O colunista Renato Bernhoeft escreve sobre as transformações sociais que impactam a cultura do cuidado familiar com idosos 0.5x 1x 1.25x 1.5x 2x 00:00 00:00 As últimas informações e análises sobre a forma como os idosos vem sendo tratados no mundo atual em países como Japão, Suíça, Coréia, França, Itália e outros tantos, também começa a ganhar espaço no Brasil. Nossa cultura tradicional de cuidado familiar ainda é fortemente marcada por valores de solidariedade e vínculos afetivos. O modelo de família extensa, onde filhos, netos e outros parentes cuidam dos mais velhos, sempre foi predominante, diferente da cultura japonesa, que valoriza a autonomia e o recato até o final da vida. No entanto, o Brasil também vive profundas transformações sociais que ameaçam essa tradição como, por exemplo, as mudanças nas estruturas familiares. Nos dias atuais temos famílias menores e, ao mesmo tempo, tem aumentado o numero de idosos vivendo sozinhos ou em situação de dependência. Há também a questão da urbanização e mobilidade. Muitos filhos têm se afastado da casa dos pais cada vez mais cedo em busca de liberdade, estudos e na tentativa de realizar seus projetos pessoais. Outra mudança tem relação com as pressões econômicas. Tem sido muito comum as famílias ficarem sobrecarregadas financeiramente, o que cria dificuldades para cuidar dos idosos em casa ou para arcar com serviços privados de cuidado. Sem contar que boa parte dos que estão se aposentando, seja na classe média ou nas menos privilegiadas, não criaram uma reserva financeira para essa etapa da vida, enquanto o valor da aposentadoria não permite, para muitos idosos, manter seu padrão de vida. As mudanças nas estruturas familiares e o enfraquecimento das redes comunitárias são alguns dos fatores que ajudam a explicar a situação de dos idosos atualmente, aponta colunista — Foto: Freepik E existe ainda o problema relacionado ao enfraquecimento das redes comunitárias. Especialmente nas áreas urbanas e de rápido crescimento, o sentimento de apoio comunitário está em declínio. Mesmo morando em condomínios, prédios ou bairros residenciais, as pessoas tem se mantido cada dia mais isoladas, inclusive por conta dos temores provocados pela violência, insegurança e clima de medo. Apesar de o Brasil ainda registrar índices de suicídios de idosos mais baixos que os do Japão ou Coréia do Sul, existe uma tendência preocupante: o aumento lento, mas consistente, de casos de depressão, abandono, negligência, solidão e suicídios entre a população idosa. Especialmente após a aposentadoria. Segundo dados recentes do Ministério da Saúde, as taxas de suicídio entre idosos brasileiros, especialmente entre homens de 70 anos, são mais altas do que em outras faixas etárias. Esses números sugerem que, embora a cultura brasileira valorize o cuidado, ela também está sendo pressionada pelas mesmas força globais que favorecem o isolamento e o abandono. Além disso, o Brasil carece de políticas públicas robustas de atenção ao idoso. Programas como o Estatuto do Idosos existem, mas sua implementação é muito desigual. Muitas famílias assumem o cuidado sozinhas, sem apoio estatal efetivo, o que gera sobrecarga emocional, financeira e, em alguns casos, abandono silencioso. Entretanto, a grande diferença entre o Brasil e o Japão talvez esteja na percepção social da velhice. Enquanto no Japão o idoso tende a se isolar por vergonha de ser um fardo, no Brasil o idoso ainda busca – ou espera – ser cuidado pela família. Mas os riscos são os mesmos na medida que o tempo passa. Afinal, os índices de longevidade estão aumentando em paralelo com a os baixos índices de natalidade. Este é mais um assunto para ser incluído na agenda das famílias. Renato Bernhoeft é fundador e presidente do conselho da höft consultoria.
O dilema do envelhecimento no Brasil
O colunista Renato Bernhoeft escreve sobre as transformações sociais que impactam a cultura do cuidado familiar com idosos







