Suicídio induzido expôs omissão da plataforma, mas ANPD agiu de modo intempestivo para agradar Janja 0.5x 1x 1.25x 1.5x 2x 00:00 00:00 A plataforma Discord — Foto: MAURO PIMENTEL / AFP A morte de uma menina de 13 anos na pequena Naviraí (MS) deu realidade aos piores temores dos pais de adolescentes. As investigações revelaram que ela foi induzida a se mutilar e ao suicídio por um grupo reunindo um jovem de 18 anos e cinco adolescentes durante transmissão ao vivo na plataforma Discord. Diferente de uma rede social convencional, o Discord oferece a possibilidade de abrir canais privados com ferramentas de comunicação por voz, vídeo, texto ou transmissões ao vivo (lives). A repercussão do caso foi tão grande que a primeira-dama Janja Lula da Silva exigiu que o Discord fosse “imediatamente” retirado do ar. Menos de uma semana depois, a Agência Nacional de Proteção de Dados (ANPD) suspendeu as transmissões ao vivo e recursos de compartilhamento de vídeo da plataforma no Brasil. Há vários motivos para criticar a medida. O mais evidente é o exagero da sanção, aplicada a todos os usuários da plataforma. Crimes são tramados diariamente pelo celular, sem que a Agência Nacional de Telecomunicações suspenda o serviço de telefonia em todo o país. Diversas empresas de tecnologia instaladas no Brasil usam o Discord para comunicação interna, por ver valor em seus recursos. Não há razão para puni-las, nem aos demais usuários que respeitam a lei. A ANPD, cujo mandato exige atuação independente do Palácio do Planalto, extrapolou ao ordenar a retirada dos recursos do ar no momento em que o Ministério Público de São Paulo e a própria Advocacia-Geral da União discutiam saídas com a plataforma. O Discord tem representante legal no Brasil, em nenhum momento se recusou a cooperar com as autoridades e reconheceu a necessidade de reforçar os alertas automáticos que acionam revisão humana para acompanhar conteúdos sensíveis em transmissões ao vivo. A exemplo de aplicativos de mensagem como WhatsApp ou Telegram, o Discord usa criptografia de ponta a ponta para garantir a privacidade das comunicações. Em princípio, isso não impede a plataforma de adotar uma política preventiva mais rigorosa. É possível identificar perigos a partir de sinais comportamentais, padrões de uso, relação entre contas ou denúncias. Foi esse sistema que falhou. No caso da jovem de Mato Grosso do Sul, a atividade no canal só foi encerrada pelo Discord 25 minutos depois do alerta da inteligência da polícia. Há tecnologia e procedimentos de segurança mais ágeis e eficazes. Empresas de tecnologia poderiam exigir análise de imagens faciais para barrar acesso de adolescentes em grupos com maiores. Em caso de dúvida, o usuário deveria ser obrigado a apresentar documento de identidade, como exige o ECA Digital. Uma alternativa para evitar crimes cometidos por adolescentes é reduzir a garantia de sigilo em seus canais. Tudo isso depende de medidas que a plataforma poderia tomar sem precisar ser retirada do ar. É indiscutível que não basta exigir tal comportamento apenas do Discord. Os criminosos podem muito bem migrar para outra plataforma mais permissiva, e o risco persistirá. Em vez de deixar as autoridades agir ou exigir legislação mais eficaz do Congresso, Janja preferiu um clamor puramente demagógico, cuja aplicação intempestiva pôs o Brasil no grupo infame de países que censuram o Discord, encabeçado por ditaduras como Rússia, China ou Irã.
Tirar do ar lives do Discord foi medida desproporcional
Suicídio induzido expôs omissão da plataforma, mas ANPD agiu de modo intempestivo para agradar Janja











