmera de segurança mostra uma viatura passando pelo local onde estava o motorista do candidato ao governo de São Paulo Fernando Haddad (PT), na Rua Joinville, na Vila Mariana, na noite de terça-feira , sem registro de parada, desembarque de policiais ou contato com o condutor. Haddad relatou, no dia seguinte, uma suposta tentativa de intimidação por agentes da PM. Segundo o candidato, seu carro foi abordado de forma “um pouco ostensiva, mas rápida” e, depois de o motorista deixá-lo em casa, ele teria sido acompanhado pela viatura por cerca de cinco quilômetros, até as proximidades de um hotel na na Rua Joinville, na Vila Mariana. O Ministério Público Federal (MPF), por meio da Procuradoria Regional Eleitoral de São Paulo, abriu inquérito para apurar as circunstâncias da abordagem da Polícia Militar. De acordo com as imagens, um Ford Fusion prata chega na Rua Joinville às 21h58. Vinte segundos depois, o motorista de Haddad deixa o veículo, abre o porta-malas e pega um objeto no interior do carro. Às 21h59, ele retorna ao Fusion e permanece dentro do veículo. O carro fica parado no local por aproximadamente 26 minutos. Às 22h24, uma viatura da Polícia Militar passa pela rua. A gravação mostra o veículo policial seguindo pelo local, sem parar ao lado do Fusion. Não há, nas imagens, desembarque de policiais nem contato com o condutor. Depois da passagem da viatura, o motorista permanece no interior do Fusion. Às 22h26, pouco mais de dois minutos depois, o veículo deixa o local. A sequência não mostra uma viatura acompanhando o Fusion na chegada ou durante o período em que o carro permanece parado. O registro permite visualizar a chegada do veículo, a permanência do motorista no local, a passagem da viatura e a saída do Fusion. A equipe de Fernando Haddad afirmou que a gravação é compatível com o relato do motorista sobre a suposta abordagem. Segundo os assessores, a viatura aparece desacelerando e “tombando” para a direita, em um movimento que seria compatível com a informação de que o motorista havia estacionado naquele local e de que o veículo policial o teria seguido. Embora a câmera não mostre a frente da viatura, a equipe do petista afirma que é possível observar os ocupantes do veículo com os vidros abertos e olhando em direção ao carro. Segundo a campanha, existem registros das comunicações feitas pelo motorista durante a ocorrência. De acordo com os assessores, ele telefonou para seu advogado e trocou mensagens com ele no momento do episódio. Essas conversas estão documentadas por meio de prints e, segundo a equipe, podem ser apresentadas para comprovar que o relato foi feito na ocasião. Ainda de acordo com os assessores, o motorista manteve a mesma versão depois que o vídeo foi analisado. A gravação foi apresentada a ele e, mesmo após a análise, ele reiterou que a viatura o acompanhou durante todo o trajeto e seguiu até o hotel. A imagem integra a investigação preliminar aberta pela Polícia Militar para apurar o relato de uma suposta abordagem ao motorista de Haddad. O episódio veio a público depois de o candidato relatar que, após ser deixado em casa, o motorista teria sido seguido por cerca de cinco quilômetros por policiais militares, até ser abordado nas proximidades de um hotel na Vila Mariana. Haddad afirmou na quinta-feira que espera um esclarecimento sobre o episódio. Segundo o candidato, a abordagem ocorreu depois de um evento na Faculdade de Direito da USP, no Largo São Francisco. Ele relatou ter sido parado por um policial militar e posteriormente liberado. O motorista, então, teria seguido sozinho e sido acompanhado pelos agentes. O petista questionou a justificativa apresentada pela polícia para a abordagem. Segundo a versão transmitida pelo secretário da Segurança Pública, Delegado Osvaldo Nico Gonçalves, policiais realizavam uma operação para localizar suspeitos de roubos de celulares na Avenida Nove de Julho quando abordaram o veículo de Haddad. Haddad, porém, afirma que os horários não seriam compatíveis com essa explicação. Segundo ele, o boletim de ocorrência utilizado para justificar a ação registra um crime ocorrido às 23h10, enquanto a abordagem que relatou teria acontecido por volta das 21h45. — Me mandaram um boletim de ocorrência de um outro episódio das 23h10 da noite, uma hora e meia depois do que aconteceu, dizendo que aquela abordagem se deveu ao fato de que ocorreu um roubo às 23h10 da noite. Eu falei: “O que aconteceu comigo foi às 21h45”. Então, a menos que haja algum programa de inteligência sobrenatural que possa antecipar um crime em uma hora e meia, não fazia sentido nenhum aquela abordagem — afirmou Haddad durante visita à Fenasucro e Agrocana, em Sertãozinho, no interior de São Paulo. O boletim de ocorrência, registrado no 27º Distrito Policial (Campo Belo), relata uma ocorrência de roubo de celulares na Avenida Nove de Julho. Segundo o documento, testemunhas informaram aos policiais sobre o crime, cometido por um grupo que quebrava vidros de veículos, e os agentes passaram a procurar um Nissan Kicks preto. O Fusion prata dirigido pelo motorista de Haddad não é mencionado no registro como parte da ocorrência. O documento relata a localização de um Kicks na Avenida Indianópolis, onde cinco celulares e oito ferramentas conhecidas como “vídias” foram encontradas. Também registra a apreensão de um adolescente em outro ponto da região. Segundo o BO, ele teria afirmado fazer parte do grupo que estava no Kicks. Os policiais envolvidos na ocorrência, segundo o documento, não estariam utilizando câmeras corporais durante o serviço. Em nota divulgada após o relato de Haddad, a Secretaria da Segurança Pública informou que determinou à Polícia Militar a identificação das equipes que estiveram ou passaram pela região no período indicado para apurar as circunstâncias do episódio. A pasta afirmou ainda que o secretário Osvaldo Nico Gonçalves entrou em contato com Haddad para obter informações complementares sobre o trajeto e a situação relatada. Segundo a secretaria, “qualquer possível desvio de conduta será devidamente apurado”. A investigação da PM começou na tarde de quarta-feira, assim que a corporação tomou conhecimento do caso. Cerca de 70 câmeras privadas de residências e estabelecimentos comerciais ao longo do percurso indicado pelo motorista já foram analisadas. Até o momento, segundo a PM, as diligências não identificaram indícios de abordagem ou de procedimento irregular por parte dos policiais, nem interação das equipes com Haddad ou integrantes de sua equipe. Além da análise das imagens, a identificação e o percurso das viaturas foram conferidos pelo sistema de geolocalização dos veículos. A apuração ainda está em andamento e poderá ser convertida em inquérito caso sejam encontrados indícios de irregularidades. Na noite de quinta-feira o governador Tarcísio de Freitas afirmou que a polícia deveria analisar as imagens e ouvir formalmente o motorista. — A polícia já observou as câmeras, já observou o movimento, as ruas, se entrou no hotel, se não entrou no hotel. (E vai) chamar o motorista para prestar esclarecimentos, dessa vez de forma oficial e aí acompanhar o inquérito, para esclarecer tudo — disse.