O Ministério Público Federal (MPF), por meio da Procuradoria Regional Eleitoral de São Paulo, abriu inquérito para apurar as circunstâncias da abordagem da Polícia Militar ao veículo do candidato Fernando Haddad (PT), que concorre ao governo do estado contra Tarcísio de Freitas (Republicanos), atualmente no cargo. Na noite de terça-feira (11), Haddad relatou uma possível tentativa de intimidação ao seu motorista, que não teve o nome divulgado. O candidato retornava de um evento na Faculdade de Direito da USP, por volta das 22h30, quando uma viatura "jogou luz no pára-brisa" para checar quem estava dentro do carro. Após deixá-lo em casa, o motorista seguiu viagem e teria sido seguido por vários minutos. O petista acionou a Secretaria Estadual de Segurança Pública no dia seguinte, ao saber da notícia, e recebeu como explicação do governo que a viatura da PM em questão tentava localizar uma gangue do "quebra-vidro" na região central da cidade. Os veículos, porém, eram diferentes, e Haddad alega que o horário da ocorrência não condiz com o do relato. A coligação "Desperta SP", liderada pelo PT, entrou com uma notícia de fato no MPF "em face de supostos atos de intimidação e coação policial contra o candidato ao governo do estado Fernando Haddad". Despacho assinado pelo procurador regional eleitoral Paulo Taubemblatt autorizou a instauração do inquérito. "A coligação destacou o nexo temporal entre os fatos e as críticas públicas proferidas pelo candidato à gestão da Segurança Pública estadual em debate televisivo ocorrido dois dias antes, sugerindo uma possível retaliação institucional", aponta o documento. Trata-se do primeiro debate entre Haddad e Tarcísio nestas eleições, realizado no domingo (9), pela TV Band. O procurador afirma que o relato do partido indica "possível prática de abuso dos poderes político e de autoridade, mediante a utilização da máquina pública e do aparato policial estatal para coagir ou intimidar candidato durante o processo eleitoral" e pediu documentos, no prazo de cinco dias, para o secretário da pasta, delegado Osvaldo Nico Gonçalves, e para a comandante-geral da PM, coronel Glauce Cavalli. b) a expedição de requisição à Senhora Comandante-Geral da Polícia Militar do Estado de São Paulo, Coronel PM Glauce Anselmo Cavalli, para que encaminhe: b.1) o plano estratégico e operacional do batalhão responsável pelo policiamento ostensivo no bairro Planalto Paulista, incluindo as diretrizes relativas aos programas de policiamento ostensivo, tais como setorização de áreas, rádio-patrulhamento motorizado e operações especiais, no mês de agosto de 2026; No caso da PM, o MPF pede o plano estratégico e operacional do batalhão responsável pelo policiamento do bairro Planalto Paulista, além da delimitação dos "setores de patrulhamento" da guarnição e detalhes sobre "itinerários e pontos de estacionamento previamente determinados". Requer ainda as ordens de serviço emitidas dos dias 1º a 11 de agosto, dados das viaturas e dos policiais e a identificação dos agentes envolvidos na ocorrência. Nico, por sua vez, é instado a prestar "informações acerca dos fatos relatados, especialmente quanto à existência de eventual ordem, autorização ou anuência dessa pasta para a realização de patrulhamento ostensivo no bairro Planalto Paulista, em 11 de agosto de 2026, bem como quanto aos motivos que teriam ensejado a adoção de tal medida", no mesmo prazo de cinco dias. Outra frente de apuração envolve o Hotel Pulmann, em Vila Mariana, onde o motorista diz ter se abrigado próximo após rodar junto com a viatura, para ser filmado por câmeras de segurança. Ele afirma que desceu do carro nesse momento para perguntar aos policiais o que estava acontecendo e ouviu "vaza daqui". O despacho solicita imagens das câmeras naquela data, após 21h40 da noite. Entenda o caso O caso teria ocorrido na noite de terça, quando o petista retornava para casa depois de um evento na faculdade de Direito da USP, no Largo São Francisco. — O meu carro foi abordado por uma viatura da Polícia Militar de forma um pouco ostensiva, mas rápida. Eu estava chegando na minha casa. Achei um episódio relativamente normal, acontece de você estar fazendo uma ronda. Mas o meu carro, depois que me deixou em casa, foi acompanhado por essa viatura da polícia durante muito tempo, de forma um pouco ostensiva e intimidadora — afirmou Haddad, no dia seguinte, ao participar de uma sabatina da OAB. Em um primeiro momento, os policiais usaram lanternas para verificar quem estava dentro do carro. Haddad entrou em casa e o motorista seguiu viagem. De acordo com ele, contudo, a viatura da PM continuou acompanhando o veículo, "emparelhando" ao lado e chegando "muito perto" da parte traseira. Os policiais não teriam ligado os faróis nem o giroflex durante o percurso. Só teriam desistido da abordagem quando o motorista estacionou no hotel e foi perguntar o que estava acontecendo. No final da tarde, o secretário estadual de Segurança Pública, Osvaldo Nico Gonçalves, afirmou ao GLOBO que uma investigação foi determinada por Tarcísio e concluiu que não houve tentativa de intimidação a Haddad, e sim uma operação contra quatro suspeitos de roubarem celulares na Avenida 9 de Julho, em São Paulo. – Falei com Haddad e com o motorista dele. Ele deixou o candidato na casa dele e ficou na porta. Como houve na região um (assalto da gangue do) quebra-vidro, com quatro bandidos, a viatura passou, o carro do Haddad saiu e os policiais foram atrás — declarou o secretário. O GLOBO teve acesso ao boletim de ocorrência, emitido pelo 27º Distrito Policial, de Campo Belo. Os policiais em patrulhamento de rotina foram abordados por testemunhas relatando o crime, segundo o documento, e iniciaram as buscas por um veículo "Kicks preto". Não há menção ao episódio com o motorista de Haddad, cujo motorista dirigia um Fusion prata. Os agentes também não estariam portando câmeras corporais ("bodycams") durante o serviço, aponta o BO. A apreensão do veículo ocorreu na "Avenida Indianopólis, nº. 500", disseram os policiais. O documento menciona ainda que uma outra equipe prendeu um adolescente no cruzamento da Av. 9 de Julho e a R. Japão e que ele teria confirmado a participação na gangue.
MPF instaura inquérito para apurar caso do motorista de Haddad abordado pela PM de SP
Coligação do PT alega 'nexo temporal' entre críticas no debate da TV Band com o caso e pede apuração externa












